Lost e seus “homens especiais”.
Em seu maravilhoso livro Homens Difíceis, Brett Martin nos conta como aquela que ficou conhecida como “A Terceira Era de Ouro da TV”, nasceu através de um trabalho chamado The Sopranos, que revolucionou o mercado mostrando que qualidade textual e complexidade humana estavam, a essa altura, passíveis de reconhecimento público e crítico. Dali em diante – como bem reza a cartilha da televisão – começamos a viver um período de grandes reproduções desse modelo. A figura do protagonista masculino atormentado pelo passado, pelo trabalho ou pelos demônios internos, virou uma espécie de obrigatoriedade para tudo aquilo que “precisava ser bom”. Há uma infinidade de exemplos e Lost, mesmo tendo saído de uma emissora como a ABC, passou a ser um deles.
A primeira persona onde se aplica o modelo é Jack, inevitavelmente. O médico que tudo precisa salvar passava quase o tempo todo vivendo em tormento. O personagem fora construído para ser teimoso, arrogante e intransigente e isso sempre funcionou aos propósitos da trama. A diferença é que ao contrário do que acontecia com as redes fechadas (onde os defeitos dos protagonistas não conseguiam impedir o público de torcer por eles), o nível de popularidade de Jack era sempre instável e decrescente. Todos sabíamos que ele precisava viver, mas poucos de nós distribuíamos para ele alguns tostões de nosso amor.
E ele não estava sozinho… Após o final intenso da quarta temporada, quando a saída da ilha e o desaparecimento dela diante dos nossos olhos provocou muitas dúvidas, o quinto ano tinha a missão de retomar o ritmo perdido pela greve dos roteiristas e preparar o terreno para o último ano, que já era anunciado como o maior evento televisivo da história (o que acabou se confirmando). Damon e Carlton tinham que assentar a trama, resolver arestas que não interessavam ao futuro do show e fazer isso sem dizer muito, já que ainda faltavam muitos episódios até o derradeiro fim. Sendo assim, eles tomaram duas decisões: adiar respostas preenchendo o tempo com manipulações da mitologia e explorar aqueles personagens masculinos que compunham, com larga vantagem, a essência do show.
Não podemos determinar em que ponto do trabalho as temporadas foram divididas em núcleos, mas agora, olhando pra trás, dá pra saber como isso tudo ficou distribuído.
Season 1: Os sobreviventes, os mistérios da ilha, a provocação da escotilha.
Season 2: Os sobreviventes da cauda, escotilha revelada e o mistério dos outros.
Season 3: Os outros revelados, a provocação sobre terem sido resgatados.
Season 4: O resgate revelado, os Seis da Oceanic e o fim da organização dos outros.
Season 5: A iniciativa Dharma revelada e provocação sobre o que rege a ilha.
Season 6: A ilha revelada e os candidatos.
Além disso, quando colocamos a quinta temporada em perspectiva, fica bastante evidente que ela explorou bastante as mazelas que dominam os personagens masculinos, que são, enfim, os personagens que acabam movendo a história. Jack, Sawyer, Ben, Locke, Hurley e Richard, foram os peões absolutos do quinto ano, fazendo com que toda a mitologia fosse conduzida em torno deles e das escolhas que eles fizeram. O que eles tem em comum? Tormento, dor, arrependimento, culpa… Tudo aquilo que já vinha fazendo a televisão pulsar naquele momento.

“Primeira Escotilha”
A Season 5 de Lost também foi regida por um grande plot: as viagens no tempo. Quem acompanha os textos sobre os 10 anos da série, sabe bem que estou falando sobre energia eletromagnética faz bastante tempo. Ela foi inserida na série lá no ano 2 e ao passo em que sofria interferências pelas mãos dos outros ou dos sobreviventes, ia vazando para a realidade cotidiana e geográfica do lugar, alterando comportamentos, fisiologias e também o espaço/tempo. Isso esteve muito claro e foi extremamente embasado ao longo do tempo… Começou com alguns pequenos flashes sofridos por Desmond e foi ganhando proporção.
