Há várias maneiras de se contar uma história. Você atrairá mais ouvintes para te ouvir de acordo com sua narrativa. É como contar uma piada. Uma anedota na boca de quem sabe conta-la é uma coisa, na voz de quem não tem timing, uma perda de tempo.

Trazendo isso para séries nem tudo que funciona nos livros pode dar certo na TV. Sim, eu me empolguei com os episódios do início da temporada de The Strain. Não fui o único. O FX achou que o potencial da produção mereceria uma segunda (chance) temporada pouco tempo após suas primeiras exibições.

Depois de “The Master” meu interesse pela história contada no livro “Trilogia da Escuridão” aumentou. Chuck Hogan e Guillermo Del Toro criaram um universo particular para falar de uma guerra em uma espécie muito particular. O chefe do Esquadrão Strigoi deixou claro para seu novo pupilo que uma guerra foi travada no mundo dos sanguessugas, que acabou espirrando (literalmente) entre os mortais. Por conta do fim de uma trégua, várias gerações – e especificamente esta – têm sofrido com o Mestre e seus soldados.

Falando (escrevendo) assim, imagino o quanto os livros devem ser bacanas e merecem uma conferida. Dito isto, o que foi a primeira temporada de The Strain?

Irregular. Pecando nos detalhes e na direção, especificamente na forma de retratar uma série de suspense e de terror na telinha. Se muitas vezes a estética trash funciona no cinema quando a proposta está bem clara, na TV demorou em pescar que apesar do roteiro se levar a sério, estava diante de escolhas duvidosas por parte da adaptação para televisão.

A dinâmica do livro exige detalhes. Na televisão não?

Por exemplo: desafio a algum leitor do SM que não tenha lido a trilogia que me diga o que é a Stoneheart Group e me expliquem porque ela tem muito mais poder do que a Secretaria de Saúde dos Estados Unidos. Não estou falando que eu menosprezo a força da health commerce como negócio e como influente nas decisões governamentais, mas a maneira superficial como vem sendo retratado, mostrando apenas a sala do presidente, como se fosse o apartamento de Tony Stark, mostra como é preciso muito mais do que uma premissa decente. Onde está o pessoal da produção?

Disse nos outros reviews que assistimos uma cidade sendo vitimada sem vermos sequer a população em pânico. Até os canais de TV deram uma sumida. Dutch vem com a ideia de que um pronunciamento via rede nacional poderia alertar a população sobre o grande perigo que todos correm. E qual foi a repercussão? Nenhuma! Como se o plot não tivesse serventia.

Goodweather corre pra lá e pra cá, planeja, descobre, maneja, busca soluções e não aparece ninguém para emboscá-lo. Ele não é um fugitivo? Se a gente abandonar a perspectiva sob o personagem, a gente esquece os desdobramentos que eles mesmos criaram sem que esta necessidade se mostre presente durante o desenvolvimento da história.

Não é preciosismo. Vamos buscar séries que fizeram história e vejamos a riqueza dos detalhes. Assistamos as produções cinematográficas de grandes diretores do cinema contemporâneo (como o próprio Del Toro) e chegaremos à conclusão que o trabalho do time é necessário para dar credibilidade ao enredo. Mesmo gostando da premissa, não posso discordar de quem acha The Strain com muitas falhas e o motivo é simples: parece que estamos assistindo uma peça teatral de quinta categoria.

Season finale: faltou capricho e emoção

Qual é a ideia que temos do final de uma temporada: emoção no talo, mais pontos de interrogação e cenas de tirar a respiração. Até os sitcoms trabalham com o conceito de continuidade. E em “The Master”, exceção seja feita ao recrutamento de Gus, nada deixa um cliffhanger para segunda temporada. Classificar a aparição da ex-sra. Goodweather como surpreendente é patético. A personagem pode ter uma importância ano que vem, até agora não dá saudade e nem nos inquieta. Uma pena.

Faltou capricho e não sei se é impressão minha, mas o elenco está muito desanimado. Nossa Dra. Martinez rendeu uma homenagem à mãe cantando na língua pátria e fumando o cigarro da hermana. E daí?

Eph quis durante os últimos episódios proteger o filho de um encontro decepcionante com sua progenitora. Ok. Justificável. Então o que se espera do reencontro familiar? Um pouco mais de tristeza, takes alternativos mostrando alguma comoção no olhar e não colírio de farmácia. Teve isso: um garoto histérico e uma direção de cena que beirou ao pífio. Absolutamente decepcionante. Põe a gente pra chorar, rapaziada! Nada, no meio da escuridão ela apareceu – como se tivesse marcado lugar – e no meio da escuridão sumiu.

… E se nosso bom velhinho Setrakian errou sobre as propriedades do Mestre, o que será de nós? Sim, o episódio final da série era uma mensagem subliminar de si mesma: total desesperança. Não tive sentimento algum sobre o que os autores têm a nos dizer.

Desculpem ser repetitivo, mas eles tinham um ótimo material na mão e não me canso de dizer que a história é boa, mas eles foram infelizes em trazer para telinha a história do CdC e sua relação com uma descoberta além das fronteiras científicas. Pecaram na escalação do elenco e na adaptação. A série está muito escura e não desperta interesse para os que permaneceram, os que chegaram ou os que voltaram e que talvez, estejam indo embora de novo.

Eldritch agora é um mordaz assassino e acho que as relações que já azedaram com seu assistente Fitzwilliam, também deve ter Eichorst como uma das suas vítimas se o alemão se colocar no caminho do ex-quase-morto. E só.

Não. Não abandonarei a série porque gosto de me dar oportunidade de rever conceitos (assim como mudei de opinião sobre ela) e perceber se as tendências aqui apresentadas sofrerão grandes alterações no futuro. As perspectivas, infelizmente, não são boas.

Um final de temporada nota 6.

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