
É impossível assistir Across the Sea sem traçar paralelos com outro dessa temporada, Ab Aeterno. Ainda que bom como um todo e sublime ao apresentar uma grande porção da história de dois personagens importantíssimos para o final da série, ele tropeçou em partes absolutamente necessárias para esse tipo de episódio flashback funcionar e assim termina como uma pequena decepção para quem, como eu, esperou essa história ser apresentada durante um ano.
Spoilers abaixo!
Ainda assim, foi um bom episódio. Carlton Cuse e Damon Lindelof sabem o que estão elaborando em cada linha do roteiro e executam isso tão bem que fazem parecer fácil, mas o meu maior problema foi como muitas das situações se espelharam no seu antecessor, que eu citei acima e que foi uma das melhores horas da série pois era algo novo. Across the Sea não roubou elementos ou reciclou tramas, mas trouxe de volta um familiar sentimento que foi um sucesso criativo e aplicou numa história que precisava do fator surpresa pra funcionar a todo vapor. Grandes partes daquela trama eram dedutíveis e novidade era necessária pra manter o ritmo, o que infelizmente não houve. E mesmo em uma zona de conforto, a dupla surpreende. Trabalhou aquele núcleo familiar com uma sutileza louvável e usou dele para mover a mitologia adiante, o que mesmo pulando partes curiosas desse relacionamento (cavernas no penhasco, candidatos, definições) se provou agradabilíssimo de se assistir, e boa parte disso se dá pelos atores novos, que tinham a difícil tarefa de “substituir” os originais por alguns minutos e a cumpriram. Allison Janney detonou tudo e não tenho dúvidas de sua indicação ao Emmy de participação especial por esse episódio, os dois garotos também foram ótimos e entregaram o bastão para os velhos conhecidos Titus Welliver e Mark Pellegrino, que deram novas personalidades aquelas duas pessoas sem mudar as suas essências.
Outro aspecto executado com primor foi o simbolismo de várias cenas e os tão pequenos quanto naturais e importantes avanços da mitologia. Sei que muita gente vai reclamar da água, da luz, e de que aquilo foi muito fantasioso… Mas eu adorei. Odeio quando Lost soa conservador e não abraça esse lado por causa de um grupo de fãs que não souberam evoluir com a série, então é bom sim, pra uma aceitação final e prova do que a série é, sempre foi e será no seu final, vermos uma luz brilhando e sendo a alma da ilha ao mesmo tempo em que transforma o MIB num pilar de fumaça negra. E sério, esse cara precisa de um nome urgente.
Por fim, gostaria de dizer que as pequenas decepções não tiraram a mínima esperança que tenho no fim da série, ao contrário dos horríveis What Kate Does e The Package. Tive meus problemas com a estrutura e desenvolvimentos estranhos? Sim, mas eles sabem o que estão fazendo e o fazem forte, com completa noção de si mesmos e melhor, com coragem. Esse é o espírito da série, é o espírito que queremos ver em The End e se ele saiu um pouco desviado em Across the Sea, é um fato que teremos que aceitar e provavelmente ocorreu de forma não intencional. De qualquer maneira, uma das melhores horas de televisão da semana. Bola pra frente.
“Every question I answer will simply lead to another question.”
Outras observações:
– As mortes do episódio foram impecáveis. Nada ruim, ao menos nesse ponto.
– Quem lê as reviews com frequencia sabe como fiquei feliz com a revelação de Adão e Eva 🙂
– Gostaria que eles tivessem aplicado algo que estabelecesse o tempo no qual tudo se passa e quando certas cenas vêm em relação às outras daqueles dois personagens. Não é o estilo da série, mas a imersão na história dos dois seria bem maior e clara com isso.
– A melhor coisa que nós podemos tirar dessa trama foi de que as duas “forças” e suas intrigas fazem sentido e tem um plano de fundo emocional, o que pode não parecer importante de início, mas dá ao cenário atual no tempo presente uma interpretação completamente diferente.
– Adorei o fato de esse episódio vir após de The Candidate. Todos ansiosos para saber o que iria acontecer entre os sobreviventes e o MIB… Episódio inteiramente flashback – nem cena de abertura como em exemplos anteriores teve. Atitude malandra que nós já deveríamos esperar.
– Não importa o quão uma ideia ou até uma cena em si seja ruim em Lost, eles sempre vão fazer a execução de modo brilhante. A trilha sonora, a direção, as palavras certas que se saíssem do lugar só um pouco arruinariam todo o drama… É o ponto em que mesmo quando Lost é ruim (o que aconteceu raras vezes nessa temporada e poucas nesse episódio), eles conseguem tirar algo bom disso.















