E se Outlander fosse contada a partir do ponto de vista de Jamie? 

Que a vida é feita de escolhas nós já sabemos, mas quantas vezes paramos para pensar se as escolhas da vida são tomadas da melhor forma possível? Quando temos uma proposta de trabalho, por exemplo, podemos nos recolher confortavelmente e pensar sobre o assunto. Ponderar as mudanças que se instalaram caso aceitemos, calcular os ganhos, os gasto e até dar o luxo de sonhar com as novas possibilidades. Mas e quando a vida exige uma resposta rápida? Quando temos que decidir, por direita ou esquerda, em um piscar de olhos? Não adianta. Sempre seremos influenciados por nossas prioridades e sempre, sempre, as prioridades são ditadas por nossos corações. Chame isso de piegas (e é mesmo), mas também é verdade. Mesmo quando não aceitamos uma resposta emocional a uma escolha, tendemos a racionalizá-la até parecer que foi uma escolha objetiva e impessoal.

Outlander é curiosa. Ela possui a roupagem genérica de adaptações literárias, de épicos, de romances e de aventuras. Ela toca em assuntos políticos e mexe com questões ideológicas e sociais. No entanto, o cerne da série está no olhar feminino e, principalmente feminista, predominante na narrativa. Desde o primeiro episódio, ouvimos as palavras de Claire, então Randall, divagando sobre a vida comum após a participação na Segunda Guerra Mundial, a relação amorosa em reconexão com o marido e, quando transportada para o século XVIII, sobre as inseguranças de ser uma mulher do século XX presa em um cenário opressor às liberdades alcançadas. Se Claire falava sobre amor, ela descrevia o sentimento conflitante de estar situada entre dois amores em séculos díspares e do desejo derivado da falta de intimidade do sexo (que lhe era tão quisto). Até mesmo na hora de colocar em ação uma cena de sexo, este era exposto de forma orgânica, igualitária e celebrativa de ambos os corpos e suas capacidades. E esse é o motivo que tornou tão ousado esse retorno de Outlander. The Reckoning tinha diversas possibilidades de reinserir o público em sua atmosfera e escolheu a forma mais interessante, elegante e sagaz: o olhar de Jamie Fraser.

A narrativa do escocês é novidade, tanto para os leitores dos livros, quanto para os espectadores da série, mas é uma bela surpresa. O ponto de vista do Highlander (que não é o guerreiro imortal) é interessante e cria um belo contraste com o que vemos através de Claire, principalmente quando, mais uma vez, a série preenche um espaço deixado pelo livro e nos presenteia com a invasão do Fort William. E, desde então, o ponto de vista de Jamie começou a trazer os frutos necessários para o episódio. Seria impossível fazer alusão a estas cenas através da narrativa da Sassenach. Esta estava frágil e violentada em um nível tão pessoal, humilhante e desesperado que, mesmo que o marido lhe contasse como tinha sido a invasão ao forte, não teria gerado o impacto necessário para a amenização de cenas posteriores. Além disso, Outlander é um projeto televisivo e não literário, então os roteiristas tinham que encontrar uma saída para mostrar a ação da investida dos escoceses, uma vez que imaginar o mesmo é fundamento básico de literatura. Independente do caso, o retorno do imenso hiato funcionou muito bem e matou logo a saudade do show.

E, ainda sobre o início, vale o elogio para o roteirista Matthew B. Roberts e para Sam Heughan que, nos primeiros segundos do episódio, deixaram clara a diferença entre as visões de mundo dos dois protagonistas, através da entonação e das palavras da narração. Claire entrega uma miríade de sentimentos complexos e sua voz interpreta cada uma das emoções das situações, transpondo o cansaço, o medo, o desejo ou até mesmo a autodepreciação. Jamie, por outro lado, contempla seu passado, sua postura como homem, a importância de suas decisões com uma voz contemplativa e quase monotônica. Junto ao pequeno prólogo, logo após a abertura da série, que mostrava o rapaz colocando suas vestes tradicionais escocesas, a narração estabeleceu uma ode à dedicação de Fraser a sua cultura, às tradições e ao cuidado que deve ser tomado ao se escolher algo, devido às implicações sérias que isto traz consigo.

E isso traz uma camada extra de complexidade à discussão entre o casal, após a fuga de Fort William. As palavras de Jamie alimentavam a decepção de Claire e os demais sentimentos negativos que ocorreram após sua última visita a Craig na Dun. Ela não podia dizer a verdade para Jamie. Não podia contar que se afastou do local que ele a deixara para realizar a tentativa de retornar para os braços do outro homem que ela ama. A Sra Fraser tem que omitir a verdade por trás de sua captura e não dar motivos para seu perambular a fez culpada o suficiente aos olhos do marido. Diante disso, a frustração pela aparente ingratidão da esposa é compreensível. Arriscar sua vida, e a de seus homens, por sua esposa, metendo-se em um forte inglês, é um ato de bravura considerável. Ficar decepcionado, após escutá-la proferir palavras de ódio, que nem mesmo compreendia, depois de tentar repreendê-la, é lógico. O Sr. Fraser provou ser um fenômeno da natureza, sendo capaz de controlar suas emoções de forma impossível, mesmo, quando em seu lugar, outros teriam arrancado os cabelos de raiva diante do egoísmo da esposa. E essa foi a beleza da discussão: existiam dois lados com razão – um por incompreensão do quadro completo da situação e outro por não poder contar sua verdade para quem estava em sua frente. E ambos chegaram a um momento desesperado e doce em que perceberam que passaram dos limites e a tristeza tomou de conta, levando à reconciliação.

