As verdades necessárias e as desnecessárias de Looking.
Nos primeiros episódios de Looking, era comum ver na seção de comentários aqui do Série Maníacos observações no estilo “o mais legal de Looking é que a série fica jogando umas verdades na nossa cara”. É fato, e isso inclusive acontece com muito mais frequência do que percebemos. Assim, nada mais natural do que um episódio que simboliza essa característica, que celebra a arte de dizer verdades que, ainda que desnecessárias, são importantes para desenvolver nossos personagens, gerar algumas viradas na trama e estabelecer os tipos de relações presentes na série. Looking for Truth faz tudo isso com altíssima dose de entretenimento em seus deliciosos 28 minutos assinados por Tanya Saracho, que escreve seu primeiro roteiro solo na série, e cujo trabalho está aprovadíssimo por mim.
O primeiro a ter as honras é Paddy, que aparentemente recebeu uma injeção de uma dose cavalar de sabedoria antes de o episódio começar. Quando confrontado por Kevin, nosso protagonista dá um belo show de pragmatismo. “Você escolheu o Jon, eu entendi, e estou até aliviado por não precisar mais fazer as coisas às escondidas.” O golpe de misericórdia vem no final: “Que bom que ninguém se machucou.” A verdade desapareceu completamente nessa frase, que nada mais era do que uma tentativa de fuga de alguém que queria sair logo dali. Paddy se machucou. Kevin se machucou. E, em uma cena que se inicia poucos minutos depois, Kevin iria decidir se Jon também se machucaria.
O britânico teve sua chance de jogar limpo com o namorado e confessar a verdade. Não a aproveitou. Mas querem saber? No meio de todas as cafajestagens de Kevin, está aí um momento em que eu de fato aplaudi a sua decisão. Sei que estou indo na contracorrente da ideia “a verdade é sempre melhor, a mentira tem perna curta, omissão é igual a mentir etc.”. Não me importo. Nem todas as verdades precisam ser ditas.
A hora de jogar limpo com Jon e terminar tudo passou. A única coisa que a verdade faria, neste momento, seria destruí-lo gratuitamente, e eu não vejo quem ganharia algo com isso. Se essa relação está fadada ao fracasso, que seja. Ela não precisa acabar de maneira destrutiva. Quem aprontou a confusão toda foi Kevin, e ele é quem deveria segurar essa barra sozinho, seja qual for a decisão que tomar sobre a continuidade do namoro. É claro que estou dizendo tudo isso como se Kevin tivesse decidido não contar a verdade por puro altruísmo e preocupação com Jon, mas não sou tão inocente. Kevin provavelmente fez isso por si mesmo, por covardia. Mas, ainda assim, ao menos em curto prazo, tomou a decisão correta.
Enquanto isso, também acompanhamos Agustín, que está caidinho por Eddie ao ponto de ir visitá-lo quando ele avisa no trabalho que está doente. Caô puro. Looking for Truth serviu também para nos mostrar uma verdade absoluta: não existe São Eddie, não existe São Richie, não existe São Ninguém. É tudo apenas uma questão de perspectiva, e o que faz com que pessoas possam parecer santos é a distância. Uma vez que você “invada” um pouco o espaço e a realidade delas, seus defeitos vêm à tona. Looking sabiamente brinca com essa questão de perspectiva desde sua primeira temporada, e é por isso que Richie e Eddie parecem muito melhores do que são. Era proposital.
Mas nenhuma santificação resiste a um episódio em que a verdade é uma bandeira. E, assim, descobrimos um Eddie que não é tão ético no trabalho quanto parece. E um Eddie que não tem coragem de dizer à família que é soropositivo. Aliás, os melhores momentos de Eddie passam muito longe da santidade. Simplesmente genial a história inverídica de contração do HIV e sua relação com bukkakes regados a drogas injetáveis em que o passivo entra de graça e transa bareback com uma fila de ativos em que qualquer um pode ter sido o transmissor do vírus. Foi crível, e foi um tapinha gostoso na cara não só de Agustín, mas também do espectador. Sim, você pode pegar Aids do seu namorado. Você não precisa ser praticante do sexo livre, não precisa ser putão, não precisa ser drogado. A monogamia também transmite a doença. Uma noite é suficiente pra isso, e uma noite teria sido suficiente para Eddie.
