Mais vergonhoso que levar cuspe na testa.

Não me entenda errado, caro leitor. A vergonha na qual me refiro na chamada desse texto está diretamente ligada a Bassam e ao fracasso de seu golpe. O episódio que encerra a turbulenta primeira temporada de Tyrant está muito longe desse adjetivo. Como a maioria deve saber, eu não sou grande fã da série. Mas talvez o fato de assistir os episódios sem grandes esperanças e com certo ceticismo me fez comprar algumas tramas da série, desde o sexto episódio até esse sobre o qual escrevo agora. Tyrant evoluiu, não se tornou uma série imperdível, mas a simples correção de seus grandes erros traz méritos. E um pouco de esperança.

A mudança no status quo da família de Bassam mostra que a série caminhou. Se logo no início os Al Fayeed americanos se sentem no topo da cadeia alimentar (e de fato estavam), agora, devem tomar cuidado para não serem devorados por qualquer um dos que ocupam um posto acima. A introdução da irmã de Molly deve ter acontecido apenas para “ajudar” a filha Emma a se atrasar para o voo. A questão é que perder um ou dois minutos por episódio assistindo a personagem falar sobre compras acabou valendo a pena. A decisão de Tyrant de trancar os Al Fayeed americanos na embaixada do país em Abbudin traz uma nova dinâmica à série. Esse pessoal vai enlouquecer se passarem mais de uma semana “presos”. Julian Assange manda abraços e diz que sabe exatamente como se sentem.

Bassam preso. Aí está algo que infelizmente não terá o impacto suficiente para preocupar o espectador. Como já falei em uma review anterior, a experiência de assistir Tyrant é semelhante a de assistir a um filme de super-herói, onde temos a certeza de que o protagonista jamais morrerá. A grande questão é saber como ele irá se salvar. Se a série conseguir ser criativa o suficiente nesse ponto, então tudo bem. O fato é que Tyrant não pode tratar o espectador como uma criança e realmente esperar que temamos a morte de Bassam. A dinâmica Bassam-Jamal estaria arruinada, e a série não teria um rumo a tomar. Bassam vive.

Além das bruscas viradas de jogo que a série deu (e que a tornou mais interessante), existe outro ponto em que triunfou: Tyrant esqueceu suas tramas insignificantes e centrou-se no que deu certo. O candidato Everaldo quer um governo mais “enxuto” no Brasil, Tyrant fez exatamente o mesmo: deixou só o importante. Há quantos episódios não vimos a abordagem superficial (que chega a beirar o ofensivo) do estupro de Nusrat ou da homossexualidade de Sammy? Se não consegue tratar com seriedade de assuntos que são tabus para tantos, então nem trate. As duas situações são difíceis de se lidar pois estamos falando de um país conservador do oriente médio. Tyrant resolveu não falar sobre o que não sabe, e isso foi um acerto.

Ao tratar do golpe que foi construído nos últimos cinco episódios da temporada, a série conseguiu ser simples e teve capacidade de explicar sua execução até para o mais “analfabeto político”. A grande surpresa foi ele dar errado, e lidar com adversidades torna qualquer coisa mais interessante. Ao não concluir o plano tão perfeccionista de Bassam, a série praticamente brinca com o médico e relembra que deveria se contentar em curar gripe de criancinhas ricas como sua grande contribuição para a humanidade. Bassam não desistirá tão fácil. O personagem já parece doente pelo poder, mas sua nova tentativa de ascensão parece longe e difícil de ser atingida.

No fim, Tyrant se resumiu em um relacionamento complicado entre irmãos. A política e a sociedade de Abbudin são simples plano de fundo. A série pintou Jamal de good guy nos últimos episódios: saudosista, esperançoso, amigável. O personagem está longe de ser o que parece, e ver uma jogada atrás da outra sendo feita (por parte de Tariq, Bassam, Jamal, Tucker, etc) torna o espectador deveras paranoico sobre quem representa o “bem e o mal”. Jamal, coitado. Um tirano com seu povo, mas um completo apaixonado pela família. Ao dizer que se Bassam tivesse pedido a presidência, teria lhe dado, faz o espectador esquecer todas as execuções e estupros do presidente por alguns segundos. Jamal vive essa vida porque como o mesmo disse, não teve escolha. Quem dera ser filho de pescador, de marceneiro, ah, quem dera! Será mesmo que um homem que vive o luxo em seu mais potente nível se adaptaria a uma vida simples? Não é dessa vez que veremos isso acontecer. A viagem para as Maldivas está adiada. Dê meia volta ao palácio!

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