Uma moeda de troca chamada Freak.
Não é difícil avaliar por qual razão os circos de aberrações povoaram a nossa civilização a partir de algum ponto da história. Sempre tivemos uma profunda curiosidade sobre tudo aquilo que foge da métrica da natureza estabelecida como “normal”. E vale pra tudo mesmo… Até a mania que o homem tem de gostar de ver cadáveres ao vivo e na internet, se dá pela curiosidade mórbida de contemplar um tipo de condição que você não vai experimentar de modo consciente. Quer dizer, você não vai poder se ver morto ou muito menos vai nascer de novo pra ganhar uma perna extra. E se tem gente por aí que nasce assim, você pode até pagar um dinheirinho pra contemplar.
Vocês já devem ter ouvido falar de Jonah Falcon, dono do segundo maior pênis do mundo (34 centímetros), que indo na direção contrária da exploração do exagero, ficou conhecido pelas constantes recusas em usar seu dote para fazer dinheiro. É dificílimo encontrar na net qualquer foto explícita do famoso órgão e filmes pornôs (que poderiam ter lhe rendido muita grana) nem passam pela cabeça do dito cujo. Jonah briga o tempo todo contra a redução existencial de que é apenas um imenso pênis. Mesmo que ele só tenha ficado conhecido por causa dele.
Mas, no final da década de 50 quem tinha coisas extras, coisas grandes ou coisas atrofiadas, tinha mesmo era que ser sustentado pela família ou cair no meio de um picadeiro. O nível de marginalização dessa existência era tamanho, que havia internamente e externamente, um mercado negro de exploração dessas aberrações físicas. Assim, ganhava-se dinheiro sendo um freak ou só encontrando um freak. Um tráfico de morbidez visual, um voyerismo macabro que movimentava valores, um sistema monetário que pagava pelo que chocava.
Test Of Strenght é um episódio tomado de chantagem e ameaça, onde sobrevive quem faz a oferta maior. O dono desse plot é Spencer, mas, em alguma instância, muitos outros personagens estão se dispondo um dos outros, por ódio, ambição ou sobrevivência. Às vezes, estar dentro de uma condição peculiar é que dá a verdadeira dimensão do quanto as pessoas estão dispostas a investir na observação dessa experiência. E muita coisa na vida funciona assim…
Dot e Bette foram vendidas para Dandy, mas Dot compreendeu quase imediatamente que o rapaz também tinha uma deficiência e que ela também poderia explorá-la. O problema é que Dot se superestima e nem teria conseguido sair viva da residência de Gloria se Jimmy não tivesse aparecido, muito menos poderia conseguir passar Elsa pra trás, fazendo um milhão de exigências que jamais serão cumpridas. Por uma questão óbvia de ser o embate entre uma mulher extremamente experiente e uma que viveu 30 anos enclausurada, é que a briga de Dot tem que estar perdida. Mas, uma cabeça loira e outra morena foi sensacional.
Então, Jimmy mandou Come As You Are na mesma levada do Nirvana. A letra fala de uma relação ambígua entre inimigos relativamente declarados, e se aplica também a quase tudo que vimos nesse episódio. Pensem bem… As relações entre as gêmeas e Elsa, Ethel e Dell, Jimmy e Dell, Spencer e Maggie… a forma como se dá o final do episódio… Parece que todo o tempo os personagens estão provocando: “Não, eu não tenho uma arma… Eu prometo que não tenho…(mas tenho)”. É curioso perceber que, a essa altura, Jimmy é o único que não parece disposto a matar alguém, sendo bastante coerente com os sentimentos de culpa que a execução do oficial de polícia lhe causaram. Ao mesmo tempo, ao contrário do que diz a canção, ninguém “vai vir do jeito que é”, preferindo um sorriso falso, um beijo maldito, uma mentira velada e até mesmo um abraço mortal.
Apavorado com a perspectiva de ser retirado do armário à força, Dell caiu na chantagem de Spencer e escolheu o primeiro extremo do circo pra sacrificar: Eve. O grandalhão superestimou a própria força e levou uma surra daquelas. Com essa pendência pra resolver, decidiu que talvez matar o filho fosse uma boa, porque, enfim, arrancar mãos deve ser bem mais fácil. Seu ato falho foi ter convidado Jimmy para uma bebida, porque bastou que o garoto se tornasse real pra ele, para que o ato do extermínio acabasse ficando complicado.
Jimmy teve o texto certo pra dizer.. Veio com a história do seu periodo no frio, quando não precisava tirar as luvas e se sentia como um rapaz qualquer… Tem uma tristeza tão grande nisso que me dói. Assim como dói ver como ele ama de verdade cada um de seus colegas, falando de Ma Petite como se ela fosse uma irmã de verdade. Dell se compadece disso de alguma forma, dessa ligação paterna que confirma sua masculinidade. Ele então desiste de matar o filho, num momento em que se misturam ternura e culpa. É como se Dell visse uma brecha moral onde compreende que do mesmo jeito que Jimmy coloca luvas pra esconder suas mãos monstruosas, Dell também põe “luvas” para andar ileso entre os mortais. Evan e Michael são absurdamente sensíveis na cena… Se Asylum e Coven eram muito dominados por personagens femininas, podemos dizer que Freak Show tem explorado personagens masculinos com uma especial maestria. Michael Chiklis tem me surpreendido muito, porque ser durão pra ele é fácil (ele fez isso por sete anos em The Shield), mas conseguir imprimir fragilidade no meio disso não é pra qualquer um.
Quase como num souvenir de final de episódio, Penny aparece voltando pra casa e encontrando o pai confiante de que ela teria o castigo merecido. Nem em mil anos achei que o castigo chegaria naquele extremo. Mas, para os propósitos de American Horror Story, um pai possessivo ver a filha com uma aberração e acabar transformando-a em uma, mantém tudo no contexto. O trabalho de maquiagem estava impecável e a sequência tinha bastante potencial dramaturgico. Será que agora que é um deles, Penny ainda será aceita por Paul? Hora de descobrir se ela estava apaixonada pela rebeldia e se ele estava apaixonado pela beleza.
No último instante, a consequência derradeira. No momento em que Dell resolve ir ao outro extremo do circo (o menor), ele vai na vítima mais indefesa, na sua lógica insana de que está permanecendo ao lado do filho. Há uma ambiguidade grande naquele gesto de levar um presente pra quem pretende matar. Soa respeitoso e ao mesmo tempo debochado. Aquele momento solene, sombrio, enfeitado pelo sorriso inocente de Ma Petite e cheio daquela atmosfera pesada e dada a calafrios dos lugares tipicamente infestados de morte. E senhores, Ryan teve coragem SIM de matar Ma Petite, quase como se respondesse nossos questionamentos. Ela ganha um presente e depois um sufocamento… E vai encontrar o pônei de seus sonhos lá do outro lado das nuvens. Ficamos com a imagem de seu corpo imbuído em conservante… Freak Show, definitivamente, parou de barganhar.
Nota do terceiro peito 1: E parou de barganhar mesmo, porque o próximo episódio,exibido só na quarta que vem, se chamará Banho de Sangue.
Notas do terceiro peito 2: Bette comediante eu já ri só do delusional.
Notas do terceiro peito 3: Spencer vai começar a se dar mal quando mesmo?















