Honra não significa nada, respeito sim.

O caminho a ser traçado por Peggy é relativamente curto, mais um episódio e alcançaremos a metade da série, porém, toda a construção de personagens fez com que essa fosse a hora mais proveitosa em minha watchlist em muito tempo. Humor na medida, cenas que não forçam a barra e ação bem coreografada, novamente, elogios não serão o bastante para demonstrar toda a minha satisfação com Agent Carter. E se no primeiro episódio enalteci Hayley Atwell, por sua imensa capacidade em me fazer gostar de Peggy, hoje a bola da vez foi James D’Arcy, melhor coadjuvante e melhor sidekick que qualquer agente poderia ter.

Peggy quer respeito, é seu desejo mais forte. Se em Capitão América: Primeiro Vingador ela ocupava um lugar de destaque, em Agent Carter ela apenas sobrevive na agência, graças a forças que ninguém sabe explicar. Não sabemos ainda como ela foi parar na S.S.R., a série não nos deu essa explicação. Por isso eu consigo sentir a dor que foi entregar sua investigação, assim como me satisfiz com o papel de Jarvis, de ser a consciência e voz da razão. Honra não significa nada para Peggy, é o respeito que a faz querer se destacar, mesmo que seja seu senso de justiça que a movimente, no final das contas.

E que hora boa AC tem se provado, ein? Até mesmo a iluminação da série passa todo o sentimento necessário para imergir de verdade na experiência de acompanhar o episódio. Notem como a cor verde é utilizada para demonstrar perigo, o cativeiro do vilão, ou a arma letal que quebra ossos. O cuidado é primoroso, assim como a trilha sonora, tão gostosa de ouvir e com ritmo bem empregado durante a ação, ou o suspense. A própria música “Someone To Watch Over Me” tocada quando Peggy está em sintonia com seus sentimentos de perda exemplificam bem o estado que a personagem se encontra.

Foi muito importante o ritmo mais ameno em ‘Time and Tide’, afinal, precisamos saber mais a respeito de Jarvis. Gostei bastante da maneira que conduziram a trama ao redor dele e mais ainda com a cena do interrogatório. D’Arcy está brilhante no papel. Continua desempenhando função fundamental, mas sem roubar o espaço de Peggy. Um dos meus maiores medos quando foi revelado que Jarvis, fiel mordomo dos Stark seria o parceiro de Peggy eu me preocupei, confesso. Pensei que o utilizariam como válvula de escape para tudo aquilo que não se encaixasse ao papel de uma mulher, mas estava completamente errado. Ambos os personagens complementam a existência do outro, sem sobrepor ou roubar a função designada. Peggy ainda dá as ordens, Jarvis as segue, mesmo que um pouco mais confortável.

A trama do Leviathan ainda se desenvolve e imagino que a máquina de escrever será o ponto de partida para a próxima missão. Uma hora, ou outra, a S.S.R. precisará chegar até o fundo do problema. Da mesma forma que desconfio totalmente da existência de Dottie dentro da série. Dentro de mim eu acredito que o Leviathan possa ser apenas mais uma ramificação da Hydra, como a Centopéia foi em MAoS, afinal, qualquer monstro ou criatura mitológica que tenha mais do que um braço, ou cabeça, irão levantar em mim os alarmes para um possível “Hail Hydra” por debaixo dos panos.

Já Howard Stark sendo constantemente colocado como vilão da história, para os agentes, pelo menos, deverá nos render boas interações futuras. Só nos resta aguardar mais do desenrolar do plot e torcer muito para que a entrega seja tão satisfatória quanto esses episódios tem sido. Correndo o risco de soar repetitivo, mas não me importando muito: O que foi aquela cena de luta? Não apenas o carisma de Peggy, mas também as cenas de luta trabalham fortemente em favor a série. Atwell consegue passar bem esse ar ácido, doce e perigoso. Realmente, o pacote completo, mesmo que alguns julguem isso com desfavor.

Muitos ainda não conseguem engolir que Agent Carter esteja tratando homens como “esquecidos”. É o que mais tenho lido na internet, que o gilr power já passou, teve seu momento nos anos 90 e que a Marvel está perpetuando clichês ao colocar Peggy Carter como uma mulher que não recebe o devido respeito e que é retratada como alguém mais forte e capaz que homens. Alguns até chegaram a pontuar que a era de poder das mulheres foi com as Spice Girls, que o discurso já havia sido aceito e que hoje em dia não existe esse tipo de separação. Bom, provavelmente essas pessoas não são mulheres.