O primeiro episódio do ano, chamado Because you left, começa com uma explicação quase didática dessa questão. Pierre, na escavação que no futuro seria transformada na escotilha, diz aos seus operários que ali há uma fonte ilimitada de energia e que qualquer erro pode trazer consequências imprevisíveis. Já sabemos disso, inclusive. Quando virou a chave e explodiu a escotilha no ano 2, Desmond provocou consequências imprevisíveis em si mesmo, mas também facilitou que a ilha perdesse equilíbrio, ficando, inclusive, visível a radares. Assim, dá pra entender que Ben “não moveu a ilha”… A ilha se mover era só uma consequência de uma utilização igualmente imprevisível daquele mesmo bolsão de energia.
O problema é que as propriedades eletromagnéticas da ilha já vinham sofrendo interferências há muito tempo e nessa última grande liberação de energia, algo saiu errado e não pôde haver um ajuste seguro do tempo/espaço do lugar. Assim, a ilha começou a sofrer liberações aleatórias dessa mesma energia, provocando os saltos no tempo. Lançar mão desse recurso abria uma série de possibilidades para os roteiristas, que podiam aproveitar essa posição dramatúrgica para explorar a mitologia presencialmente. Era uma ideia realmente muito boa, já que muitos detalhes da história da ilha puderam ser visitados antes do último ano, que não poderia perder tempo com esses desvios. Basicamente, ainda que a quinta temporada tenha sido muito planejada, ela foi um grande e trabalhoso desvio.

Vimos vários momentos interessantes dessas viagens, mas foi em Jughead que o flerte com o perigo dessas viagens começou a ganhar forma. Preocupados com isso, os roteiristas se adiantaram e deixaram algumas regras bastante claras. A maior delas era de que NADA poderia ser mudado e qualquer bom espectador de televisão sabe que grande erros foram cometidos em tramas que abordaram o tempo justamente porque buliram com o que já tinha acontecido. Quando os sobreviventes se depararam com os outros de outrora, também se depararam com personagens que já conhecemos, mas que não estavam – sabiamente – dentro da timeline deles. Sendo assim, pudemos ver detalhes do passado de Widmore que soavam como souvenirs que não ameaçavam a estrutura da história. Um dos melhores momentos dessa fase é o diálogo em que Locke recomenda ao Richard daquela época que lhe faça uma visita quando criança para ter certeza de que ele é especial. Isso explica a cena da temporada anterior e também reforça o patético da existência de Locke, que nunca foi o líder que os outros esperavam.

Muitos fãs-enxaquecas reclamaram na época, dizendo que teria sido muito mais genial se alguns desses momentos de encontro com o passado pudessem ter sido inseridos lá atrás. Seria maravilhoso? Seria. Mas, pra mim isso não tirou o encanto de cenas como a de Sawyer vendo o parto de Claire, Locke encontrando Ethan, a estátua vista de costas, eles se antecipando à queda do Ajira… Enfim, vários pequenos pedaços do tamanho da riqueza do que é show, ficando visíveis diante de nós. Considero a ideia de colocar Jin no meio da chegada de Russeau simplesmente sensacional. Ela não lembrar dele no presente foi alvo de muitas críticas, mas sigo me divertindo com a ideia de que Jin esteve saltando no tempo junto com os outros colegas, mas em pontos diferentes da ilha, tendo a chance de ver – e nos mostrar – ângulos diferentes da mesma mitologia.
Esse momento de acompanhar o grupo de Russeau reforçou, por exemplo, a forma subterrânea com a qual o Monstro de Fumaça se move desde a Season 1. Sua primeira aparição foi puxando Locke para dentro de um buraco, onde ele, provavelmente, daria início ao mesmo tipo de manipulação mental que atingiu Claire, e que Russeau chamava de “infecção”. Locke foi o escolhido na Season 1 por todos os motivos que já conhecemos (e que podemos resumir numa frase: Locke acredita) e alguns dos membros de Russeau por razões semelhantes. A cena onde o monstro puxa um dos náufragos até o buraco perto dos muros do templo, confirma e reforça o comportamento da criatura desde o começo, até aqui.

