Aquela fração de segundo que antecede uma explosão…
Estou maravilhado com a construção narrativa de Felizes Para Sempre? representada pela evolução absurda que a trama tem a cada episódio. Iniciando da apresentação dos personagens e de pequenos sinais dos dramas que eles iriam enfrentar, a minissérie utilizou toda sua primeira semana de exibição para construir as bases das tramas de cada um dos casais centrais da história.
Desde o capítulo de segunda-feira que Felizes Para Sempre? resolveu destruir, uma a uma, cada uma dessas bases construídas para seus personagens centrais.
Não existe, por exemplo, outra expressão melhor do que “a casa caiu” para representar muito do que vem acontecendo com as figuras centrais da trama, porque, de fato, ela caiu… Caiu para Denise, ao ser descoberta por sua namorada, caiu para Dionísio, após seu enfarte, caiu para Susana, com a descoberta de sua gravidez, já começou a cair até para Marília, com as desconfianças de Cláudio sobre sua aproximação de Denise… E no caso de Tânia, a casa não apenas caiu, ela desmoronou completamente…
Partindo das tramas mais periféricas, ainda ontem destaquei um certo incômodo com um subaproveitamento de alguns personagens, como Norma e Dionísio, um dos casais centrais, e da Daniele, parceira de Denise, que também quase não aparecia… Parece que a minissérie quis dar movimento às suas tramas nesta última noite.
Dionísio pelo menos sofreu um infarto enquanto estava com Olga e, dada a necessidade de ser levado ao hospital pelo seu amor de adolescência, abre a possibilidade de que, uma vez que Norma descubra sobre a aproximação do marido e de Olga, decida também se entregar ao professor novinho da UnB. Continuo cheio de ressalvas a esta trama, mas espero ser surpreendido positivamente por este núcleo composto de grandes estrelas da TV brasileira.
Por outro lado, já não espero nenhuma surpresa vinda de Daniele, a namorada de Denise… Toda a sequência em que ela desmascara sua companheira foi excelente, sobretudo por um trabalho irrepreensível de Paolla Oliveira, que dominou completamente a cena e deixou Martha Nowill completamente em segundo plano. Some-se a isto o fato de que Daniele é uma personagem sem qualquer carisma junto ao público – completamente oposta à situação de Danny, que é adorada – e aquele adeus pode muito bem ser o último momento da personagem na série que, para mim, não fará diferença.
A questão que muitos têm levantado, e que pode ser completamente possível, é que o crime passional seja cometido exatamente por Daniele, matando Marília, Cláudio, ou até mesmo Denise. Levando em conta a forma escrota como Danny tratou a namorada ao terminar seu relacionamento, a moça já tem motivos mais do que suficientes para querer vingança.
Falando em vingança, voltando ao início do episódio, vimos a forma fria com que Cláudio matou Flávio, apenas para livrar Danny (ou a Simone, para ele) das perseguições do rapaz. A forma fria com que Cláudio se livrou do fazendeiro, sem demonstrar um pingo de piedade, apenas reafirma a personalidade odiosa do personagem, e ratifica o brilhante trabalho que Enrique Díaz vem fazendo na minissérie. E convenhamos que o “presente de agradecimento” de Danny também nos rendeu bons momentos.

A questão principal é que, depois de mostrar que é capaz de matar por Denise, Cláudio acaba vendo as fotos da prostituta com sua mulher no restaurante (e ainda estou tentando entender de onde/quem veio aquelas fotos) e a confronta exatamente por desconfiar de algo acontecendo entre as duas. É evidente que Cláudio descobrirá em breve o relacionamento de Marília com Denise e ficará furioso, não sendo absurdo que uma das duas termine exatamente como o Flávio…
O único problema de Cláudio é que sua casa está caindo de todos os lados, então, antes mesmo de descobrir qualquer coisa sobre o caso da mulher, Cláudio vai ter que lidar com os escândalos envolvendo sua empresa e, sobretudo, com os escândalos em sua própria família, envolvendo Tânia e Hugo.
Não há como discutir, este capítulo foi inteiro de João Miguel e Adriana Esteves, que não apenas nos entregaram as melhores tramas individuais de seus personagens, mas também deram um show absoluto no quesito atuação.
