“Mais de seis milhões de pessoas são perseguidas por ano nos EUA… Uma entre seis mulheres e um entre dezenove homens… Qualquer um pode ser um perseguidor… Qualquer um pode ser uma vítima…”.

Foi com um discurso um pouco maior que este que, já nos primeiro minutos do piloto, somos apresentados à sinopse de Stalker por sua protagonista, Beth Davies (Maggie Q), líder da Unidade de Avaliação de Ameaças da polícia de Los Angeles. O discurso foi absolutamente didático, mas muito bem encaixado na proposta do piloto que, dispensando maiores apresentações e rodeios, apresentou-nos dois casos e os nossos dois protagonistas numa sucessão de eventos que Kevin Williamson já se mostrou muito competente em fazer.

Aliás, não há como fazer nenhuma análise de Stalker sem começar por seu criador, Kevin Williamson, um cineasta responsável por alguns blockbusters de suspense nos anos 90 e que na TV, vem cada vez mais firmando seu nome dentre os mais respeitados showrunners, sobretudo depois de dois sucessos como The Vampire Diaries (CW) e The Following (FOX). Chegar à CBS, fazendo o que sabe fazer de melhor, em uma série procedural, que tem tudo para conquistar o público do canal é provavelmente o auge da carreira televisiva de Williamson.

E olha que nada em Stalker faz parecer que a série não pode fazer sucesso (o que pode acontecer sim, mas é improvável), já que se encaixa muito bem ao público da CBS, tem um elenco muito bom, traz no roteiro de Williamson um diferencial interessante com relação aos outros procedurais do mesmo canal e, a partir da experiência de seu showrunner de aterrorizar adolescentes nos anos 90, vai poder inteligentemente com o suspense, como já fez em algumas situações neste piloto.

Somado a todos esses elementos, temos o tema central da série que consegue ser ao mesmo tempo atual e atemporal, já que com o avanço das redes sociais as pessoas se expõem bem mais, aumentando o número de stalkers (algo destacado no próprio episódio), mas ao mesmo tempo, trata da pura natureza humana, de forma a que é possível prever a série durar dez anos sem ficar ultrapassada. Além do mais, convenhamos, as inúmeras séries de psicopatas estão aí para nos mostrar que a mente psicótica fascina e desafia o público…

E se da análise crua dos elementos que compõem Stalker, podemos prever a possibilidade de sucesso para a série, o episódio piloto é um termômetro ainda melhor, pois foi um episódio redondinho, com um ritmo excelente, e absolutamente eficaz em sua proposta de nos apresentar a trama e seus personagens, além de nos dar sinais dos tipos de perseguidores que veremos na série em um futuro próximo.

Começando em uma sequência absolutamente perfeita, onde ficou evidente a auto inspiração de Williamson em um de seus clássicos (Pânico – Scream, 1996), ao nos apresentar a primeira vítima da série, Kate, que foi atacada e queimada viva por seu perseguidor, já tínhamos um excelente cartão de visitas de Stalker, já que em apenas dois minutos apresentou uma cena simples e ao mesmo tempo chocante, muito bem dirigida e sabendo fazer o controla da tensão de forma a prender o público pelo resto do piloto.

E foi bom perceber que a série também conseguiu ser competente por toda a sua Series Premiere, seja apresentando-nos seus dois protagonistas, seja no equilíbrio do suspense e da investigação propriamente dita, ou seja com o equilíbrio de duas tramas paralelas (a investigação “principal” do assassino mascarado, e o caso dos rapazes da faculdade), o que se viu foi uma série que sabia muito bem o seu dever de causar boa impressão no piloto para prender o público, e o fez com perfeição, já que até eu que não sou um grande fã de procedurais, me vi preso por todo o episódio e mal senti o tempo passar.

Aliás você percebe que um roteiro é competente quando ao final do episódio piloto você percebe que além de conhecer os dois protagonistas, e gostar deles (no meu caso, bem mais da Beth que do Jack), você ainda sabe coisas sobre o seu passado, como o fato de Jack ser (ironicamente) um perseguidor da mãe de seu filho e da Beth já ter sido vítima de um stalker antes, sendo que ainda demonstra sinais de trauma por isso (como suas tradições todas as noites antes de deitar-se), e além disso tudo também sente-se satisfeito com a resolução do “caso da semana”.