Os gays que se espelham no modelo heteronormativo de vida têm uma tendência a ser preconceituosos com aqueles que enxergam o sexo de maneira mais livre, mas a verdade é que, para os heterossexuais que tanto inspiram esse modelo heteronormativo, é todo mundo farinha do mesmo saco. E, no que diz respeito a contrair o HIV, isso é a pura verdade: monogâmico ou não, homossexual ou não, o que transmite HIV é falta de prevenção. É o bare safado, mas é também o bare confiável.
Independentemente do nível de atividade sexual, todos estamos sujeitos a isso se não fizermos sexo seguro, e, por isso, é bom ter sensibilidade para falar sobre esse assunto e para taxar outras pessoas de “promíscuas” (o horror, o horror dessa palavra!), porque nós nunca saberemos o dia de amanhã. Foi assim, com poucos segundinhos de diálogo, que Looking nos disse tudo isso de uma maneira muito melhor do que eu consigo me expressar em um texto. E, se continuarmos a ver a série abordando a Aids de maneira tão sutilmente didática e tão bem humorada, eu digo que quero mais, muito mais sobre o tema!
Mas vamos falar de questões mais televisivas: por um momento, caí que nem um patinho no chega pra lá que Agustín levou (tudo bem que Eddie deu uma boa experimentadinha no beijo antes de empurrá-lo, mas quem nunca tirou uma casquinha simplesmente porque a oportunidade apareceu, né?). Depois que as coisas se esclareceram, fiquei pensando: por que raios alguém faria isso? Quero dizer, nós, que assistimos à primeira temporada, sabemos que Agustín merece umas boas bordoadas como essa, mas, até onde eu sei, Eddie não era um telespectador de Looking, certo? Achei um pouco demais, e sempre que Looking perde um pouco em verossimilhança em nome do choque velho, ela perde alguns pontinhos comigo. Nada preocupante, porém. Mas racionalmente, incomodou.
Duas últimas observações sobre o arco de Agustín: a primeira é só para extravazar minha leve alegria quando vi que a série trouxe alguma representatividade para as mulheres trans, ainda que apenas uma ponta. Looking é focada no público gay masculino, mas segue me dando orgulho quando mostra que não esqueceu que os outros segmentos da comunidade LGBT estão aí. A segunda é a constatação de que o latino realmente mudou da água para o vinho de uma temporada para a outra. A reação dele ao saber que Paddy sairia com Richie (depois de mais um delicioso momento “quem nunca?” de stalkear o ex no Facebook) é o extremo avesso do comportamento agressivo e amargurado que ele adotava sempre que falava sobre essa relação. Se, por um lado, estou adorando o novo Agustín, por outro começo a achar que o personagem precisaria de uma transição menos abrupta para não quebrar tanto a fluidez de seu desenvolvimento. Ao menos o conselho que ele deu a Paddy foi muito bom: por favor, não transforme seu ex em uma ferramenta para afogar as mágoas do coração partido pelo término mais recente, ainda mais depois de tê-lo traído. Isso é feio!
