Marco Polo corrige e supera os erros graves de sua estreia.
Princípios são coisas fortes na cultura asiática. Um só gesto pode parar uma guerra e elevar a moral de toda uma nação. Por outro lado, a omissão de um gesto é capaz de deslanchar uma guerra violenta. E isso não fica restrito ao cenário asiático. Sun Tzu se tornou um paradigma por, em sua obra-prima “A Arte da Guerra”, expor, sem piedade, a natureza dos conflitos bélicos e a forma de alcançar a ordem diante de um cenário turbulento interno ou externo ao país. Não era somente na Ásia, suas palavras se alastraram na Europa, América e África com surpreendente semelhança. Mais importante que número é a coesão e a união, mais importante que a admiração pode ser o medo e mais importante que vencer uma batalha pode ser perder em uma para ganhar uma guerra. E, em The Wolf and the Deer, Marco Polo movimentou as peças de seu cenário, estabelecendo uma tensão que já passa de latente e usando a figura de Kublai Khan como um laboratório para analisar a guerra como um todo e os princípios asiáticos.
Depois de um episódio inicial conturbado, confuso e corrido, desesperado para impressionar o público, a série cumpriu o que vários leitores comentaram na review anterior: Marco Polo cresce já em seu segundo episódio. Mas não foi só a melhora que me agraciou. Na verdade, o ponto alto de The Wolf and the Deer foi a percepção por parte dos roteiristas de que o segredo para o sucesso de uma história, independente de sua escala, está em seus personagens, na forma que reconhecemos suas diferenças, acreditamos em suas histórias e torcemos para o melhor e para o pior. E, se anteriormente eu apontei que eu não conseguia determinar exatamente a função de cada peça do tabuleiro, dessa vez mudo minhas palavras. Marco Polo é o olhar exterior e mais imparcial para Khan, que, para administrar seu reinado e alcançar o império, não abre mão de confiar em contrariar seus conselheiros; Jia Sidao é o nêmesis do rei mongol que não abre mão de usar a irmã Mei Lin como arma sexual para derrubar o adversário; Jingim é o filho que busca a aprovação do pai e se impor perante o conselho do reinado; Kokachin é a figura enigmática, que poderá vir a trazer desgraça para Marco.
E, como o objetivo do capítulo era construir os personagens e estabelecer os principais focos de tensão, passamos grande parte dos quase sessenta minutos indo de cenário a cenário acompanhando o modus operandi de cada figura. Assim, começamos com a vergonha e humilhação de Jingim, Polo descobrindo através de Sanga as transações comerciais do reinado e através de Kokachin mais tragédias das questões políticas, para então ser usado como “o olhar estrangeiro” sobre Ariq, irmão de Khan que suspeitava de traição. De forma fluida, coerente e coesa, firmando rimas narrativas que engrandecem a estrutura da série e nos fomentando a criar teorias sobre os próximos caminhos, Marco Polo corrige os erros mais graves de sua première. Dessa forma, se vemos, por um lado, o protagonista criar laços com Sanga e, por outro, a tragédia que a quebra de princípios pode gerar; se por um lado o latino ganha a confiança de Khan por sua sagacidade, esta eleva a tensão por parte de Jingim; e, em uma mesma cena vemos Mei Lin ser humilhada pelas ordens do irmão para então sobrepor e humilhar os homens ao seu redor, mesmo estando supostamente vulnerável por sua nudez.
E não tem como deixar de destacar o belíssimo trabalho do roteiro em lidar com a questão de laços, princípios, guerra e pensamento estratégico através do rei mongol. Constantemente preocupado, devido às responsabilidades de governo um reino e almejar um império, Khan, no mesmo episódio, descobre a falta de maturidade do filho, a traição do irmão e as retaliações pessoais e gerais que isso implica. Tudo culminando na bela cena em que, para evitar um banho de sangue entre mongóis, diminuição de exército e o abalo da moral de seus soldados, o rei decide resolver o destino de seu domínio espada-a-espada com o irmão. Grande em escala e com um belo plano circular em que vemos o número imponente de combatentes de cada lado, os dois homens lutam até a morte no centro de tudo. Esse, aliás, foi um momento que provou que até a lógica visual da série aprimorou, usando o épico como instrumento narrativo e não como mero lembrete da escala do projeto. E, uma vez que citei o aspecto visual, tenho que destacar os figurinos, os cenários e a fotografia de Marco Polo, que continua impressionando em seus mínimos detalhes e acrescento ao bolo a trilha sonora cujo tema principal inusitado com cânticos remetentes a monges agrega um aspecto cultural à trama.
The World and the Deer foi a prova de que Marco Polo consegue aprender a partir de seus próprios. Tivemos não somente a correção dos erros mais graves, mas também a construção dos personagens e mais um banquete visual. O que fica de expectativa é que desenvolvam ainda mais o lado chinês da história: Jia Sidao e Mei Lin são bons personagens que tem muito pedigree para estabelecer muita intriga nas terras mongol.
P.S.: A CENA DA NINJA-SAMURAI FAZENDO ACROBACIAIS MARCIAIS COM UMA ESPADA!!!
P.S.: Por favor, tragam mais da Empress Chabi.















![Marco Polo 2×10: The Fellowship [Season Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2016/07/c649694322-218x150.jpg)