Once Upon a Time nos fez reféns de seus roteiros preguiçosos.

Com arma apontada diretamente para nossas cabeças, estamos indefesos e sem chances de lutar contra um texto preguiçoso que preza mais pelo momento, do que pela coesão. Porém, por mais estranho que isso possa soar, eu gostei do episódio, apesar de quase ter tido uma síncope com o final. É por este exato motivo que me vejo desenvolvendo uma síndrome de Estocolmo com a série. Eu amo o meu algoz, apesar de já ter noção do quanto ele me faz sofrer. Diferente do estado psicológico inconsciente, eu estou bem acordado ao final de cada episódio, mas nada me impede de sofrer e dividir minha dor com vocês.

São as coisas que funcionam que ainda me prendem a essa viagem que tem se tornado Once Upon a Time. É ver uma cena totalmente gostosa entre Regina e Emma tentando dividir uma cerveja, ou conversando a respeito de amores perdidos e fotos rasgadas, que eu tenho certeza que o potencial da série não está em seus efeitos especiais (nunca esteve, nunca estará), ou no uso dos personagens saídos dos contos Disney. É na valiosa conversa entre amigas que Regina e Emma podem dividir, é nos conceitos mais básicos de quem apenas tenta viver que está a força de OUAT. No final, mesmo soando repetitivo, é Lana Parrilla que me segura com força a uma série que tem se tornado a personificação do desleixo.

E podem ficar assustados, até mesmo Belle foi mais interessante, simplesmente pelo fato de ter assumido ser absolutamente estupida quando se trata de Rumpelstiltskin. Colocar Hook e Belle para conversar, desenvolver uma amizade e sofrer juntos foi uma ótima jogada. Se pretendem diminuir Hook ao patamar de mero coadjuvante em uma história de amor, que encaixem outra que tem pouca utilidade para a trama, mas que insistem em dar destaque. Tantos personagens que poderiam se valorizar mais e ganhar cenas importantes e insistem nos mesmos e aguados de sempre. Quem entende?

Já a trama por trás da segunda metade da quarta temporada, envolvendo a transformação de Emma em uma loira maligna é até fácil de entender. Os conceitos de bondade, justiça e honra que ela sempre defendeu eram, no mínimo, mais leves se comparados a cegueira dos bonzinhos usuais, como Snow e Charming. Durante muito tempo Emma trabalhou correndo atrás de fugitivos e viver no mundo real a tornou mais cética. Não sei ainda o que será responsável pela sua transformação total, que convenhamos, vai acontecer de um jeito ou de outro. Por mais que a tensão seja criada, que o roteiro tente nos fazer acreditar que vão conseguir salvar Emma, ela vai tocar o terror. OUAT não é famosa por surpreender seus telespectadores, então, me perdoem a descrença. É preciso ter algum mocinho sempre balançado, vivendo no limiar dos dois lados da guerra? Não, não é. OUAT vai fazer isso quer seja requisito, ou não? Vai. Então, que seja Emma e não Regina pela milionésima vez.

Mas é então que seguindo o padrão Once Upon a Time de saídas nada competentes de roteiro, que tudo começa a desandar. Regina levou uma ano e meio para concluir seu arco de redenção, mas ainda é chamada de Rainha Má. Cruella e Ursula aparecem nos limites da cidade, ninguém se pergunta como elas descobriram que Storybrooke existe (deram uma coça no Rumpels é bem convincente, só que não), ou questionam a ajuda no exato momento em que precisam. Ao contrário, entregam o pergaminho, deixam as duas entrar de carro sem um acompanhante, sem alguém para vigiar o caminho das duas e NEM pegam o pergaminho de volta. Cadê sentido? Eu já falei antes e vou repetir, para acompanhar OUAT é preciso entender que os próprios redatores não têm noção alguma de continuidade, não sabem para que serve um calendário, ou sequer se preocupam em dar sequência as tramas que começam.