E o mais importante, para as pessoas que acompanham a carreira de Kevin Williamson, é que Stalker não prometeu ser nada além do que vinha apresentando em suas promos, ou seja, um bom procedural vindo de um cara que além de ser um dos melhores roteiristas da TV na atualidade, sabe trabalhar muito bem com o suspense e a ação.

Digo isso porque, se realmente podemos afirmar que Williamson vem de duas produções que se tornaram sucesso, também podemos dizer que tanto The Vampire Diaries, quanto The Following despencaram em qualidade após a saída de Kevin que, infelizmente, tem a tendência de abandonar seus projetos rapidamente (TVD em três anos e TF em dois). Em Stalker, além de a série ter a proposta de ser procedural, o que é um alento para quem acompanhou The Following e viu o que aconteceu com a trama depois de um tempo, sabemos que a série também não é tão dependente de seu showrunner, e que uma eventual saída de Williamson não afetaria tanto a série.

Mas como vivemos em uma nova era na televisão, onde nenhum procedural é apenas um procedural, Stalker também apresentou dicas de tramas que podem se arrastar por arcos médios ou até por uma temporada inteira, como é o caso das tramas pessoais dos protagonistas, e mais ainda, do garoto Perry, que deve se tornar o novo stalker de Beth depois de ameaçado por ela, uma vez que a própria já tinha diagnosticado que a rejeição fazia o rapaz ter atração especial pela pessoa (primeiro o colega de quarto e agora, ao que parece, Beth), e a cena final do episódio nos mostrou isso.

Quanto aos aspectos técnicos, estes apenas confirmam que Stalker, de fato, fez uma boa estreia, com um roteiro ágil, uma direção praticamente irretocável, bons efeitos especiais, e atuações de alto nível, sobretudo de Maggie Q, que encarna mais um bom papel depois de Nikita, que teve ao seu lado um bom McDermott (tenho questões pessoais com o ator, mas realmente não acho que tenha comprometido esse piloto), não há como não dizer que a estreia de Stalker não tenha sido, pelo menos, acima da média. E falo isso em relação a uma série que estreia em uma fall season que, por si só, já está acima da média.

Stalker marca a primeira dobradinha da CBS com Kevin Williamson (The Vampire Diaries, The Following), que também assina a produção executiva da série. A série conta com Maggie Q (Nikita) e Dilan McDermott (Hostages) nos papéis principais e o episódio piloto teve a direção de Liz Friedlander (The Vampire Diaries, The Following, Sleepy Hollow).

E a contar pelo trabalho desempenhado neste episódio piloto, pelo público tradicional da CBS e pelos nomes envolvidos no projeto, Stalker tem tudo para se tornar um dos novos hits da CBS nesta temporada. E ainda que a audiência da estreia não tenha sido muito boa, eu não vejo como a série possa se tornar um fracasso, pois tem a cara do canal que a exibe.

P.S.: A aparição do cara mascarado foi muito bem feita nos dois momentos, sendo o auge de tensão do piloto… Quando Wild aparece sem máscara, nos minutos finais, sequestrando Lori em casa, o efeito já se perdeu um pouquinho, embora a tensão dele saindo debaixo do tapete tenha sido muito bem executada.

P.S. 2: Sarah, a primeira vítima, é uma velha conhecida do público de The Vampire Diaries… A atriz Torrey DeVitto interpretou a Dra. Meredith Fell em TVD, e é casada com um dos protagonistas da série de vampiros da CW, Paul Wesley (Stefan). O engraçado? Torrey e Kevin Williamson não trabalharam juntos em TVD, já que quando a sua personagem entrou na série o produtor já tinha se afastado para cuidar de The Following. A questão é que os responsáveis pelo casting das séries de Williamson são quase sempre os mesmos, assim como os diretores.

P.S. 3: Alguém acreditou na história da amante do marido da Beth? Até pelo incomodo dela com a pergunta sobre as roupas, continuo achando que o perseguidor da detetive era um homem…

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