Sleepy Hollow e o curioso caso da fórmula repetida.

Se muitas séries tem o caso da semana, Sleepy Hollow é uma série que tem a fórmula da semana, um apanhado de ações e reações que tem sempre o mesmo resultado. A pergunta que perdura é: Será que mesmo com esse estilo repetitivo de abordar seus plots, estamos enjoando da série? A resposta, para mim, é bastante óbvia: Não.

Mais uma vez somos confrontados com um monstro da semana que tem conexão com o passado de Ichabod Crane. Algo que vem acontecendo muito nessa temporada e de forma geral, na série. Só que isso não chega a prejudicar o andamento da história, ou o seu aspecto mais forte, a relação entre personagens. Honestamente, eu muitas vezes não dou a mínima para o monstro, ou demônio que aparece pela cidade e me preocupo mais com as andanças dos protagonistas, os caminhos revelados e as relações interpessoais. E é exatamente este o foco, desviar seria o erro, coisa que ainda não aconteceu.

Colocar uma ex-pretendente do Ichabod para ser a Weeping Lady foi bem fraco. Henry poderia ter simplesmente chamado o espírito para prejudicá-lo sem que esse fosse conectado ao passado de alguém. Tudo estava até caminhando de maneira para lá de aceitável, sendo que a revelação de que Mary/Weeping Lady era a prometida do protagonista, transformou o doce em azedo rapidamente.

Sinceramente, eu estava até animado com o plot, um filler sem vergonha, mas totalmente divertido. O que causou uma bela derrapada foi ver, de novo, a mesma estratégia. Fico me perguntando até quando os redatores irão fazer isso, ou, até quando dará certo. Mas olha, gostei bastante da Caroline e fiquei sentido (de verdade) com sua morte. São poucas séries que conseguem me convencer a gostar de uma personagem criada para um único episódio e sem conexão com o restante da série. O momento em que Ichabod pede perdão por tê-la confundido foi simplesmente a personificação da doçura.

Melhor do que tudo, a possível cisão entre Ichabod e Katrina é a mina de ouro que tanto os redatores, quanto os vilões encontraram com essa ‘Dama Chorona’. Eu já deixei bem claro nas reviews anteriores que não guardo muita simpatia para com a senhora Crane, não é segredo. Porém, confesso que a possibilidade de uma bruxa poderosa como ela sendo tomada pelo lado sombrio e trabalhando contra Ichabod e Abbie, é muito mais interessante do que a ideia de uma mulher que precisará eventualmente ser resgatada das garras de Henry e Abraham. A caixinha de decepções do Icky cresce e com mesma intensidade, a relevância da bruxa avulsa.

Talvez, um dos motivos pelo qual eu não sou lá muito fã da ruiva de Sleepy Hollow é a falta de dimensão que a personagem tem na série. Em alguns pontos ela é basicamente um fantasma, mesmo agora que já fugiu do purgatório. Ao tê-la como uma mulher dada os riscos, manipulações e segredos, eu consigo por um breve momento ver o quão interessante ela pode se tornar para a série. Até mesmo o Cavaleiro sem Cabeça começa a ter um aspecto diferenciado e bem mais retocado de tons acinzentados.

E falando no Abraham, uma das melhores concepções da série foi ter colocado uma cabeça espectral no Caveleiro. Sim, nesse episódio a profundidade que Abraham recebeu foi o suficiente para que eu – pausa dramática – me apiedasse dele. Sim, não existe nada mais abstrato que o amor, esse conceito vai além quando colocamos um homem que vendeu a alma em nome do sentimento. Já estou muito acostumado com Abbie e Ichabod para aceitar que em algum momento do futuro Katrina entre no meio dos dois, para atrapalhar a dinâmica que já funciona como a força motriz da série. Logo, prefiro que ela e Abraham continuem dando mais sofisticação aos relacionamentos do lado sombrio.

Mas nem só de Cavaleiro e Katrina remanesceu ‘The Weeping Lady’. Henry é o personagem mais simples e complexo da série. Todos nós sabemos suas motivações, trazer o apocalipse e servir Moloch. O que nós não conseguimos entender é a carga sentimental que ele tem dentro de si. Vê-lo chorando, em uma situação próxima a de uma criança rejeitada é doloroso, para dizer pouco. Lembro de já ter comentado antes que Henry é o único personagem que eu torço para que seja derrotado e ao mesmo tempo me sensibilizo ao ver seu sofrimento. É estranho, sim, concordo. Essa relação antes era devido ao ator, John Noble ter me conquistado por tantos anos como o velhinho vulnerável Walter Bishop em Fringe. Depois desse episódio, eu consigo trazer esse sentimento e fazer a transposição do ator para o personagem.

Observem comigo, se a série faz bem ao trabalhar seus personagens em destaque, quando ela tenta incluir Jenny no episódio o que temos é uma falha miserável. Não existia a mínima necessidade da irmã problemática aparecer na série, uma mera menção a sua ausência teria sido mais do que suficiente. Nada lá foi aproveitável e o nível de conveniência para encher o episódio de informações desnecessárias rivaliza com a carta da Katrina, que serviu apenas para que a Weeping Lady chegasse até o casebre do Cavaleiro. Como se um espírito trazido com poderes das trevas precisasse de endereço, ou GPS para localizar o alvo de seu ódio. Vamos lá, SH, pense mais fora da caixa, por favor.

Completamente galgado em trabalhar as relações entre os personagens, o quinto  episódio de Sleepy Hollow pecou seriamente ao trazer mais do mesmo com sua fórmula semanal, mas ganhou vários pontos ao expandir a forma com que vemos Ichabod, Katrina, Hawley e Henry. É sim ótimo quando a série dedica tempo precioso para trabalhar a forma com que seus protagonistas vivem e esse mérito não poderá nunca ser retirado de Sleepy Hollow, que nos conquistou exatamente neste ponto. Química, boas atuações, relacionamentos conturbados e cheios de humor, essa sim é a fórmula base da série mais estranha e deliciosa da TV americana.

PS. Emoticons, segundo Ichabod uma caricatura de um limão. Meu mundo caiu.

PS². Chateado com a morte da Caroline, isso não se faz. Quem agora vai manter as roupas velhas do Ichabod inteiras? Quem vai costurar roupas novas de época para nosso herói?

PS3. Iniciando a campanha #KatrinaMá, chega de bruxa sofredora, quero a feiticeira lacrando as inimigas.

PS4. Jenny e Hawley tem um passado, Abbie já ganhou um boca a boca e Ichabod detesta o cara. Quem ganha com isso? Nós é claro. Coloquem esse povo junto, trancado em uma casa e sem possibilidade de sair.

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