Looking, agora oficialmente uma série de TV.
Quem acompanhou as reviews da primeira temporada de Looking aqui no Série Maníacos sabe que bati bastante na tecla de que estávamos testemunhando uma série extremamente orgânica e realista, quase um momento “vou ouvir como foi a semana dos meus amigos”. Em geral, os artifícios dramatúrgicos da série eram quase imperceptíveis. Não se notavam twists mirabolantes ou cliffhangers de roer as unhas. Looking tinha outra pegada, uma pegada muitas vezes mais reflexiva, em detrimento da preocupação em ser um show.
Looking Top to Bottom consolidou a impressão que seu antecessor já havia deixado: a segunda temporada da série veio para mudar isso. Conseguimos claramente enxergar as costuras do roteiro, é possível ver as tramas se delineando e até ter uma boa ideia de aonde parte delas querem chegar. Definitivamente, Looking não é a mesma.
No terceiro episódio da temporada, essa mudança grita quando falamos de Agustín, um personagem que saiu completamente detestável de uma temporada, voltou tolerável para a seguinte e agora já está quase um doce. A cena em que o cubano vai ao trabalho de Richie para se desculpar foi surpreendente até para aqueles que tinham mais fé no caminho de redenção do personagem. Já a postura do ex de Paddy de surpreendente não teve nada, visto que ele continua sendo o bom moço que sempre pintaram e rapidamente aceitou as desculpas e se mostrou bastante receptivo ao novo amigo, com direito até a aparada na barba.
Foi muito curioso o diálogo em que Agustín diz “eu, a fim do Paddy? Que nojo!”, quase como um garotinho de 5 anos quando perguntam se ele tem uma namorada. As más línguas diriam que quem desdenha quer comprar, mas vejo esse momento como um recado dos roteiristas a nós, para esclarecer de vez que essa possibilidade não se realizará. No lugar dela, tenho visto comentários pela internet afora que acreditam que um possível novo casal latino pode se formar a partir desse contato. É bastante perceptível o fato de o roteiro ter aberto as portas para essa possibilidade, mas acho cedo para dizer, e acho difícil engolir esse twist se não houver um grande trabalho com ambos os personagens antes de ele acontecer. Ainda assim, por mais que tudo tenha, sim, soado um tanto forçado, não consegui não encarar com simpatia a decisão e esses breves momentos dos dois. A redenção de Agustín não é lá muito realista, mas rende boa TV, e assim está sendo feita.
Um processo similar está acontecendo com nossa querida Doris, que cresceu a olhos vistos na série e agora tem direito a trama própria e a um ursão negro para chamar de seu. Doris continua funcionando perfeitamente como alívio cômico, e foi divertido vê-la com ares de “beijo grego não é exclusividade de vocês, meu bem, eu também ganhei!”. Doris era apenas um acessório divertido de Dom na primeira temporada, mas, em nome da boa TV, ganhou vida independente. Por enquanto, isso não prejudicou em nada seu papel e sua responsabilidade na série, mas não sei se quero ver esse relacionamento se aprofundando.
A trama de Dom não poderia ter sido mais televisiva. Uma reunião arranjada secretamente por Lynn pelas costas para que ele próprio conseguisse cuidar da situação profissional do namorado sem que seu amor soubesse da influência. No fim, é claro, aquele que seria enganado descobre tudo, e uma crise estoura. Um arco retirado diretamente dos melhores novelões mexicanos. E dos piores também. Ainda assim, vale um salve para os responsáveis por nos dar Murray Bartlett de uniforme de rúgbi apertado. Um beijo pra eles!
Tenho uma tendência a concordar com Dom nessa briga, por um único motivo: Lynn realmente havia concordado em não misturar negócios com prazer, e por isso deveria ter ficado de fora da vida do namorado. O problema é que é difícil se importar com alguém e simplesmente frear-se quando você acha que pode ajudar a pessoa a encontrar um caminho melhor. Afinal, todos nós vimos a espelunca em que Dom pretende abrir seu restaurante, e todos nós vimos o absurdo que vai custar. Ficar indiferente numa situação dessas seria um grande sinal de falta de amor. Lynn ama a olhos vistos, e ama delicadamente, sem imposições e sem forçar a barra. Ele está disposto a quebrar esses “contratos” em nome disso. Por isso, continuo achando que o “contrato” do relacionamento aberto também acabará rendendo uma nova crise no futuro.
