Com vocês, uma das melhores comédias nerds de todos os tempos.
Leve, carismática, despretensiosa. Características que aprecio muito quando acompanho algo. Não que o peso do drama, do bom drama, não tenha seu valor, mas por vezes você só quer relaxar na frente da TV, esquecer dos problemas do mundo e embarcar numa viagem divertida, ainda que por um curto tempo do seu dia, ou no caso, da sua semana, e era exatamente isso que Chuck fazia com maestria.
Se analisarmos com frieza, toda a premissa do show está sedimentada em clichês, mas sempre fui abertamente um defensor do clichê, desde que bem utilizado. Não há necessidade de ficarmos reinventando a roda de novo e de novo e de novo. Já vimos aos montes a ideia do nerd que se apaixona pela garota bonita, e isso estava presente em Chuck. Já vimos aos montes o cara mais frágil (fisicamente falando) que se apaixona pela garota durona, e isso estava presente em Chuck. Já vimos aos montes a metalinguagem de algo nerd zoando seu próprio universo (algo que até The Big Bang Theory já fez um dia muito bem), e isso estava presente em Chuck. Já vimos aos montes o velho discurso estadunidense de que armas superpoderosas “não podem cair em mãos erradas” e “vamos salvar o mundo dos terroristas”, sejam eles russos, chineses, coreanos ou sérvios, e isso, claro, estava presente em Chuck. Já vimos aos montes a construção do herói idôneo, correto, tão altruísta que vomita arco-íris, e isso também estava presente em Chuck. Então como pode uma produção que não apresenta nada de novo deixar uma legião de fãs chorando com seu cancelamento, ainda que ele fosse esperado?
Para começar, uma das maiores razões do sucesso de Chuck foi a escalação de seu elenco. Todos os personagens serviam como uma luva perfeitamente ajustada aos seus respectivos intérpretes. Entrosado e talentoso, o elenco da série era 70% responsável pela vontade de continuar acompanhando a história do cara que cai de paraquedas no mundo da espionagem e que desarma bombas com um vírus de site pornô ou mesmo com suco de maçã. Se uma série possui um personagem título, este personagem tem que nos conquistar logo de cara, seja pela sua personalidade, astúcia, complexidade ou qualquer coisa do gênero, e Chuck consegue tal feito muito pelo ótimo Zachary Levi, que soube fazer um personagem que, embora não pareça, é de difícil construção. Seria muito fácil ele perder a mão e seu personagem, ao invés de docemente ingênuo, poderia se tornar apenas um bobão, ou seu lado nerd ser extremamente estereotipado a ponto de se tornar caricato, o que não acontece em nenhum momento durante suas cinco temporadas.
O elenco de apoio também consegue dar conta do recado. Quem nunca rolou da cadeira de tanto rir com as esquisitices da dupla Jeffster? Quando os dois se juntavam era gargalhada na certa, e quando a trama do episódio estava meio capenga, eles nunca deixavam a peteca cair e salvavam o barco. Algumas participações especiais também foram marcantes, principalmente para quem é nerd como o protagonista e pira num easter egg. Lou Ferrigno, Stan Lee, Robert Edlung, Christopher Lloyd e Michael Clark Duncan foram só alguns dos nomes que deixaram sua marca na série.
Altamente improvável, a série era mestre em parodiar outras obras, principalmente o magnum opus do gênero, 007. Quem mais sente falta do codinome Charles Carmichael, e seu intrépido irmão, Michael Carmichael? A dupla Chuck/Morgan era afinadíssima, nos convencendo por cinco anos que sua amizade era leal e verdadeira. Se não existe Sherlock sem Watson, Dom Quixote sem Sancho Pança, Zorro sem Tonto, nosso protagonista nunca conseguiria seus feitos sem o barbudinho.
Não bastasse o elenco ser muito bom, tínhamos também bons roteiros e adoráveis trilhas sonoras, que ajudavam a tornar a experiência ainda mais agradável para o espectador. Com ótimas piadas e sacadas geniais, a série mantinha um ritmo fluído em seus episódios, nos brindando com boas cenas de ação, comédia, romance e por vezes drama (alguém se lembra da morte do Orion?), agradando público de todos os gostos.
Com essas características, a série chegou tranquilamente e sem risco nenhum de cancelamento até sua temporada final, certo? Aí que a coisa ficava esquisita. Apesar de todas essas qualidades, Chuck sempre foi uma série de bolha. Quase toda temporada ficava flertando com o cancelamento. A sorte é que a série tinha uma fã base boa, que embora não desse os números de audiência esperada pelo canal, era fiel. Alguém se lembra da campanha SaveChuck, promovida pelos fãs nas redes Subway, uma das principais patrocinadoras da série? A campanha surtiu resultado, e na época a série foi renovada para sua terceira (e melhor) temporada. A season foi tão boa que ela até fez Brandon Routh parecer um bom ator.
Já a quarta temporada foi o calcanhar de Aquiles de série, e muitos a julgam ser o motivo para ela ter acabado na temporada seguinte. O fato é que ela ficou muito longa, com 24 episódios exibidos. A primeira metade, enquanto Volkoff era o vilão (vivido pelo ótimo Timothy Dalton, que já interpretou o espião mais famoso do mundo em dois filmes), a temporada estava indo bem. Depois tivemos alguns episódios de transição e preparação de terreno, para termos Vivian assumindo o manto da vilania do pai, e foi aí que concordo que a temporada se perdeu. Entretanto, tivemos um ótimo season finale que preparou bem o terreno para a temporada final.
E, claro, não tem como fazer um remember de Chuck sem citar sua temporada final e seu finale. Nela temos o amadurecimento completo de Chuck como espião, além daquele final. Daquele final. Ainda me lembro do tanto de gente que criticou, xingou, brigou, bateu e se jogou do Empire State por causa do series finale. “Como assim uma série que sempre foi leve e descontraída não termina com um final feliz? Como assim? Acho que eu fui um dos poucos que defendeu o final, e gostei muito da opção dos roteiristas de trocarem o final feliz por um final otimista, que é ligeiramente diferente, e muito mais potente artisticamente. É muito melhor você deixar o público imaginando o final feliz do que jogar na cara dele como se dissesse ‘não era isso o que vocês queriam? Então tó, façam bom proveito’”.
A série começou homenageando clássicos do gênero, mas amadureceu o suficiente para terminar homenageando a si mesma. Todos os envolvidos na produção fizeram um ótimo trabalho, principalmente porque eles acreditavam no que estavam fazendo, independente das dificuldades. Por essas e outras, se tem uma série que me deixou saudades profundas foi Chuck. This show was awesome, dude!
