Hoje em dia 95% das séries contém homens protagonistas e mulheres como coadjuvantes. Agent Carter quebra o paradigma ao demonstrar uma mulher forte e ao mesmo tempo afastada de certos clichês que são impostos na visão de uma “mulher forte e decidida”. Quando a temos chorando por um babaca, sexista e machista, o comum a grande maioria das séries seria retratar Peggy, nossa protagonista, como uma mulher decidida a se vingar, com força exuberante e comportamento digno de uma vingadora. Poucas são as produções que permitem a suas heroínas fragilidade. No geral, mulheres ainda são representadas como inferiores aos homens, o caráter mais positivo de Agent Carter é saber dosar bem o ímpeto e a fragilidade sem que um dos dois sobreponha o outro.

Peggy Carter é uma mulher forte, complexa e poderosa em todos os aspectos. É exatamente isso que diferencia a nossa primeira protagonista a ganhar uma série própria dentro do universo dos quadrinhos. Melhor ainda quando é representada como alguém que não precisa de um par romântico para se sentir completa. Longe disso, homens aqui, como eu já pontuei nas primeiras impressões, são os coadjuvantes e servem apenas para reforçar os traços mais marcantes de Peggy. Os anos 40 então, agem como uma expansão a toda essa misoginia, nos imergindo mais ainda na sensação de inferioridade que a mulher ocupa na série.

Vejam bem, até mesmo a líder do pensionato adota um papel que representa bem toda a segregação. “Mulheres precisam se dar ao respeito”. É a figura do homem que desconstrói o discurso. Uma mulher que não age maternalmente foge ao padrão esperado, gerando certa repulsa. Lidar com essas mulheres em um mundo dominado por homens é o plot central da produção e a força motriz que acompanhará Agent Carter enquanto a série estiver sendo exibida. Se você quer apenas ver uma mulher bad ass chutando bundas, comemore, aqui você receberá muito mais.

O discurso que dá poder a mulher ainda hoje, por mais absurdo que possa parecer, não é bem aceito. Até mesmo no MCU, temos apenas heróis homens, fortes e brancos como líderes. Homem de Ferro, Hulk, Capitão América, Thor, Guardiões da Galáxia. As mulheres da Marvel, até agora, sofreram muito com a banalização de suas funções. Mesmo Capitão América: Soldado Invernal sendo dominado pela Viúva Negra, ainda é o homem loiro e forte que no final, salva o dia. Apenas por esse motivo Agent Carter já merece destaque e reconhecimento.

Então, AC representa mais do que uma boa série, com três ótimos episódios e uma protagonista absolutamente apaixonante. Agent Carter representa uma linha bem forte na areia, que mostra que é possível sim que os universos da Marvel e DC comics representem suas protagonistas sem que haja a necessidade de coloca-las como suporte para o homem, ou interesse amoroso. Seu terceiro episódio foi extremamente capaz e apesar de mais lento que os dois primeiros, soube utilizar todos os personagens de forma a conduzir o plot sem entregar muito. Assim, ficamos mais próximos da S.H.I.E.L.D., que começa a ser desenhada em uma S.S.R. bem mais unida e com um propósito. Também fomos mais uma vez agraciados com a bela dinâmica entre Peggy e Jarvis, a dupla que definitivamente continuará nos encantando.

Easter Eggs e outras informações

– O raio da morte está em Nevada. Bom, semelhanças podem ser encontradas nas HQs, em que Tony Stark e a S.H.I.E.L.D. estão construindo um dispositivo chamado “Intensificador de Raio Cósmico” no deserto. Lá eles são atacados pelo Fantasma Vermelho e o Unicórnio, sendo que o último tem laços com Anton Vanko, cujo pai apareceu na première de Agent Carter.

– Nos quadrinhos Jarvis também lutou contra os nazistas em uma missão no Canadá. Piloto que lutou com bravura, foi dispensado e depois se tornou mordomo, mas nada de desonra aqui.

– Também na nona arte, Jarvis também forçava um sotaque, só que inglês britânico. Ele acaba se fazendo passar por britânico durante a guerra, mas na verdade é norte americano.

– Constrictor não é apenas o nome da arma que quebra ossos, também é o nome de um ex-agente da S.H.I.E.L.D. que se tornou vilão.

– Zandow, o cara do circo que levou uma surra da Peggy e do Jarvis existe nas HQ’s e tem o mesmo pano de fundo, mas nas histórias do Capitão América.

Artigo anteriorMarry Me 1×10: Spoil Me
Próximo artigoGirls 4×01: Iowa [Season Premiere]