Então veio o momento mais complicado do episódio e que, possivelmente, deve ter criado confusões emocionais em boa parte do público: a surra. Dentro do ponto de vista de Claire, essa teria sido uma cena dramática, abusiva e aterrorizante. No entanto, como o olhar era do escocês, a trilha sonora e até a fotografia se aproximaram da diversão que ele mesmo declarou sentir na situação. E o brilho absoluto então ficou com Caitriona Balfe que soube encontrar um meio-termo difícil entre o medo-pavor e o cômico-animalesco, fazendo com que o público ficasse confuso quanto ao que sentir diante da violência por ela sofrida. Tudo, porém, poderia ter fracassado se, minutos antes, o roteiro não tivesse estabelecido e justificado o modo pensante do rapaz e, sem isso, a surra teria sido tão trágica que nunca perdoaríamos Jamie e ficaríamos incapacitados de torcer ou acreditar no casamento do casal. E, provando mais uma vez a bela composição de Heughan, quando ele narra sobre o casamento e seus sentimentos, ele o faz de forma desajeitada e contida.

O problema entre os irmãos Mackenzie parte da discórdia de opiniões sobre a causa jacobita e expõe não somente o problema das personalidades contrastantes e abrasivas, mas também as diferentes posições dos mesmos no clã. A fragilidade física de Collum impediria ele de ir a uma guerra ou participar de cavalgadas ou quaisquer investidas que fugissem do espectro do castelo. Dougal, por outro lado, não possui o sangue mais frio, a sagacidade e a afabilidade social do irmão. Diante disso, um ser o chefe do clã e o outro o chefe de guerra, é uma forma de impedir uma explosão entre os irmãos, que destruiria o clã, e quase aconteceu nesse episódio. Dougal apoia o retorno do rei de direito e Collum prefere não se posicionar a respeito, priorizando o bem-estar do clã. Da mesma forma, desaprova o casamento de Jamie com uma inglesa (aos olhos da população, isso impediria que ele pudesse assumir o posto pertence ao chefe do clã, uma vez que entregar a posição de poder a Dougal seria algo contrário à rixa entre os irmão). A forma com que o Sr. Fraser contornou a situação foi muito astuta. Em uma única jogada ele reconciliou os tios e cresceu na consideração do líder do clã, além de garantir a integridade moral e militar do território.

E como não comentar a proposta de Laoghaire, a bela e jovem Mackenzie? Após certas considerações, chegamos à conclusão de que ela seria a mulher ideal para Jamie, caso a Sassenach não tivesse voltado do futuro. Devota, leal e submissa à figura de Fraser, é uma conclusão bem lógica, porém, se considerarmos que o tempo correu de uma forma até a nossa viajante ter passado pela pedra mágica e se redesenhou de forma diferente após disso, então os descendentes da loirinha e de Jamie deixarão de existir no tempo de Claire. Preferimos, no então, pensar que o destino já havia considerado a viagem de Claire e, dessa forma, nunca existiu a união entre Laoghaire e Jamie, assim ninguém foi prejudicado. De qualquer forma, resistir aos avanços perspicazes da moça foi uma tarefa herculana para o Highlander, mas ele venceu esse trabalho, mas criou um problema: não há força da natureza maior que a de uma pessoa rejeitada e o desejo de vingança recai sobre a pessoa que está ao lado de quem se deseja. E, assim, Laoghaire procurou nas tradições da época o meio para atingir Claire e lançou o mal agouro, a peça que faltava para por fogo de vez nessa história.

Na sequência final, enxergamos a dor e a tristeza nos olhos da inglesa ao lidar com o marido. Sim, apesar da graça presente durante a surra, a situação não deixou de ser abusiva e a diversão que o escocês tirou da situação deve ter ferido ainda mais não só o orgulho, mas também o respeito próprio da protagonista. Mesmo assim, a reconciliação é alcançada e então a Escola Outlander de Como Fazer Cenas de Sexo entrou em ação e criou um verdadeiro jogo de poder entre marido e esposa no chão, em meio a um ato intenso e erótico, que teve como auge Claire, enquanto estava em posição imponente no sexo, pegando a adaga, colocando no pescoço de Fraser e dizendo que cortaria o coração dele para comer no café da manhã se ele levantasse a mão para ela novamente. Isso é Outlander, essa força voraz e implacável feminina e não havia forma melhor de nos despedir de vocês que constatando isso. Até a próxima semana.

P.S.: Dougal proclama a paternidade do filho de Collum pela primeira vez. 

P.S.: Para quem ainda não viu (e não se importa com spoilers), eis o trailer incendiário dos 7 episódios restantes da temporada: 

https://www.youtube.com/watch?v=Sl-ktGFAEzg

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