Uma linha que fica cada vez mais tênue.
Existe um fato interessante sobre Bates Motel e que causa uma dualidade visível quando paramos para analisar a trama, que talvez seja o grande equívoco (ou quem sabe acerto?) da produção. Partirei do ponto de que é difícil conceituar o que é uma série boa e o que é uma série ruim. Aquilo que me agrada pode não agradar outro, mesmo sendo possível enxergar acertos e erros técnicos em diversas obras, acredito que a questão maior trate menos da essência, e mais do funcionamento da trama. Funciona dessa forma? As coisas caminham bem nesse sentido? Poderiam ser melhores?
Esses questionamentos sim soam mais interessantes, pois é possível responde-los. E voltando na tal história da dualidade, é necessário colocar os pingos nos is logo no início desse terceiro ano: nas duas temporadas anteriores o roteiro de Bates Motel acertou em diversos momentos, mas também falhou quando não deveria ter falhado. Também é necessário deixar claro que nada disso impediu que ela se tornasse rapidamente uma das minhas séries favoritas, o que de certa forma pode parecer meio contraditório.
Existem dois pilares fundamentais em toda essa história: Norma e Norman. É impossível acreditar que Bates Motel seria metade do que é hoje sem o ótimo desenvolvimento de ambos os personagens. Ainda que falhe o roteiro, no final a relação criada entre Norma e seu filho é digna de respeito. A execução acertada dos intérpretes chama a atenção para a obra, fazendo com que alguns equívocos passem despercebidos, ou até mesmo (no meu caso) ainda que perceptíveis, sejam ignorados propositalmente.
Temos aí a resposta para uma das três perguntas que citei anteriormente, Bates Motel funciona bem dessa maneira. A execução lenta da narrativa é um elemento proposital, e uma marca da série, está longe de ser um erro. Vale lembrar que uma das grandes inspirações de Carlton Cuse, um dos criadores da trama, é Twin Peaks, uma série que carregava uma narrativa vista por muitos como arrastada. Uma escolha criativa não deve ser taxada como uma falha. O maior pecado de Bates Motel fica visível quando ela não demonstra maturidade suficiente para desenvolver um roteiro com tramas que estejam à altura da relação entre os dois personagens principais. Isso cria um contraste imenso (mais uma vez fica claro como certas escolhas fizeram da série uma obra com certa duplicidade) e que precisa de ajustes para que tudo caminhe bem durante esse terceiro ano.
E logo nesse primeiro episódio é possível enxergar que os produtores estão focados em fazer a perfeita transição do Norman de Bates Motel para o Norman de Psicose. A linha que fica a cada episódio menos perceptível é justamente essa. E os recursos narrativos que foram utilizados para tornar Bates Motel naquilo que ela é hoje se tornam “as pedras” no sapato daqueles que estão por trás da obra (pedras que vêm sendo arrancadas com bastante maestria).
É necessário entender que toda série precisa de personagens que criem vínculos com o público. Esse apelo é fundamental, para envolver quem está do outro lado da tela, e foi isso que foi feito até aqui. Vitimizaram Norma, Norman, Dylan e Emma, e isso levou o telespectador a torcer para que a série de certa forma se desvinculasse do filme, pois ele carrega consigo um desfecho infeliz para todos eles. Eis aí a tal pedra no caminho.
Retirar da mente do público a imagem do Norman adolescente e inocente é o grande papel desse terceiro ano. O trabalho do roteiro fica claro quando Norman encara os peitos da nova hospede do hotel, para depois espioná-la durante o banho (menção honrosa para a reação de Norma ao notar o lado “safadinho” do filho).
Esse cuidado para com Norma e Norman muitas vezes não fica claro (pois não existe) quando se trata dos outros personagens. Acho interessante o retorno de Caleb para a vida de Dylan nesse momento, e espero que consigam desenvolver o irmão mais velho de Norman com menos superficialidade a partir de agora, o mesmo vale para Emma.
E por falar em Emma, gosto de ver a maneira com que a série sabe dar ao público aquilo que ele deseja, mas com certa ironia: um relacionamento entre ela e Norman justamente no momento em que ele começa a assumir seu lado assassino é o timing perfeito para causar arrepios nos fãs da trama. Temos mais um acerto em cena, quando o público passa a temer o futuro de um personagem querido.
Quanto ao Xerife Romero, vejo como um personagem muito forte na trama, mas que acabou ficando um pouco de lado, ao menos nessa première. Espero que desenvolvam uma boa história para ele sem desgastar sua figura que até o momento vem funcionando bem na narrativa.
Esse retorno acertou sem que fosse necessário gastar muito tempo situando o público, já que de cara não ocorreram grandes mudanças. Norma continua sendo uma mulher controlada por suas emoções, e a morte de sua mãe frisa esse lado da personagem. A sensação predominante por grande parte dos 40 minutos foi a de que esse era um episódio qualquer lá da segunda temporada. Nada grande parecia estar sendo preparado, até que Emma resolve fechar as portas do motel, saindo com seu fusca de cena, e dando espaço para que Norman retornasse dirigindo o carro de Annika. Bastou. Bates Motel encerra o primeiro episódio de sua terceira temporada deixando claro que a dualidade continua em cena, mas que a execução pontual da sua narrativa também. Até onde isso pode dar certo? Prefiro deixar a série responder.