Outra ponta solta resolvida nesse mesmo período dizia respeito ao fato de que Christian, quando apareceu para Locke, queria que ELE movesse a ilha. Por medo de que isso representasse um novo papel de importância para John, Ben tomou a frente e moveu ele mesmo. Porém, o Monstro sempre quis que fosse Locke a sair da ilha (para que ele pudesse usar seu corpo) e insistiu nesse plano até que isso acontecesse. Richard (o ponto em comum entre todas essas brechas temporais), entrou em cena para tentar convencer Locke a seguir essa recomendação, e isso abria a possibilidade de que ele o tenha feito sob recomendação/chantagem/promessa do Monstro. Ou Richard simplesmente sabia que ao usar a roda, Ben deixou-a fora do eixo correto, dando início ao descontrole temporal. Sabendo que Locke faria qualquer coisa que Jacob mandasse, Richard apenas usou o apelo para parar os saltos. Locke foi convencido e moveu a ilha, tendo, mesmo que ele e nós não soubéssemos, seu último instante no lugar que tanto o transformara.
A série acerta de novo ao mostrar que o lugar onde surgem os que saem da ilha naquelas circunstâncias, é o mesmo desde sempre, a ponto de Widmore colocar câmeras vigiando os exilados. No ótimo flashback (a quinta temporada é tomada por outra inteligente forma de quebra de narrativa: os flashbacks do passado remoto, que apenas adornam os eventos atuais) que mostra como Ben manipulou Charles para que ele deixasse a ilha, também ficou estabelecido que o que rege o antagonismo entre os dois é o mesmo desejo de importância que rege a relação de Ben com Locke. Ben só escapou de ser o cavalo do Monstro porque é mais racional e o Monstro precisava de alguém que fosse levado pela emoção de ser parte de um propósito maior. O trágico reside no fato de que Locke achou que fazia a coisa certa ao cumprir as ordens que achava que eram de Jacob, mas um pouco depois de chegar em terra firme, deu-se conta de que encontrara seu limite. Será que morrer era mesmo o necessário para que tivesse a aprovação definitiva?
E ele estava mesmo disposto a fazê-lo… Ele resistira até onde pôde, mas depois de voltar para a cadeira de rodas, ver todos recusando suas recomendações e perceber que nada acontecia, começou a achar mesmo que talvez morrer literalmente fosse a saída. De alguma maneira ele retornaria, já que Jacob sempre protegeria os seus. Locke acreditava tanto nisso que o Monstro deu como certo que ele se mataria, e ele ia mesmo se matar. Só que Ben entrou em cena, desesperado para manter seu lugar, tão patético quanto Locke, achando que havia uma possibilidade de que ao cometer suicídio, Locke realmente ganhasse alguma oportunidade mágica de retornar e ser o líder. Para evitar isso, Ben mata Locke e considera que isso impediria o sacrifício e – por ventura – a “nova chance”. O que ele não sabia era que bastava que Locke estivesse morto, seja como fosse essa morte.
Na cena onde encontra com Walt, o texto insinua que o menino teria sonhado com a “nova forma” de John. Além de antecipar que aquele que chega na ilha não é o mesmo homem, esse momento também reforça que o garoto pode ter sim uma espécie de ligação com a parte escura que rege o maniqueísmo da ilha. Talvez o que estava por trás da história de Walt era uma necessidade de que a ilha tivesse um homem de preto para cada era, afim de manter o equilíbrio que determinava os candidatos a tomarem uma decisão conhecendo os dois lados da moeda.
