Norman está dormindo.

É possível afirmar que a terceira temporada de Bates Motel foi preparada com muito mais cuidado do que a segunda. Tenho conseguido identificar propósito nos detalhes, e isso é essencial para uma série com uma narrativa que nem sempre proporciona momentos de fundamental importância para o desenrolar da trama central. Muitas vezes a série se preocupa em apresentar características comportamentais de seus personagens através dos empecilhos que surgem em seus caminhos, e numa trama em que muitas vezes os personagens são mais importantes do que os acontecimentos em si, é fundamental que essas criaturas sejam desenvolvidas com bastante competência por parte do roteiro.

Bates Motel acerta nesse aspecto. O cuidado extremo com o desenvolvimento de Norman Bates é visível e justificável, uma vez que, apesar de sabermos o futuro de Norma, é apenas com Norman que temos contato no filme. E partindo desse ponto fica claro a importância desse episódio para a estruturação daquilo que Bates Motel tem como objetivo, que é entregar o passado desse personagem e mostrar as etapas que foram levando o mesmo a se tornar o psicopata do cinema.

Norma Louise foi um episódio com diversos acontecimentos. É fácil o mais ágil da história de Bates Motel, e sem sombra de dúvidas ficará marcado na cabeça dos fãs da trama para sempre. Como de costume Bates Motel desenvolve sua narrativa se pautando em certas dúvidas, instigando o telespectador na busca por respostas. Afinal, por que Norma reagiu daquela forma ao saber que Caleb estava na cidade? Há algo importante sobre o passado deles que ainda não sabemos?

“O surto de Norma Bates”

Norma estava tomada por uma raiva incontrolável. Nós sabemos como ela reage a grandes problemas, e essa não é a primeira vez que vemos a personagem fora de si. É possível perceber que muitas vezes Norma tenta fugir daquilo que a aterroriza. E é fato que ela não conseguiria ficar longe de Norman por muito tempo, mas naquele momento parecia imperdoável o fato de seu “querido filho” ter pedido para ela entender o lado de seu “irmão estuprador”, então o melhor a se fazer era saciar o desejo de sua alma, fugindo para nunca mais voltar.

Cansada. Norma estava esgotada de tudo e todos. E para encontrar seu “escape” ela resolve tomar algumas atitudes peculiares. O primeiro item da lista nós conferimos no final do episódio passado: Descontroladíssima, ela resolve fazer a mala e fugir de casa sem dar qualquer explicação aos filhos. Em seguida ela para o carro na estrada, arranca o revólver e atira em seu celular. Percebam que Norma eleva a décima potência coisas simples (não bastaria retirar a bateria do celular ou jogá-lo pela janela?), tudo na tentativa de extravasar aquilo que a atormenta por dentro.

Próxima etapa do Terapia com Norma Bates já é aderido por grande parte das mulheres: comprar loucamente. E ai da vendedora que se meter no meio do processo com qualquer “posso ajudar?” ou “você só pode entrar no provador com três itens”. Depois de dar um tapa no visual, e trocar de carro (Norminha tinha crédito pra trocar de carro, mas fica mendigando piscina pra bandido perigoso da cidade, estamos de olho) ela parte para a última etapa de seu surto que é: curtir a night com uns bons drinks.

Mas no meio de todo o processo o vazio passa a tomar conta de Norma. Ela percebe que por mais que tente não conseguirá fugir dos problemas, uma vez que eles sempre irão acompanha-la (isso fica claro na cena em que ela se sente obrigada a fazer sexo com o cara que acabou de conhecer e ao recusar percebe certa resistência por parte dele).

E é com a ajuda de Finnigan que Norma consegue falar um pouco do que verdadeiramente sente. Quando encara seus problemas de frente ela resolve dar um fim à situação e enfrentar seu tão temido irmão.

“O surto de Norman Bates”

A reação de Norman ao ver sua mãe partir já era um sinal de que as coisas não ficariam bem sem ela ali. A sensação de que Norma talvez nunca mais voltasse passou a tomar conta da mente do personagem.

Norman é obcecado por tudo que sua mãe representa. Ela é a mulher protetora, forte e que está sempre presente em sua vida. Não tê-la por perto não é apenas um perigo, mas algo que ele não admite. É necessário lembrar que a mente de Norman passou a criar uma figura de sua mãe que justifica aquilo que ele faz de errado, e que influencia algumas de suas atitudes.

Mesmo que a verdadeira Norma não esteja por perto, ele encontrará uma forma de fazê-la estar presente. E o grande momento em que ele “incorpora” sua mãe é entregue com excelência pela série. É um show de atuação, direção e roteiro, com Freddie Highmore num momento esperado e delicadíssimo, mostrando que não haveria alguém melhor para interpretar o personagem. É incrível como ele dá vida a um personagem tão complexo com tamanha naturalidade.  Também não posso deixar de mencionar Max Thieriot, uma vez que Dylan foi o escolhido para confrontar Norman numa cena tão importante, e se mostrou competente com uma reação de desconforto e surpresa.

“O surto de Romero”

Logo no início do episódio Romero leva um tiro e vai para o hospital. Esse não era qualquer acontecimento, uma vez que alguém estava disposto a mata-lo, e isso era sinal de que Norma também estava em perigo, ou seja, o tal acordo não iria ocorrer como planejado.

E ironicamente no momento em que Romero parecia mais fraco e indefeso, estávamos a alguns passos de conhecer o f*cking Alex Romero. Mais um show de direção na cena em que ele mata o pra lá de pretensioso Marcus Young, e foge do hospital com o carro do cara. Fui pego totalmente de surpresa, sendo que esse já é um dos momentos mais memoráveis da série.

E essa figura “imbatível” de Romero ganha novo fôlego após esse acontecimento, uma vez que o personagem estava um tanto quanto apagado na temporada, mesmo com todo o clima ao redor de sua relação com Norma, Romero sempre representou esse cara capaz de acabar com qualquer bundão que entre em seu caminho.

“Norma vs. Caleb”

Finalizando o episódio tivemos a cena em que Norma resolve falar com seu irmão, um momento muito aguardado por Dylan, e logicamente, pelo público que tem acompanhado a série. Uma cena pesada, com bastante apelo emocional e que encerra essa trama que tem sido um dos pilares da temporada.

A partir desse momento em que os dois se abraçam e choram surgem alguns caminhos que podem ser trilhados pelo roteiro. Caleb talvez permaneça na cidade, se aproximando de Norma, ou quem sabe siga seu rumo no misterioso serviço oferecido por Hogan. É necessário aguardar para ver como a trama abordará esses relacionamentos daqui para frente, mas é bom ver que faltando quatro episódios para o final da temporada, tudo isso já foi resolvido de uma maneira convincente e que justifica a presença desse personagem na série.

Norma Louise foi um episódio competente em tudo que se propôs. Um dos mais fortes de toda a série, trazendo alguns desfechos conclusivos e deixando abertura para o desenvolvimento de outros plots que ainda estão em aberto. Bates Motel é responsável por uma das melhores horas da tv americana atual, e episódios como esse deixam claro para o público que a trama não está apenas enrolando, mas se desenvolvendo com bastante habilidade.

Observações:

• Vocês também estão sentindo certo clima entre Dylan e Emma?

•• Será que teremos mais flashbacks do passado de Norma e Caleb?

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