Por fim, temos Paddy e Kevin, o casal mais polêmico de todos os tempos da última semana, a única trama que, desta vez, considerei fluida em algum nível. É muito divertido ver os roteiristas insistindo na dicotomia entre “casal fofo” e “cafajeste que trai”. Há, de fato, várias cenas para sustentar os dois lados da moeda. Em primeiro lugar, ver Kevin se oferecendo para acompanhar o amante no jogo foi realmente bonitinho. Pra mim, que enxergo as coisas de forma um pouco menos cor-de-rosa, o rostinho de Paddy iluminando-se nesse momento foi de cortar o coração.
No local em si, não me surpreende nem um pouco o fato de Kevin ter sido divertido, bacana, querido e bem visto entre o grupo de amigos. Todo cafajeste é sociável, é popular, é bom com as pessoas. Os introvertidos e antipáticos ou não são considerados atraentes ou simplesmente não têm a habilidade social necessária para manter um caso extraconjugal com naturalidade.
A maior “prova de amor” do episódio, porém, foi ver o chefe passando o bastão (trocadilho não intencional) do papel de ativo a Paddy. Não que eu esteja hierarquizando os papéis de ativo e passivo numa relação, muito longe de mim. Mas sabemos que Paddy curte ser ativo e que ele tem “dado por amor” (e adorado, claro), por assim dizer. Esse, na verdade, é o grande vácuo que o sexo casual jamais preencherá, e sua grande desvantagem em relação ao sexo com sentimento. Em relações estáveis, em que há amor legítimo, o prazer do outro tem um peso enorme na hora do sexo. No âmbito casual, busca-se apenas a própria satisfação. É por isso, e não pela questão dos papéis de ativo e passivo em si, que senti, pela primeira vez, que Kevin sente algo real por Paddy. E, desta vez, tudo aconteceu de maneira natural, sem precisar forçar a barra com dancinhas no escritório. Entre tantos arcos complicados nesse episódio, esse foi o momento “golaço!” de Looking.
Agora, preciso dizer que, ainda que Paddy tenha feito muito bom proveito da generosidade do parceiro, desperdício de chuca é uma coisa muito triste. Aliás, o que foi a cena da chuca? A possíveis desavisados, “chuca” é a gíria gay para se referir à lavagem retal que Paddy fez no episódio. Aos fãs da bundinha de Russell Tovey, não há animação com as cenas dele que resista a um momento desses, há? Confesso que o meu conhecimento sobre o assunto é bem próximo de zero (acho esse procedimento tão invasivo e nojento que confesso que até falar sobre o assunto sempre foi um tabu pra mim), então me diverti muito com a cena, e palmas para Jonathan Groff pela exposição, não é pra qualquer um. Também aprendi uma coisa nova: que o produto que Paddy adquiriu na farmácia é algo parecido com isto aqui, algo que eu não fazia ideia que existia. E, sim, eu pesquisei sobre chuca pra tentar escrever sobre o assunto aqui, olha o que eu faço por vocês! Se forem fazer o mesmo, meu conselho é: selecionem com parcimônia os links que forem acessar. Sério!!!
Mas chega desse assunto! Voltando ao casal, o problema é que, ainda que haja sentimento, a cafajestagem predominou justamente no fim do episódio. Eu não consigo imaginar o sentimento de uma pessoa apaixonada ao ter acabado de dormir com o alvo da paixão e ouvi-lo ao telefone dizendo “Oi, amor”. Definitivamente, estamos falando de uma relação nada saudável e extremamente destrutiva, e eu continuo não me conformando com a longevidade desse período de enganação que Kevin está promovendo em sua vida.
Looking Top to Bottom foi um episódio que me fez concluir que, sim, Looking finalmente abraçou sua condição de show de TV, e está bem mais comprometido com o entretenimento do que estava em sua primeira temporada. Isso não é necessariamente algo ruim, mas acende um pequeno alerta em minha mente porque, pra mim, o realismo e a fluidez das tramas eram as principais características que compunham a identidade de Looking. Não sei para onde a série vai agora, e não digo isso em um sentido positivo. Mas continuo com muita fé na nossa dupla Michael Lannan e Andrew Haigh, e sigo com boas expectativas. E vocês?