Sem saber o que aconteceria mais pra frente, também fomos levados a crer que talvez Jacob estivesse mesmo por trás da recomendação de que Locke precisaria morrer, já que ele apareceu vivo no novo acidente. Mas, havia algo estranho… O trabalho de Terry O’Quinn foi tão maravilhoso, que ele reproduziu os últimos momentos de Locke com uma sensibilidade comovente (numa das melhores cenas do show) e ressurgiu na ilha mantendo a ideia de que era Locke, mas com um olhar completamente diferente. Era tão sutil, mas tão perceptível ao mesmo tempo… Havia algo de errado com aquele homem, mas nem os sobreviventes e nem nós podíamos determinar o que era, de onde vinha e porque era tão sombrio.

“Segunda Escotilha”
E enfim, os Oceanic Six voltaram. Foi de uma forma ambígua, que não agradou a todos, mas que tem seu embasamento numa máxima de toda e qualquer obra de ficção: algumas vezes, para a história andar, temos que ser complacentes com a realidade. Em doses delicadas, sempre, mas sendo absolutamente necessário. Sendo assim, os roteiristas resolveram que seria óbvio que a ilha não fosse o único solo sobre bolsões imensos de energia eletromagnética e que, de alguma maneira, eles pudessem estar conectados (afinal tudo na série não é sobre conexão?). Bastava ligar os pontos, traçar uma rota onde esses picos de energia colidissem e escolher o voo que faria esse trajeto. Por uma questão de karma (a série sempre lida com destino, lembram?), a ilha traria de volta aqueles que tinham questões inacabadas, desde que o cenário da passagem do avião fosse o mais semelhante possível ao da primeira vez.

Não foi possível reproduzir esse cenário perfeitamente (Sayd prisioneiro no lugar de Kate, Ben atrasado no lugar de Hurley, Locke no lugar de Christian, piloto diferente…), o que foi responsável, provavelmente, pela bifurcação do retorno. Alguns voltaram no presente e outros pegaram o bonde do passado. Minha teoria é de que os candidatos precisavam estar juntos e o restante não importava. Por isso, Sun não foi pro passado, o que nos adianta que o Kwon escolhido era Jin. O acidente em si se omitiu da nossa visão e a aparição do grupo de Jack no meio da floresta irritou alguns espectadores, o que acho perfeitamente compreensível. A quinta temporada foi o momento em que a complacência da realidade chegou ao limite para muita gente, que se despediu da série aqui.

Lost tem uma mágica interessante no que diz respeito a casais. Ela sempre conseguiu fazer vários deles funcionarem mesmo com o mínimo tempo de tela. Foi assim com Shannon e Sayd, com Hurley e Libby e também com Sawyer e Juliet. Infelizmente, o que todos esses casais especiais tem em comum é o fato de também terem uma vida muito curta. O episódio LaFleur começa com um outra realidade intensa para o show: três anos também se passaram na ilha e durante esse tempo, Sawyer, Juliet, Jin, Daniel e Miles tentaram construir suas vidas junto à Iniciativa Dharma. E é daquele jeito… Quando nos apegamos muito a um grupo de personagens, passagens de tempo como essa nos fazem pensar em como seria ter a chance de ver tudo acontecer… Sawyer era o Saywer que sempre quis ser. Juliet é a mulher que ele sempre sonhou… Ela acredita nele, o apoia, eles se amam, é rápido, mas terno e crível. Agora ele se chama LaFleaur, porque não é nem Sawyer e nem Ford, é algo melhor. E isso o torna o personagem mais verdadeiro e comovente de toda essa segunda metade da quinta temporada. Mas, o passado (ou o futuro) um dia chega…
Namastê é o episódio em que vimos que o avião da Ajira pousa. Isso é necessário porque um dia ele será usado. Então é 1977 e não precisamos de “flashes alguma coisa” porque passado e futuro bifurcam a narrativa. Essa é Lost sempre tentando fugir da permanência de determinadas métricas propostas por ela mesma. Porém, esse bloco de episódios que tratam do retorno do grupo de Jack evoluem Sawyer brilhantemente, enquanto involuem Sayid perigosamente. Todo o plot do tiro em Ben soou para alguns fãs como extremamente duvidoso, mesmo que os roteiristas tenham abraçado essas questões num diálogo entre Miles e Hurley. Para eles, não existe uma linha temporal comum. Ben não poderia se lembrar de Sayid quando o conheceu em 2004, porque o presente de Sayid é o de 1977, não o do passado. Essa, enfim, pode ter sido uma regra aberta a relativizações, mas que sem dúvida ajudou a manter a saúde da dramaturgia nesse ponto tão crítico.
