Americanos e suas fábulas modernas.
Uma das formas de verificar direta (ou indiretamente) a cultura de um povo é se voltando para seu conteúdo televiso, para a produção local de entretenimento, ou até de sua falta. Através dos programas e suas variações que percebemos o tom de seu humor, a sua frieza, arrogância, mistura, humildade, positivismo, ou seus medos imaginários. Por mais que sejamos tão invadidos pela ficção que a televisão nos presenteia todos os dias, sabemos que ela nada mais é que a reflexão de nós mesmos, de nossos hábitos. Talvez não dialogue diretamente com nossa rotina, mas devemos admitir que está lá para apontar indiscretamente nossa visão de mundo e, muitas vezes, contestá-las. Mesmo que o retrato na tela não crie uma empatia com nossas crises, acusar o irreal roteirizado de ignorar nossos dilemas e fantasiar nossos desejos é um sentimento infundado e um argumento raso. Se a novela mostra um estilo de vida que não se aplica a nós, tão artificial quanto se pode ser, admitamos, ao menos, que é esse estilo de vida que a maioria de nós busca ou luta, dia a dia, para conseguir. Em outras palavras, é uma retratação em cores de nossos sonhos. A televisão norte-americana, por sua vez, também é muito fiel em traçar uma descrição desses falantes de língua inglesa que assumiram para si o gentílico de todo um continente. Não só a programação dos canais, mas seu cinema idealizador, e idealizado, nos posicionam melhor na compreensão dessa população insolentemente acostumada a se prostrar atrás da potência mundial de seu território.
A produção da NBC estreada nesse domingo, que corria o sério risco de entupir cinicamente a grade e a nossa watchlist de mais propaganda política disfarçada de entretenimento, flertou um pouco com a crença de seus próprios cidadãos. Usando da filosofia contemporânea a qual tanto se adaptaram desde o começo desse século, o roteiro se apoia em criar monstros e heróis que já são característicos de seus mitos modernos. O diabo encarnado nos malfeitores estrangeiros esteve tão presente quanto o coitadismo das pessoas comuns, assim como a rápida consagração de um herói justo e coerente. O suspense rodeado por intrigas que a série nos apresentou em sua primeira hora poderia ser bem desenvolvido em escala menor, sem essa pretensão de cenários desérticos, abrangentes e catastróficos, mas, tratando-se de quem se trata, era imprescindível o acréscimo de explosões, asiáticos e teorias da conspiração dentro de conspirações. Se a fórmula não foge do padrão, temos, pelo menos, um desenvolvimento satisfatório para o Piloto e um esperançoso potencial que pode ser explorado no restante da temporada.
American Odyssey (um momento de reflexão para a prepotência descaradamente presente no título) narra de forma fragmentada os acontecimentos que decorrem depois que uma missão no norte da África precedida por um grupo de forças especiais não ocorre como esperado. De forma inusitada, os acontecimentos da missão são divulgados, o que instiga a população a refletir sobre o que de fato teria acontecido com seus soldados. A partir disso, acompanhamos a vida de três pessoas ligadas por esse fatídico evento. Essa é uma sinopse bem rasa porque, mesmo aqui, evito spoilers, já que uma das qualidades desse primeiro episódio é a capacidade de surpreender o telespectador, por mais que isso não aconteça com a força e a frequência ao qual se propõe o texto. O desenrolar do enredo, no entanto, é satisfatório mesmo dentro de sua proposta pretensiosa. O ritmo aqui é acertado e quem não gosta de um roteiro parado vai ficar mais que agradecido à agilidade com a qual tudo se desenrola. Não soa apressado e desajeitado, como poderia, mas cronologicamente pensado. A primeira reviravolta, responsável por estabelecer o argumento da série, acontece logo no começo e isso é importante para dar o tom de suspense no qual a produção luta para se encaixar. O perigo é intercalado com cenas de investigação e apresentação (estamos conhecendo as personagens), mas em nenhum momento fica cansativo. Muito tempo em tela foi usado para criar uma história e contexto para a protagonista, utilizando diversos métodos, ora preguiçosos, ora cabíveis, para nos introduzi-la. Pessoalmente, fiquei mais interessado pela situação onde ela se encontra do que por ela. O restante das personagens se encaixa naqueles padrões já tão utilizados por outros escritores e adeptos da ficção como carrapatos: o lunático, a mulher misteriosa, o pai de família, o ativista que sequer sabe o que está fazendo, a namorada ciumenta… Sim, tudo o que a tevê norte-americana tem para oferecer em seus momentos de bocejo.
Algo que ficou evidenciado nessa pequena amostra que tivemos é que diversos atores não estão aptos para abraçar o papel que receberam. Em diversos momentos a atuação chega perto de se comprometer. Um bom exemplo disso é Peter Facinelli, interpretando um ex-promotor com uma inexplicável sede de justiça, que entrega uma performance tão unilateral quanto sua personagem ameaça ser. Suas caretas tão repetitivas e inexpressivas só nos fazem indagar se ele teve aulas de atuação com Kristen Stewart durante o período que filmou a saga bilionária que fizeram parte. Esse defeito pode ser balanceado e relevado diante do comprometimento com uma boa ambientação desde os primeiros minutos. Os cenários não só trazem a credibilidade para a narrativa, como são bem explorados. A fotografia sabe do que pode abusar e o que fica melhor como escondido, demonstrando assim que disso a parte técnica da produção entende, ao menos. Percebi alguns escorregões na edição e algumas transições ficaram estranhas, mas nada que comprometa tanto que necessite de mais que uma frase para comentar. A maquiagem também favoreceu nessa adaptação da palavra em papel para o conto visual que vemos, utilizada em alguns momentos, quase mal abusada em outros, mas sempre bem feita. Os efeitos visuais indispensáveis estão ali, assim como a presença da tecnologia e referências adjacentes que tanto ajudam na contextualização da série. O velho truque de usar o jornal para nos posicionar sobre algo que deveríamos ficar cientes funciona e é bem vindo, mesmo que as propagandas da Apple tenham que acompanhá-lo.
Não só o teaser no fim do episódio, como ele em si, deixaram a entender que a premissa se desenvolverá baseada na jornada do herói. Isso é importante porque nos ilude a ponto de acreditarmos que tudo está sendo bem planejado. O medo daquelas conspirações que conspiram até dentro de si e acabam se perdendo prossegue, mas não há nada que possamos fazer, senão esperar. Com a audiência de estreia bem fraca e uma recepção nada calorosa da crítica, talvez não tenhamos que esperar tanto assim.
American Odyssey se propõe a ser essa viagem a partir do título, mas entrega personagens caricatas fabricadas para seus telespectadores e seus perfis rasos. Para quem gosta do tema, talvez soe como uma tentativa fraca e indolente de esboçar uma obra surpreendente. Não se engane pela grandiosidade da produção, ela é voltada para um público não muito exigente, que perdoa (e talvez perdoe sempre) as falhas pontuais, o desempenho medíocre do elenco, a devoção exagerada ao retratar a própria população e os momentos óbvios para escapatória do roteiro. Não se afirma nos primeiros vinte minutos, como aquela que estou tentando evitar mencionar o faz. Não é ousada como deveria, não é criativa como se auto-afirma. Por enquanto é um mistério pintado com as cores azul e vermelha, embalado por uma bandeira em que cada estrela simboliza um motivo para acreditar, ou uma razão para não assistir. Quão americano é você?












