House of Cards estabeleceu um terreno cheio de explosivos para Francis e agora é esperar para ver quando a cabeça do presidente começará a rolar ladeira abaixo.
House of Cards teve início com um pé pesado sobre a política interna dos Estados Unidos. O propósito da primeira temporada foi mostrar a movimentação de Frank dentro do Congresso e da Casa Branca de forma a entrar na última. Na segunda temporada, o cenário internacional passou a fazer parte da equação, no entanto ele tangenciava a importância interna, diante da necessidade de lidar com Walker e assumir a presidência do país. O terceiro ano inverteu a lógica e colocou a política externa como protagonista das tramas principais. Apesar de existir America Works, a questão da opinião pública e a tentativa de manutenção de poder de Underwood, o Vale do Jordão, a ONU e a Rússia ganham contornos, cada vez mais, agravados, maiores e empolgantes. E, com isso, o mérito do roteiro da série ganha méritos por estar alterando a lógica narrativa e, mesmo assim, mantendo o realismo e a sagacidade no tratamento dos temas que fogem à zona de conforto pré-estabelecidada da história.
Na última review, foi ressaltada a fragilidade de Francis Underwood. Um homem que moveu a Casa Branca sob seus pés, assegurando que seus interesses fossem concretizados, agora tem que lidar com as consequências de seus atos. Suas ações incisivas no Congresso geraram a oposição de líderes de ambos os lados, democrático e republicano, e permitiram que um vice-presidente indesejado assumisse o cargo. Suas ações para a escala à presidência do país, no entanto, foram as mais perigosas: ele criou um monstro chamado Heather Dunbar, que ganhou notoriedade na mídia e perante a opinião pública por seu trabalho de procuradora geral na crise de Walker; fragilizou a Casa Branca pela jogatina exposta e personificada em Tusk; e assumiu o cargo maior frente a um cenário de descrença política da opinião pública. Diante disso, o que Frank sobre atualmente é a demonstração de que suas ações têm consequências. O problema é que o presidente parece não compreender isso e continua colocando ações controversas em curto prazo para atingir concretizar seus planos e, mesmo que venha a alcançá-los, mais problemas virão e, consequentemente, serão piores.
Em Chapter 31, Francis deu o pontapé inicial procurando brechas jurídicas para colocar America Works em votação o mais rápido possível. Pena para as leis dos Estados Unidos que ainda apresentam ambiguidades de interpretação e permitem que o Executivo tenha autoridade total para definir uma emergência. Retirar o orçamento de desastres ambientais e climáticos para financiar empregos pode ser uma medida inteligente em curto prazo, uma vez que a população desempregada, com certeza, irá buscar uma solução, no entanto o que assusta é a possibilidade de uma crise séria de estrutura perante quaisquer forças climáticas. O orçamento será usado por completo, portanto se um furacão, um terremoto ou enchente atingir uma cidade, as administrações locais terão que arcar com toda a logística, uma vez que não haverá um centavo federal para contratar empresas ou contratar pessoal para lidar com o problema. E, depois que a emoção de ter empregos passar, será que a população ainda terá bens para usufruir ou gastará o dinheiro do salário para reconstruir sua vida? Underwood, nesse episódio, tomou sua atitude mais arriscada internamente e o preço a ser pago poderá ser muito mais alto que o lucro obtido.
A política externa esteve centrada na tentativa de aprovação da resolução na ONU. Como explicado pelo especialista em assuntos internacionais, o Vale do Jordão é de crucial importância para os Estados Unidos. O lado negativo fica por conta do fato de que, caso a contenção do conflito não seja alcançada, o barril de pólvora gerado poderia iniciar uma Terceira Guerra Mundial. O ponto é: o país já está em ação para chegar a região e resta saber como será a real resposta da Rússia. Em um plot cuja estrela foi Claire, inicialmente a impressão era de que a resolução resultaria em mais uma derrota para Francis e a forma humilhante que Alexi trata a primeira-dama foi prenúncio de que a situação iria ser revertida. A Sra Underwood não é e nunca foi do tipo que leva desaforo para casa e, assim, lá estava ela pedindo ao marido para produzir um documento escrito em que garantisse que os Estados Unidos iriam colocar tropas na operação de paz. Ela faz, rebaixa o embaixador dentro de um banheiro feminino enquanto se maquiava e urinava. Não há palavras suficientes para descrever o brilhantismo das atuações de Robin Wright e Aleksandr Sokovikov nesse momento, ela se impondo de forma totalitariamente elegante e ele largando toda a arrogância e o senso de superioridade. No entanto, o olhar de Alexi era de medo misturado com derrota e isso deriva do fato de ter que entregar uma notícia do tipo para Petrov. Este admitirá as tropas no Vale ou fará retaliação em cima do ativista? Será que restará ativista para retornar para os Estados Unidos? Será que o embaixador sobreviverá? Petrov é o tipo de personagem que não conseguimos ter certeza completa sobre as intenções e a vitória dos Underwood gera mais preocupação que orgulho.
Jackie Sharp ganhou está prestes a se tornar peça central no jogo de Frank e vai lançar candidatura, no entanto, curiosamente, o roteiro focou na questão sentimental entre ela e Danton e não na campanha e, por enquanto, o resultado foi ótimo. A razão para o resultado positivo do plot foi a atuação da exuberante Molly Parker. A atriz conseguiu entregar bem a dúvida da personagem sobre seus sentimentos: Jackie tenta vender que está preparada para casar e que ama Alan, no entanto seu olhar, ao final, quando Danton pergunta “Vamos falar do cronograma?”, foi denunciador do seu conflito. Mas nenhum momento seu foi melhor que o simples e singelo instante em que, depois de estabelecer o noivado, ela coloca a mão no queixo e o anel incomoda sua pele. Um pequeno detalhe que mostra seu existente desconforto com a nova condição. Por outro lado, Stamper começa a mostrar suas garras e o momento em que mostrou o diário do médico que executou o aborto de Claire (ela disse ter feito depois do estupro, quando, na verdade, foi antes) foi o divisor de águas para o terror na vida dos Underwood. Caso Doug esteja, de fato, motivado a derrubar Frank, ele é capaz de tal e de forma estrondosa. Dunbar contratou um aliado de peso.
House of Cards estabeleceu um terreno cheio de explosivos para Francis e agora é esperar para ver quando a cabeça do presidente começará a rolar ladeira abaixo.
P.S.: Mrs Baldwin chegou causando burburinho e prometendo muito mais sangue que Ayla, uma vez que ela é intocável. Torcendo desde já para novas ações de Dona Baldwin.
P.S.: Frank usa uma medida em médio prazo para lidar com uma ação sua que promete estourar em curto prazo. Haja falta de noção. Pelo menos a apresentação do autor gerou o diálogo do episódio: ““Nenhum autor de respeito pode resistir a uma história boa, assim como nenhum político pode resistir a fazer promessas que não pode cumprir”.













![[Exclusivo] Serviço de streaming ‘Belas Artes à La Carte’ exibirá séries icônicas da BBC Studios](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2022/01/capa-2-218x150.jpg)