Outro ponto importante desse episódio é o momento em que Ben é levado para Richard no meio da floresta. Ele está praticamente morto, Richard diz que pode curá-lo, mas que isso, inevitavelmente, o fará “um deles”. Assim, o imortal leva o garoto para o mesmo lugar onde temos, logo abaixo, o buraco por onde entra o Monstro de Fumaça, subterraneamente. Qualquer semelhança com o que acontece com Sayid na última temporada não é mera coincidência. Ele provavelmente passa pelo mesmo processo que Ben passou quando criança e seu comportamento estranho é reflexo direto dessa experiência. Ele provoca isso em Ben e depois sofre a mesma coisa. Karma. Destino.

No episódio seguinte, mais pontas soltas sendo amarradas. Vimos como Ben roubou Alex e como ele fazia para invocar o Monstro, tirando daquele canal, a água que bloqueava a passagem. Esse é um ponto da mitologia que eu admiro bastante, já que remete aos tempos egípcios e encontra um monte de sentido na forma como essa civilização lidava com o inexplicável. É aquilo que eu já tinha mencionado antes… Em algum ponto da história, os egípcios estiveram na ilha e reconheceram nas propriedades fantásticas, a ação de deuses. Por isso, ergueram estátuas e templos, para adorarem e se protegerem dessas entidades. O lugar onde se escondem Os Outros é um desses exemplos. Provavelmente fora construído para abrigar gente importante daquela sociedade e para que o Monstro de Fumaça não pudesse passar. Logo abaixo do templo, uma via subterrânea, com uma espécie de “residência “ para a criatura, devidamente cercada por dutos de água, que impediam o acesso.
Já no presente, Locke (que ainda não sabemos que é o monstro) tem acesso a memória de seu receptáculo e convence Ben de que pode fazer com que as coisas entre eles fiquem zeradas. Para isso, basta que o Monstro o julgue. Locke-Fumaça sabe que existe em Ben uma necessidade imensa de ser aprovado e que eles precisam se entender, ou o assassinato de Jacob não pode ser finalizado. Então, Locke-Fumaça diz pra Ben que sabe onde ir e o leva até o buraco perto do templo. Ele não segue por todo o caminho, claro, porque precisa virar fumaça e cumprir o teatrinho de absolvição de Linus. E tudo funciona direitinho, já que Ben sai de lá disposto a não atrapalhar os planos de John e fazer tudo que ele quiser. Se isso tudo fica claro no episódio? Claro que não. Mas, essa é a delícia de ser fã de Lost. Eles não facilitam nada pra você.
Depois disso, vem um bloco de episódios para abordar os personagens mais novos e estabelecer suas conexões com a trama:
Miles: Filho de Pierre. Seu episódio explica mais de seu dom, mostra como os números foram gravados na escotilha e como foi feito o recrutamento de Naomi.
Daniel: A mãe dominadora e fria de Daniel, que manda o filho pra ilha mesmo sabendo que vai matá-lo depois. Nesse episódio ele vem com a teoria desesperada de que talvez as pessoas todas sejam variáveis e que elas podem mudar o destino. Claro que não dá certo, mas ficamos sempre naquele mesmo dilema: será que se ele não tivesse sugerido isso, haveria o incidente? Sem o incidente, haveria futuro possível?
