Quando o primeiro episódio de The Last Man on Earth foi ao ar, a crítica foi unânime em anunciar que esse era um dos pilotos mais promissores dos últimos tempos. E com uma equipe criativa como a que está por trás do programa, ninguém imaginava que as coisas fossem desandar tão rapidamente como aconteceu. Semana a semana, a série sobre o último homem na face da Terra ia se provando menos original e – pior ainda – menos engraçada. Mas parece que as coisas começaram a mudar.
O primeiro episódio do dia, The Do-Over, começa preso na fórmula que estamos aguentando há tempos, com Phil cansado da vida que conseguiu. Tão cansado que decide fazer aquilo que atraiu todo o público da série lá atrás: ficar sozinho. Assisti-lo queimando os itens da lista de compras de Carol e discutindo com Deus é não só um throwback para o piloto como também a confirmação de que ter o protagonista sozinho por mais alguns episódios foi uma ótima chance jogada fora.
Ironicamente, ao conceder o desejo de Phil de refazer sua vida, “Deus” acaba cometendo o mesmo erro pela segunda vez na série. A introdução de Gail e Erica impede, pelo menos por enquanto, qualquer chance de que Phil fique sozinho por mais uns tempos. E é aqui que a série parece cair, novamente, no ciclo ‘mentiras -> lição de moral -> mais mentiras’ que vem se repetindo há algumas semanas.
Mas por mais batida que esteja, é interessante ver como a situação vai chegar ao ponto onde os dois grupos (Erica e Gail; Carol, Melissa e Todd) se encontram e Phil é visto como babaca por todos por ter mentido mais uma vez. Especialmente porque The Do-Over consegue encaixar alguns momentos divertidos num episódio bastante irregular*, como as novatas deixando suas intenções para com Phil bem claras ao gemerem descaradamente na mesa de jantar (o que me fez suspeitar, por um segundo, que tudo não passava de um delírio).
*Além de racismo e preconceito na cena incrivelmente constrangedora do jantar, o episódio ainda achou espaço para tratar, mesmo que por cima, de traição conjugal.
Enquanto Phil se prova o maior canalha da face da Terra (não que isso signifique muito), Todd e Carol defendem o protagonista para Melissa. É cedo demais para saber se Gail e Erica vão cair nessa categoria, mas um dos problemas que mais me incomodam em The Last Man on Earth é justamente a falta de profundidade dos outros personagens, que até agora não deixaram de ser meros figurantes na História Do Phil Miller.
Assim, The Do-Over termina com os dois grupos se encontrando, para o terror de Phil. A sorte é que a combinação deste com o próximo episódio funciona tão bem que o transforma de algo passável em uma primeira metade indispensável para o que vem a seguir.
1×10: Pranks for Nothin’

E olha, como tem coisa para processar em Pranks for Nothin’. Antes de chegar onde devia ter chego há pelo menos uns cinco episódios, The Last Man on Earth leva Phil até o fundo do poço mais uma vez. Desprezado por todos – inclusive por uma Carol fantasma –, ele se refugia em sua man cave com seus amigos-bolas (até o Gary acidentado está lá) para pensar em como sair da lama. Phil sendo Phil, antes ele vai passar por ridículo, dessa vez inventando um irmão gêmeo de cabelo brega e recebendo gelo até de uma vaca.
Apesar do modo como Carol reage à situação em que está metida ser tão característico da personagem, a raiva que nutre por Gail e Erica não faz muito sentido se pararmos para pensar que o único culpado nessa história é seu próprio marido. Mesmo assim, o tempo gasto com as reações dos coadjuvantes em relação às novas adições do elenco indicam que The Last Man on Earth está prestes a mudar.
Pra que a série avance, no entanto, o protagonista deve primeiro se arrepender de verdade. É entre garrafas vazias de álcool que a ficha de Phil cai de uma vez por todas. E caso você não tenha entendido isso ainda, a série faz questão de deixar bem claro como ele é um cara horrível através dos flashbacks das incontáveis vezes em que ele mentiu e trapaceou por seu próprio bem.
E assim chegamos ao momento derradeiro da semana. Depois de uns gritos pra se fazer ouvido, Phil começa sua lista de desculpas. À Gail e Erica, à Melissa, a Todd. E à Carol. Começar com “a gente nunca devia ter se casado” é bem pesado, mas é direto ao ponto, parte da nova conduta de Phil e que leva Carol a se encontrar com o marido para a discussão mais real da série até agora.
Pela primeira vez, a personagem deixa de ser um cliché e ganha contornos reais. Assumir que seu casamento nunca funcionou por mais que tivesse tentado consertá-lo é assumir que perdeu, o que Carol o faz com toda a idiossincrasia que a define, e aceitar que também tem culpa no cartório acaba aproximando os dois, culminando no primeiro beijo verdadeiro do casal. A química entre Will Forte e Kristen Schaal, até então quase inexistente (por escolha dos dois), começa a dar as caras, por incrível que pareça, justo quando os dois assumem que não foram feitos um para o outro.
Ainda há inúmeros aspectos a melhorar para que o programa volte a subir no conceito de muita gente, mas não dá pra negar que Pranks for Nothin’ pareceu colocar The Last Man on Earth de volta nos trilhos. Esta continua sendo a jornada de um único homem – que agora começa a ter noção do que fazer para se tornar uma pessoa melhor –, mas, como nenhuma série se sustenta com um único personagem, o episódio dá esperança de que há muito mais a ser explorado nessa história além do último homem na face da Terra.
Outras observações:
– Faltam três episódios para o final da temporada (diferentemente do que eu anunciei na última review, desculpem-me), será que dá tempo de TLMOE se redimir?
– Se é pra que Phil e Carol passem a gostar um do outro, que isso fique para a próxima temporada, que já está garantida.
– O crédito de “special guest star” para as atrizes de Gail e Erica é indicação de que as duas não ficam pra sempre na série, né? E as duas chegam a Tucson porque estão viajando pelo país cumprindo bucket list, então…
– Os melhores momentos de comédia sempre vêm da Carol. Até dormindo ela é engraçada! Fora que…
– “Yes, where are the dirty magazines?” “They’re in the garage in a box labeled ‘molested girls’.”















