Sobre uma família, acima de tudo.

 Essa é a religião da nossa família, não? Segredo”

– Ali

Relações familiares são as mais complicadas desse mundo. Laços de sangue e afeto se misturam, e existe aquela certeza de que sua família, não importa o que aconteça, estará lá para te ajudar. Todas as brigas, confusões e mal-entendidos sempre possuem um caráter passageiro. Se cortarmos relações com nossos familiares, quem mais teremos?

No segundo episódio Devina avisou a Maura que sua família a abandonaria. É uma ameaça que está sempre presente em Transparent, uma expectativa preocupante que nos mantém amarrados à série. Entretanto, sabemos que uma separação permanente não irá ocorrer, da mesma forma que o protagonista não irá morrer e o hospital onde os personagens de uma série médica trabalham não irá ser destruído.

Tais ganchos às vezes podem ser perigosos para uma série quando temos plena certeza de que a ameaça não se concretizará. Mas em Transparent as brigas familiares não são plot devices com o único fim de causar expectativas: elas são pontos de construção para os personagens, começos, meios e fins para todas as tramas que se desenvolvem no decorrer da série. E mesmo que os Pfefferman sempre acabem unidos, como ocorreu no fim dessa primordial primeira temporada, as rachaduras ainda estarão presentes, corroendo a estrutura familiar.

Transparent foi lentamente provando que seu assunto maior é realmente esse. A transsexualidade de Maura foi lentamente se consolidando, sendo deixada de lado para dar espaço às irregularidades da família Pfefferman. E depois de termos criado toda a empatia necessária para gostarmos dela e defendermos sua decisão, a série começou nesses episódios finais a dar nuances obscuras à personagens.

Afinal, quando Ali irrompe na sala durante o shiva e a questiona por ter cancelado o bat mitsvah, ela tem certa razão. Maura não é isenta de responsabilidade pelo que aconteceu com seus filhos. Que pai seria? A ausência às vezes é pior que a má presença. Começamos a ver Maura como um real ser humano, não um ícone intocável da transsexualidade.

Quanto a Josh, temos a maior surpresa do episódio. Um filho! Meu primeiro pensamento foi o de que seu comportamento em relação às mulheres se refletiria com o garoto. Eu sinto um certo orgulho do personagem em mostrar que está envolvido com alguém, “amando” alguém. Como quando ele a princípio nega às suas amigas cantoras que esteja envolvido com Raquel mas rapidamente aceita e deixa que elas façam suas brincadeiras. Ou quando vemos ele falando para todos que conhece o quanto ama aquela pessoa, o quão diferente e especial é aquele relacionamento…

Sarah, por sua vez, mergulha novamente na indecisão. Len ganhou meu respeito ao recusar se envolver por baixo dos panos com ela, pontuando certeiramente que não quer ser mais um dos segredos da família Pfefferman. E a principal característica dela é mostrada de forma exata na cena do shiva.

Em teoria o que temos ali é uma celebração à vida de Ed, não? Raquel explica o ritual de cobrir os espelhos, dizendo que ele é um símbolo para o desprendimento que as pessoas devem ter durante esse evento em relação a seus problemas pessoais. Mas isso falha miseravelmente. Enquanto algumas pessoas falam sobre Ed na sala, os membros da família se espalham, resolvendo seus próprios problemas, causando brigas, se separando, quase fazendo sexo na lavanderia… O interesse próprio é a maior lei dessa família, e a maior causa de conflitos também.

Foi um enorme prazer acompanhar essa temporada de Transparent, uma série que poderá se consolidar como aquela que trouxe a Amazon para os holofotes. Tivemos cenas emocionantes, enfurecedoras, singulares e mórbidas. Aprendemos a entender as nuancas de Sarah, Josh e Ali, e é nesse ponto que a série pode falhar para algumas pessoas: é absolutamente indispensável que tenhamos certa empatia pelos personagens, mesmo quando eles são perfeitos idiotas. Esse é o combustível da série, aquele que funciona tão bem com Maura e que às vezes percebo que falha com seus filhos. Mas as nuances estão aí para todos verem: talvez Ali realmente se importe com Ed, talvez Josh realmente queira um relacionamento sério e estável, talvez as intenções de Sarah sejam realmente puras. Temos uma família em colapso, inadequada, instável, desunida e vamos lentamente aprendendo a gostar dela.

Outras observações importantes: 

O assunto da dependência financeira de Ali foi trazido à tona no piloto, esquecido e finalmente regurgitado por Maura em sua discussão durante o shiva de Ed. É uma verdade inconveniente, sim, mas o modo como ela a usa para machucar a filha me deixa extremamente desconfortável. Se o jogo é apontar os erros do outro, a família Pfefferman pode jogá-lo por um bom tempo sem resultado algum.

– Estou sinceramente torcendo pelo Len depois desse episódio. Pelos motivos acima expostos e porque a fixação de Tammy pela aparência da casa está realmente me incomodando.

– Palmas para Kathryn Hahn, que interpretou Raquel com maestria (ela já trabalhou com Solloway antes) nesse episódio. Ficaremos na eterna dúvida se um dia Josh irá conseguir ter um relacionamento estável (e que tipo de pessoa ele será depois disso) ou a fila de pretendentes irá aumentar? Se depender dele…

– Shelly nesse episódio passa diferentes impressões. Ela é uma pessoa prática que tirou esse pragmatismo dos anos que passou com Ed sozinha sem a ajuda dos filhos? Ou ela é apenas uma víbora desalmada que se preocupa mais com a perfeição da festa do que com a despedida de seu companheiro? Tendo à primeira opção, já que ela não tem problemas em demonstrar suas emoções em outros momentos da série. O certo é que a primeira impressão que tivemos da personagem foi impactante negativamente, e lentamente a série nos trouxe para a realidade.

– Outro momento “Maura não é tão legal assim”: o discurso sobre suas experiências transsexuais quando na verdade ela deveria estar falando sobre Ed.

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