Democracy is so overrated”

A frase acima, que abre mais essa coluna do “Personagens Maníacos”, foi dita por  ninguém menos do que o 46º presidente dos Estados Unidos da América, Francis J. Underwood, ou Frank, para os íntimos.

E como não ficar íntimo de Frank após vermos tantas nuances de sua alma e de, literalmente, lermos seus pensamentos toda vez que ele quebra a quarta parede e fala diretamente ao público as coisas mais sombrias por detrás de uma genial e perversa mente, que não para em nenhum minuto?

House of Cards, com seus vinte e seis episódios já se estabeleceu como uma das melhores séries da atualidade, e tem em suas duas temporadas uma das maiores evoluções, em termo de enredo, desde Breaking Bad… Mas mais do que isso, House of Cards já estabeleceu Frank Underwood como um dos maiores protagonistas da história da televisão.

E não é por menos… Ganhando vida por um incontestável Kevin Spacey –  que faz com o texto de Beau Willimon exatamente o que se esperava de um ator de seu gabarito – Frank Underwood consegue se tornar maior do que a própria série que faz parte – o que, acreditem, não é qualquer coisa dada a complexidade da trama política por trás de House of Cards – e tornar os momentos mais memoráveis de Frank algo completamente dele… É muito mais do que dizer que Frank é a alma da série… Ele é muito maior do que ela… Consegue ser, ao mesmo tempo, o coração pulsante que mantém House of Cards viva e o câncer que degenera seus órgãos. É vital para a série, mas ao mesmo tempo tóxico, por ser visivelmente muito superior a tudo aquilo.

Aliás, a opção de quebrar a quarta parede é genial porque, ao mesmo tempo em que torna Frank mais vívido e cruel, o torna mais real… Mais humano… Nós conseguimos ver que por trás daquela pose intransponível existe um homem (ainda mais frio e calculista do que se permite mostrar aos outros). Além, é claro de nos trazer um Kevin Spacey inspiradíssimo, em seu auge, completamente irretocável, e que já mereceria pelo menos um Emmy, não fosse a injusta disputa com Bryan Cranston no auge de seu Walther White.

Somos apresentados à Frank no início do piloto da série, quando descobrimos como o então democrata, líder da maioria na Câmara, executou a campanha do recém-eleito Presidente Garret Walker em troca de uma nomeação a Secretário de Estado que jamais viria…

Com a quebra da promessa do então homem mais poderoso do mundo, Frank quebra pela primeira vez a quarta parede e, falando diretamente ao público, nos convida a acompanharmos sua trajetória de vingança, na qual pretende não apenas mostrar que mexeram com a pessoa errada, mas também de que a ilusão que Walker tem de poder é frágil, e que o verdadeiro poder, na verdade, vem daqueles que sabem manusear as pessoas como pequenas peças de um grande tabuleiro de Xadrez… O verdadeiro poder cabe a pessoas como Frank, que faz isso com maestria.

A genialidade que cerca Frank Underwood é tão impressionante, que minha vontade é ficar aqui por inúmeras páginas falando como ele me surpreendeu em diversas situações, mas a vontade de manter essa pequena ode a este personagem mais enxuta, me faz relevar situações específicas e partir para o plano geral.

Em duas temporadas, Frank nos mostrou que, basicamente, ninguém é páreo para ele. A única pessoa levemente parecida com o jeito peculiar de Frank pensar e ver as pessoas ao seu redor é sua esposa, Claire (que por sinal também merece um Personagens Maníacos só para ela), que ao mesmo tempo surge como sua principal aliada e parte de seu alicerce, de sua busca pelo poder… E se a única pessoa capaz de compreender e pensar (ainda que ligeiramente) igual a Frank se torna sua maior aliada, a verdade é que não há inimigos à altura do Sr. Underwood.

E não há mesmo… Em duas temporadas vimos a ascensão de Frank ao posto de Vice-Presidente e, posteriormente, ao de Presidente dos Estados Unidos, de maneira milimetricamente planejada, com ele derrubando, um a um, aqueles que se colocavam em seu caminho…. E assim vimos cair Peter Russo, Linda Vasquez, Jim Matthews, Zoe Barnes, Lucas Goodwin, Raymond Tusk e, por fim, o próprio Garret Walker, no Season Finale da 2ª Temporada, para deixar a cadeira livre para que Frank, então Presidente, pudesse se sentar.

Francis J. Underwood é muito inteligente, ambicioso, manipulador e pouco impressionável, não tem limites éticos nem morais, não tem laços emocionais com ninguém, apenas aliados… Não tem medo de arriscar, mesmo porque a maioria das vezes já tem seu plano meticulosamente pensado antes de agir. Sabe de seu poder e usa isso a seu favor. Sabe de sua capacidade de dominar pessoas, e as usa como meios, para tingir os seus fins… E o pior é que além disso tudo, e de nos mostrar todas essas facetas toda vez que conversa diretamente com o público, é incrivelmente charmoso e honesto, de forma a despertar no público uma torcida.

Frank Underwood é um dos protagonistas mais dúbios da história da televisão, que age como um vilão, mas se posta como um mocinho… E é curioso notar que, ainda que seja um contemporâneo de Walter White, ao contrário deste não esconde seus desejos mais obscuros, o que o torna ainda mais perigoso que o nosso querido Heisenberg.

E apesar de tudo, tem a minha torcida incondicional… Jamais vibrei tanto quanto quando o vi batendo o anel na mesa do Salão Oval ao final da Segunda Temporada…

Senti que depois de tanto tempo dentro de sua mente, aquela sua vitória era também uma vitória minha! E mal consigo esperar para ver os próximos passos do homem mais poderoso do mundo livre, o quadragésimo sexto presidente dos Estados Unidos da América, Francis J. Underwood.

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