Once Upon a Time é o tipo de série que segue uma receita bem básica de auto sabotagem. Constroem um bom episódio, com interações válidas e lá no final abrem as portas para a destruição de tudo o que foi desenvolvido. É difícil entender de onde saem as ideias, é um desespero muito grande para tentar encaixar determinadas sequencias dentro do roteiro. O mesmo vale para Charming e Snow, que vão receber maior destaque, da pior forma possível. Mais um flashback para entulhar a história dos personagens, criar situações que contradizem ações do passado e nos enfiar em uma maré de explicações nem um pouco críveis. Dá vontade de chamar os redatores para uma conversa séria e explicar os riscos ao se misturar remédios para dormir com álcool. Amigos, assim fica muito difícil defender vocês.

Quanto as vilãs, eu confesso que por enquanto estou gostando mais da Cruella do que da Ursula e da Malévola. Para o azar de Kristin Von Bauer a imagem da Malévola em live action continua com o rosto da Angelia Jolie na minha memória. Não que Kristin não seja uma ótima vilã, saudades Pam, mas competir com o ‘Well, well’ de Jolie não é fácil. Para quem não assistiu a adaptação, deve servir sem maiores problemas. O medo que impera é ver qual será a explicação dada para o ressurgimento de alguém que já havia morrido (e muito bem) lá na primeira temporada. O que nos impede então, de ter Zelena de volta? Ou Ingrid? Ora, qualquer outro vilão já destruído? Ou seja, se a Ursula morrer nesta temporada, mas nos próximos anos a Disney confirmar um live action da Pequena Sereia, podem ter certeza, como o sol nasce no leste e a peruca da Snow emporcalha a cada ano, eles vão trazer a Ursulla de volta, independente do rumo que a personagem tomar.

O retorno de OUAT foi competente, levantou problemas a serem resolvidos e deixou a boa e velha pulga atrás da orelha ouriçada e ansiosa por algumas mordidas. Em determinados níveis ele se mostrou amadorístico e cheio dos habituais erros de consistência. Mesmo que o roteiro ainda aponte vários deslizes, existe algum tipo de obra pesada de magia que me impede de abandonar os cidadãos de Storybrooke, mesmo que eles se esforcem e muito para que eu, eventualmente, atravesse o limite da cidade e abandone completamente toda e qualquer magia que uma vez existiu nesta charmosa cidade do Maine.

PS. “Ninguém nunca poderá saber o que aconteceu entre nós, na floresta”. E desse jeito eu descobri que o casal Charming e Snow é adepto ao swing e troca de casais.

PS². Malévola acusando a Ursula de tentar engravidá-la com seus tentáculos. E desse jeito eu vi OUAT fazendo uma homenagem aos hentais japoneses.

PS³. Piadas a respeito de peixe. Piadas a respeito de dragão. Piadas a respeito do bafo de onça da Cruella. C’mon OUAT, me dê algo novo.

PS4. Unidos das Bruxas falidas, quesito fantasias. Nota: Zero. Sim, eu vivi para testemunhar o dia em que o guarda-roupa das vilãs foi tão ruim quanto as roupas e perucas das mocinhas.

PS5. Mais uma maldição. Já perdi as contas. Daqui a pouco rola a maldição das maldições malditas já utilizadas e não malignas o suficiente para as primeiras temporadas.

PS6. Finalmente colocaram o povo de Storybrooke para trabalhar e as crianças para estudar. Gente, tem PRONATEC no mundo encantado?

PS7. Vai rolar filme da Cinderela. Já podem anotar, grifar e deixar em negrito. Ano que vem tem Cinderela em OUAT, fazendo sabe-se lá o que, mas tem.

PS8. Que sobrancelha era aquela da dona Devil? Moça, tá feio, tá errado, tá Picasso.

PS9. Chernabog (nome também do próximo filho da Snow), era um “vilão” que só atacava quem tinha potencial para maldade no coração. Ou seja, pela lógica dos habitantes de Storybrooke ele deveria ser feito prefeito da cidade e recebido um abraço caloroso da Vovó.

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