Então, como Looking cometeu o pecado de nos privar de Dom e Doris nesta semana, temos, enfim, Richie. Ah, Richie, como você fez falta. Vislumbres de Looking for the Future quando os dois conversam sobre a infância? Check! Jogar deliciosamente o péssimo namorado que Paddy foi, de tanto este ficar enchendo com assuntos da época do namoro? Check! Debates sobre a relação entre família e homossexualidade? Check! Uma química interessante com toda uma aura de yin-yang que só conseguimos com Pichie? Check também! Certeza de que vai dar namoro? Aí é outra história…
Por enquanto, o interessante de ver os dois juntos – e a dicotomia da qual eu estava morrendo de saudades – teve muito a ver com Paddy conhecendo melhor o território de Richie. Há quem diga que família é um “mal necessário”, eu prefiro dizer que é um bem levemente incômodo em certos momentos. Temos a prima extremamente inconveniente e sem filtro, mas de bom coração. Ela irrita, ela aborrece, mas ela não só torce pela felicidade de Richie como também é aquela que empresta dinheiro quando necessário (e essa nova informação faz com que Looking for a Plus One deixe de ser apenas um episódio triste e passe a ser um episódio que esmigalhou meu coração). Também temos o primo agressivamente homofóbico, mas desse nada se aproveita, mesmo. Passemos para a frente.
O grande momento do dilema familiar de Richie envolve sua conversa com Paddy em relação ao afastamento do pai. Nosso protagonista deu aquele que talvez tenha sido o melhor conselho de toda a série (entre muitos outros ótimos). Estou começando a desconfiar de que Paddy só não sabe ser namorado, porque ele tem se mostrado o tipo de amigo que absolutamente qualquer pessoa poderia querer. Toda a linha de raciocínio sobre a relação dos gays com sua família foi brilhantemente escrita, e é uma verdade gigantesca. Muitas vezes, a saída do armário não resolve esse tipo de problema. Independentemente dele, é normal que um gay não possa ser ele mesmo em casa, e é por isso que só lhe restam duas opões: fingir ser outra pessoa ou se afastar. Família é família, é o único porto seguro garantido na vida, pois, salvo raríssimas exceções, laços de sangue não são passíveis de serem desfeitos.
Richie prefere a segunda opção porque fingir não é uma boa opção para ele, mas, como bem observado por Paddy, não ir pra casa faz mal. Não poder estar com a família faz mal. É algo que você quer, mesmo que diga a si mesmo o contrário. E, desta vez, é “Pato” quem guia Richie e tenta mostrar que, em vez de fugir (algo que o mexicano realmente faz com mais frequência do que deveria), encarar o conflito de frente pode ser uma melhor opção. Essa é a beleza de encarar a verdade: ainda que ela traga infelicidade momentânea, a verdade, em longo prazo, pode ser a única chave para a verdadeira liberdade.
Mas será que toda verdade é realmente necessária? Volto a esse tema porque não sei se concordo com a iniciativa de Patrick de esclarecer as coisas com Richie. Contar para ele sobre a traição (ainda que de forma bem vaga – Richie não sabe, por exemplo, que Paddy aceitou ser passivo imediatamente com Kevin mesmo depois de ter recusado tanto fazer isso pelo namorado) pode ter sido libertador para Paddy, mas certamente não foi nenhum favor a Richie. É o tipo da verdade destrutiva que, na prática, não muda absolutamente nada depois de ser contada. Se Richie fosse um pouquinho menos maduro e menos seguro, ele não teria dado conta de ouvir o que Paddy tinha a dizer. E, ao meu ver, a declaração “não quero que você saia da minha vida” é mais reveladora do que parece. Sim, essa provavelmente foi a conclusão que o namoro dos dois merecia e que a série estava nos devendo depois daquela crueldade do season finale passado. Mas esse status de amizade entre dois ex, na maioria dos casos, costuma ser temporário, para o bem e para o mal. E, embora racionalmente eu prefira ver Richie feliz com outra pessoa, meu coração não consegue evitar torcer para que a situação dos dois evolua para o bem.
Looking for Truth, apesar dos leves defeitos (que no fundo são apenas consequências da tentativa de se construir uma série mais comercial), é um baita episódio, ainda melhor e mais envolvente do que seu antecessor. E deixa uma ambiguidade interessante em seu final: é possível que Paddy tenha virado duas páginas (a de Kevin e a de Richie) nesse mesmo episódio. Mas também é bem provável que logo ele queira reler ao menos uma delas. Qual será?















