Mais um dia e mais uma página a ser completada. Já não tento mais me convencer de que fazer deste bloco de folhas o meu Diário não faz qualquer sentido. Primeiro porque, se em vida, eu já não tinha segredos ou algo que me envergonhasse e eu julgasse que não poderia contar para ninguém – só as pessoas me envergonhavam por não perceberem o quão medíocre elas eram, mas isso não era segredo pra ninguém – aqui, nesse grande vazio repleto de nada, onde coisa alguma acontece, chega a ser uma ironia a arte de relatar como foi o meu dia, descrever a mesma escuridão inexplicável que me cerca e, a cada folha desse bloco, tentar dar tons diferentes para esse preto sem fim. Fifty Shades of Black, eu diria. Isso me faz lembrar o que eu não daria para ter a companhia de um Christian Grey nesse lugar. Tudo bem, não preciso medir as minhas palavras, eu sei muito bem o que eu daria para tê-lo aqui, e já adianto que nem precisava ter cinquenta tons para que ele fosse bem recepcionado, bastava trazer um tom diferente para este lugar, me mostrar algo que eu já não saiba de cor, que eu já não esteja cansada de tentar enxergar, e acabar com essa busca em vão de tentar ver cor onde não tem.
Bom, eu comecei com um “primeiro motivo” e já nem me lembro qual era o segundo motivo para não mais procurar sentido em estar escrevendo este Diário, mas sei que me diverte essa dose diária de ironia e loucura. O meu dia é tão óbvio que se eu descrevesse com um simples “uma noite que não tem fim” tudo já estaria explicado. Tá vendo (não, ninguém está vendo isso! Nem eu!) até meu dia ser uma eterna noite é irônico e contraditório. Sem contar o fato de eu me sentir confortada só por ouvir o ruído mínimo que esta caneta faz ao friccionar o papel. Doentio. Sequer sei se esta linha que estou escrevendo está sobreposta à linha que a acabei de escrever, só sei que quando chega ao fim dos limites laterais do papel, volto à outra margem, desço a mão alguns centímetros e sigo escrevendo. O tempo ou a ausência dele é tão constante aqui, que posso dizer que esse é o único Diário que de diário nada tem, mas é, na verdade, um turno ininterrupto de revezamento, em que a Katherine de agora tenta descrever a Katherine de antes, aquela que não se cansava de lembrar, a todo o momento, que deveria esquecer que, um dia, foi Katerina. Tudo era tão constante lá fora, que até meu sobrenome era mutável. Ah, se Heráclito soubesse que nem tudo flui e está em constante mudança. (Parmênides win!)
Katherine Pierce. Não, com esse nome eu não queria que me confundissem com uma cafetina suburbana ou que achassem que eu possuía um nome de guerra. Eu até podia estar em guerra, mas era comigo mesma. Já não me importava com o fato de ter tido uma filha tirada de mim, de ter confiado nas pessoas erradas, de ter amado o cara errado ou de ter que conviver com a constatação de que Klaus sempre estaria a minha espreita. O real problema, aquele que me faz ter ojeriza da minha origem, aquele que guardaria a sete chaves, como um segredo, e não contaria nem para minha sombra (saudades de observar os curvilíneos traços da minha sombra), era e sempre será: ser uma Petrova. Ter que carregar o carma de ser dessa linhagem patética, que começou – e, claro, a ironia está aí, às gargalhadas – por um motivo mais patético ainda: o desejo de viver um amor eterno. O que diabos eu tenho a ver com o amor alheio? Amor, para mim, envolve duas, três, quatro pessoas e só faz sentido se for recíproco, mas se Silas queria um amor infinito com Amara, se envolvendo com Quetsya ao mesmo tempo, que a levasse no pacote, oras. E nem me venha com esse papinho de que ele era adepto da monogamia ou de que é impossível amar duas pessoas, pois isso é mais do que coisa do passado, é coisa de país subdesenvolvido. Damon e Stefito estão aí para provar isso. Se pararmos para pensar, só “morre de amor” aquele que ama mais a outro do que a si mesmo, que desloca sua razão de viver para uma terceira pessoa, então, se alguém não é capaz de enxergar a própria beleza (e nem estou exigindo que seja exterior e interior, como no meu caso), merece é sucumbir na própria torpeza mesmo. Mas tinha que me arrastar junto nessa? Que me arrastasse para o inferno, onde eu seria a diva que satanás quer copiar.