No penúltimo episódio a ação toda é organizada para a catarse definitiva. Com o mundo Dharma se acabando pra Sawyer e com Jack cego pelo desejo de salvar a pátria, o resto dos personagens fica a mercê desses “homens especiais”. Fica bem claro que eles estão conduzindo a narrativa, quando organizamos os papeis:
Sawyer: Quer apenas manter a neutralidade de sua vida, encontrada e vivida tão intensamente com Juliet. Ele acaba colocando Juliet na posição de renúncia ao não conseguir esconder o quão se afeta pela presença de Kate.
Jack: Acha que explodir a escotilha é uma forma de anular o futuro e conseguir que o 815 pouse em LA. Teimoso como só ele sabe ser, determina a retomada do presente sem saber disso.
Richard: No presente, ouve de Locke-Fumaça (que ele não sabe que é o Monstro) que ele precisa convencer ele mesmo (no caso, o verdadeiro Locke) que ele tem que morrer. O Fumaça sabe que um dos clarões vai colocar Richard diante de John. É exatamente o que acontece e ao cumprir a recomendação, Richard está garantindo (como já dissemos lá em cima) que o verdadeiro Locke vai tentar se matar, garantindo o sucesso do plano do Monstro.
Locke-Fumaça: Consegue convencer Ben de que ele precisa fazer tudo que Locke disser, consegue convencer Richard de que ao encontrar o Locke dos flashes, vai recomendar que ele morra, e parte para matar Jacob, em sua última manobra de manipulação. Me julguem, mas toda a rede de dissimulações do Monstro, desde a Season 1, para chegar até esse momento, é simplesmente GENIAL.
Ben: Assim como o verdadeiro Locke, vai errar pela fé, pela crença de que ele é especial.

“Terceira Escotilha”
Uma licença para todos os detratores do show que por ventura chegaram até esse momento do texto, mas ser fã de Lost era garantia das melhores recompensas. E o teaser de abertura do Season Finale foi outro daqueles momentos que ficaram gravados na minha memória. Eu, vendo a conversa de Jacob e do irmão terminando, e a estátua aparecendo logo em seguida, numa trilha sonora destruidora, que me deixou cinco minutos de boca aberta.
Ali, nos foi apresentada a grande motivação do Monstro de Fumaça: matar o irmão. Ali, também estava a grande motivação de Jacob: encontrar um substituto que escolhesse essa posição, usando o livre arbítrio para isso. O problema é que esse é um terreno arenoso e nunca fica claro pro público se aqueles personagens foram conduzidos aos seus destinos ou se simplesmente Jacob tinha acesso a seus futuros. Eu aposto na segunda opção, já que os flashbacks dos candidatos mostraram Kate roubando, ainda menina, e Sawyer mentindo na mais tenra fase da vida. Ainda nesses flashes, também podemos ver que Sayid e Locke foram salvos pela interferência de Jacob, que apenas precisava do cenário perfeito para reunir todos os seus escolhidos.
O Season Finale se dividiu em duas narrativas paralelas. No passado, o grupo de Jack lidava com a possibilidade de anular o futuro, e no presente, Locke-Fumaça conseguia alcançar o apogeu de seu plano. Os arautos desses dois plots eram Sawyer e Ben. Enquanto Jack mantinha seu egoísmo disfarçado de altruísmo, dizendo que tinha voltado pelos amigos (quando só voltou por ele mesmo), o mundo de Sawyer era destruído. Isso foi importante porque dimensionou ainda mais o nível de perdas possíveis que aquela explosão poderia provocar. Já Ben, encontrou-se naquela posição assustadora: admitir que Locke era mesmo especial (sem saber que não era) e admitir que mentiu sobre um monte de coisas, inclusive sobre o dia da cabana, quando fingiu que havia um Jacob naquela cadeira vazia (os objetos sendo movidos foram obra do Monstro, que precisava que John acreditasse). Locke-Fumaça e Jack dão as cartas, Sawyer e Ben servem como instrumentos.