Me encontro, mais uma vez, maravilhado com mais um trabalho excepcional de João Miguel, que construiu em seu Hugo, provavelmente, o personagem mais profundo de todos de Felizes Para Sempre? Aquele cara que, inicialmente, era um bêbado bronco com cara de briguento e que, por uma primeira impressão, não atrairia a simpatia de ninguém, conquistou a minha mais completa admiração no decorrer desses sete capítulos.
Hugo pode ter seus problemas com bebidas, ter um jeito meio grosseiro, cara de fracassado e um perfil meio ultrapassado, mas é uma pessoa moralmente inquestionável. É ético, é correto, tem suas próprias convicções e é fiel à elas, não admite as falcatruas do irmão, não coaduna com corrupção de qualquer forma (comprovado pelo apoio aos protestos do Júnior), é um bom pai e respeita a sua família ao ponto de, ao descobrir a traição da mulher, não fazer barraco, não ser agressivo, apenas decidir sair de casa e ir atrás da verdade.
Alguns podem questionar a necessidade que ele tinha de contar ao Júnior sobre a questão de sua paternidade, mas a cena entre pai e filho foi tão linda e Hugo demonstrou sentimentos tão genuínos com relação ao garoto, que eu não tenho nenhuma crítica a fazer ao personagem. Hugo teve a hombridade e dignidade necessárias para situações como essas, e vem agindo de maneira tão exemplar diante de todas suas descobertas, que cheguei bem perto de eliminá-lo da lista de prováveis assassinos…

Mas aí tivemos a belíssima cena final, do confrontamento de Hugo, Tânia e Júnior e, com a confirmação de que é Cláudio o pai do rapaz, tivemos a explosão da maior bomba que Felizes Para Sempre? já nos apresentou até aqui. A descoberta de que Cláudio teve um filho com sua cunhada não apenas irá mexer com todas as estruturas morais de Hugo, mas vai balançar toda a base da família Drummond.
Num capítulo tão chocante quanto este “Filhos, melhor não tê-los?”, só o que me resta é agradecer pelo brilhantismo do roteiro da minissérie e por ter tido a honra de presenciar atuações tão memoráveis de Paolla Oliveira, João Miguel e Adriana Esteves.
E depois, sentir o desespero por só faltarem mais três míseros capítulos para Felizes Para Sempre? encontrar o seu fim.
::: Observações Finais:
– Joel e Susana ficaram de fora da review propositadamente, já que apesar da revelação da gravidez da moça ter caído como uma bomba no meio do episódio, ficou evidente que a trama deles será melhor desenvolvida mais pra frente, quando terei a oportunidade de escrever mais profundamente sobre.
– Aliás, é óbvio que o assassinato do Flávio não tem nada a ver com o crime passional prometido, né? Um cara que mata da forma fria com que ele matou (“O nome dela é Simone, pô!”)
– Que tensão desnecessária de ver a Marília com o celular da Danny hahaha.
– O melhor da história do Júnior é que ele odeia o tio e já até levou os amiguinhos black blocks pra quebrar a empresa do papai.
– Genial a cena de Cláudio indo pra cama com as 4 prostitutas logo após de descobrir que o pai tinha sofrido um ataque do coração.
– Melhor diálogo do capítulo: “Risada? Que risada, mãe? O Cláudio tá em todos os jornais, Joel bateu na mulher, papai enfartou e eu não tenho nem casa… Que risada?” – “É, a família tá na merda”.
– Ou, ainda disputando às melhores frases do episódio, qualquer uma de Danny Bond para Daniele… “Tô vendendo o que é meu”, “Vou embora, meu amor, porque time is money”, “Isso aqui custa uma grana e você deitou e rolou de graça”.
– Os planos de Brasília, as usual, continuam lindíssimos. Adoro quando usam os drones para passar através dos monumentos mais famosos, ou visitam lugares que só os brasilienses têm o prazer de conhecer, como a Ermida Dom Bosco, onde tivemos a cena final com Hugo e o filho, e que é ainda mais linda do que aquele trechinho do deck mostrou.