Uma doppelganger é descrita como uma daquelas sombras projetadas na parede da caverna de Platão, formas imperfeitas e mais sombrias da realidade, meras cópias não específicas com função estabilizadora. Digam-me, é fácil ter que conviver com isso? Então é assim, sou uma cópia imperfeita da realidade, mais conhecida como Amara? AH, TÁ! Entre Amara, Tatia, Elena e eu, quem você imaginaria dançando nua apenas com um corpete, em frente a uma fogueira, ao som de Anaconda? Oh my gosh, look at her butt! Só eu poderia ser a causa dos reflexos na parede, e elas, claro, que estariam lá refletidas, com algumas imperfeições aqui e outras ali, decorrentes dos desníveis da sedimentação da rocha. Enfim, se é pra dizer que sou uma cópia de uma serva de Quetsya, concordemos que rolou uma bela de uma evolução de espécie. Elena é exceção a regra, prenúncio do final dos tempos.
Entre o último parágrafo e esse não estava conseguindo me concentrar com a música da Nick Minaj ecoando na minha cabeça, então levantei, dancei como se não houvesse amanhã (e não tem, SOS!) e fiz da caneta um microfone. Já estava quase finalizando a coreografia, com a perna direita erguida um pouco acima do meu ombro, eis que a caneta resolve cair. Meu mundo caiu junto! Gente, NÃO POSSO PERDER ESSA CANETA. Tateei esse lugar como se minha vida (ou morte) dependesse disso e, entre nada e coisa nenhuma, encontrei minha caneta, sem a tampa, mas encontrei! _o/ A sensação de ter algo pra fazer é tão gostosa que, assim que terminar de escrever, vou sair em busca da tampa e, amanhã, escrevo aqui o desfecho.
Estar nesse lugar não é frustrante somente pela ausência de qualquer companhia que reaja de forma inteligível (então, querido eco, você não conta, sorry) às minhas palavras – até porque, dependendo da pessoa, é preferível estar sozinha e ficar abraçada a esse kit escolar que me forneceram – mas também por ser privada de exercer todo meu narcisismo voluptuário. O mundo, assim como eu, não merece ser privado de Katherine Pierce. Nessa escuridão, após tanto tempo, já encontro dificuldade em me lembrar de todos os meus traços e curvas, e tatear-me já não é suficiente. Óbvio que em nenhum momento esqueço-me de quem eu fui, mas já não sei mais dizer quem eu sou. Algo mudou, não externamente, pois, embora não veja, tenho certeza que meu cabelo continua simetricamente ondulado sem qualquer ponta dupla, mas é como seu eu fosse impulsionada a rever conceitos, opiniões, atitudes, isto é, uma espécie de estágio probatório onde você deve se habituar às regras de um lugar, só que aqui eu não tenho a chance de ser expulsa caso não me adeque. É uma espécie de prisão, só que sem prazo para acabar. Quando sua única companhia são seus próprios pensamentos, é impossível não ver todas as possibilidades e pensar se outra não teria sido uma melhor opção. Será que é isso? Eu preciso mudar para conseguir sair? Mas quem se julga tão superior a ponto de achar que eu deva mudar ou que pensa que sabe o que é melhor pra mim?
Recuso-me. E não é por teimosia ou coisa parecida, mas por não achar justo viver uma vida condenada a ficar sozinha e ter que, morta, mais uma vez, me subjugar à vontade do destino. Estava, assim como Amara esteve entre Silas e Quetsya, bem como Tatia, Klaus e Elijah, e como está Elena entre Stefan e Damon, condenada a um triângulo amoroso infrutífero, fruto de uma maldição que nada fiz para merecer. Predestinada a ficar com meu doppelganger? Mentira! Fui predestinada a ficar sozinha e, sabendo disso, me adiantei e fiz de tudo para, jamais, depender de outra pessoa, para que minha própria presença me bastasse. Mesmo que não tenha conseguido meu intento e perdido o meu autocontrole, verdadeiramente, com uma única pessoa, sei que jamais dependi de ninguém para ser feliz. Disso eu tenho certeza: Eu me basto e amo estar em minha companhia. Mas, ainda me pergunto: onde estará a paz eterna prometida? E se eu soubesse seu paradeiro, iria correndo para lá? Ou, se eu tivesse escolha, iria correndo para Mystic Falls sem pestanejar? É complicado responder, pois nunca experimentei a plenitude da paz, mas já estive em Falls, e não poderia ter gostado mais.
Enfim, já estou ficando muito piegas e já não tenho mais nada de interessante a escrever. Mas, a cada página que escrevo, lembro-me de quantas páginas desperdicei, quando este bloco de folhas ainda não me fazia sentido, espalhando-as por este lugar, na busca inútil de me localizar e de encontrar uma finitude para essa escuridão sem fim. Sofro, só por pensar, no momento em que só me restará uma única folha, a última possibilidade de me manifestar, mas, por outro lado, chego a dar uma risada vacilante só de imaginar o momento que reencontrarei uma das folhas perdidas e começarei tudo de novo. Como sempre fiz.
Com amor, a mim mesma, Kath.