E lá estava Sun, de volta ao pé de quatro dedos que viu lá na Season 2. Tudo acabava convergindo ali… O mais interessante é que nenhum dos candidatos estava presente nessa convergência. Depois de tanto tempo, o trabalho de Jacob se resumia a uma pequena possibilidade de sucesso. Para ele ninguém tinha que fazer nada que não quisesse, então, obrigá-los a viver a experiência da ilha, era uma forma de fazê-los querer. No meio disso tudo havia o direito de escolha de seguir ou não a luz. Esse processo fez vítimas fatais, como Locke, e outras mortais, como Ben. Quando finalmente fica frente a frente com Jacob, Ben está profundamente movido pela humilhação e o mata, ainda achando (ele e nós) que Locke realmente detém alguma posição especial nesse tabuleiro. O problema é que os recrutas de Jacob sabem o que está acontecendo de verdade, e a revelação do corpo de Locke levantava uma das maiores dúvidas que a série já teve: quem estava andando pela ilha como se fosse Locke? Sim, porque os olhos de Terry O’Quinn estavam interpretando um homem diferente, um homem novo.
E enfim, a virada derradeira… Uma utopia louca começou a fazer parte dos planos dos que estavam presos no anos 70. E se o futuro nunca tivesse existido? Era óbvio que essa era uma ideia furada, sobretudo porque a série sempre reforçou que janelas no tempo podem se abrir, mas o que está feito, está feito. Daniel veio com essa movido por um desejo infantil de recuperar Charlote. A questão é que o pensamento mais intenso, mais determinante, que consumia as vidas dos sobreviventes, era: e se eu não tivesse vindo parar aqui? Nenhum deles reconhece que não havia vida possível no mundo lá fora, mas tentam, desesperadamente, irracionalmente, recuperar a escuridão em que estavam antes de chegarem ali.
Fez sentido que tivesse sido Juliet a explodir tudo… Ela, de todos eles, era a única que tinha pelo que voltar. A decisão de sacrificar a personagem foi uma das mais difíceis pra mim, porque abrir mão dela era ser cruel com Sawyer, que nunca esteve tão dono de todos os olhares e diálogos mais adoráveis do mundo.
Do ponto de vista dramatúrgico era como se não houvesse nenhuma chance de desvendar o que acarretaria aquela explosão. A forma como Damon e Carlton resolveram essas dúvidas é que acabou relativizando o sucesso do último ano. Anular o que já aconteceu é delicado mesmo que seja feito apenas por uma perspectiva alternativa… Foi isso que Lost não entendeu. A partir daqui era tomar a decisão de aceitar ou não o jeito como se chegou a estação final… Mas, será que a rejeição à natureza do fim, era motivo para apedrejar o trem? No último texto vamos discutir a polêmica última temporada de Lost e eu mal posso esperar pra explicar porque aquele foi um dos finais mais inteligentes dos últimos tempos.

Relatórios Transitórios: Vamos a nossa listinha de momentos deliciosos do quinto ano:
– Michelle Rodriguez e Cynthia Watros podem ter sido demitidas, mas deram um pulinho nas visões de Hurley.
– O ataque de flechas de fogo na praia eliminou praticamente todos os sobreviventes desconhecidos restantes.
– O filho de Desmond chamado de Charlie e o anel do rockeiro sendo encontrado por Sun já no final, no berço abandonado no meio do acampamento.
– Os showrruners declararam mais de uma vez que respostas como quem estava atirando no barco de Sawyer, no meio de um dos clarões, eles escolheram não dar.
– Charlotte morrendo foi super cool.
– Engraçado ver Sayid matando, torturando e depois indo fazer caridade.
– “O que descansa na sombra da estátua?” foi um dos piores slogans-bordão que a série já produziu.
– Hurley querendo plagiar Stars Wars (mas melhorando umas partes) foi uma grande sacada do roteirista.
– Rose e Bernard “eremitando” na selva foi uma piada interna que deve ter deliciado a sala de criação.
– A briga entre Jack e Saywer quis ser vendida como épica, mas só me fez acelerar o episódio.
See you in the final season, brodá…














