Não apenas acordar do sono da ignorância, mas também do sono da indiferença.

Depois de apenas dois dias da morte da mãe, a filha de uma importante figura pública aqui da cidade de Rio das Ostras trouxe até o Teatro onde trabalho, uma caixa com todas as roupas e acessórios da falecida mãe para serem doados. As caixas vieram pesadas, foram entregues pelo motorista da família e enquanto as vasculhava, a recepcionista aqui do prédio demonstrava sua indignação perante a rapidez com que começaram a se desfazer dos pertences da pobre mulher. “Nem esperaram o corpo esfriar”, disse ela. E então a minha chefe completou imediatamente: “Não esperaram para parar de sofrer”.

No meio daquelas caixas, por trás daquela atitude aparentemente fria, estava a busca desenfreada pelo alívio daquilo que mais atordoa aqueles que perdem: a lembrança. Como já bem disse, a memória pode ser um eficiente corrosivo para o espírito, porque ela impede que os pensamentos busquem a imprevisibilidade do futuro, apegando-se aos vazios deixados pelo que ficou no passado. A consciência disso pode gerar comportamentos defensivos como o de livrar-se de tudo que invoque lembranças de quem partiu daqui ou que simplesmente partiu seu coração.

The Leftovers é uma série sobre lembrar… e o pior, num contexto onde a lembrança é do que se foi sem nem mesmo sabermos como foi. Aquele torpor promovido pela incessante luta contra a memória, está tatuado o tempo todo no DNA da série. Em Cairo, estivemos diante de uma imensa constatação: Ainda que os males sofridos por Kevin e Jill sejam provenientes do exercício de não querer lembrar; são eles, os Remanescentes Culpados, os pilares da grande fuga da própria mente. Se você não pode fugir da lembrança, torne-se uma versão viva daquilo que não deve ser esquecido. Tire dos outros o direito de tentar e torne o mundo um organismo vivo de adoração da perda e da dor. 

Esse ótimo episódio começou com um emblemático movimento: Patti arrumando uma série de mudas de roupas no chão da sede do grupo; roupas que representam os que foram levados; enquanto Kevin arrumava solenemente a mesa de jantar, em casa. Os dois cumprindo um ritual de reverência ao que não estava ali. As roupas de Patti que não vestiriam ninguém… Os talheres de Kevin que não serviriam a nenhum propósito. O roteiro estabelecendo uma ligação entre eles: dois tipos de reverência ao mesmo acontecimento.

Kevin e Patti não conseguem viver depois da Partida Repentina. Mas, enquanto ele foge da memória, ela a abraça. De certa forma, o 14 de outubro direciona os dois, afeta e aniquila os dois, e eles lutam para não se compreenderem, mutuamente. Para embalá-los, aquele que é uma espécie de hino espiritual, trazido das lutas raciais, e que apenas invoca um desejo: que eles não derrubem minha religião; sendo a “religião” uma forma de identidade pessoal, de fé naquilo que se acredita, ainda que se acredite na ausência de fé.

No vídeo acima está uma apresentação do ballet Revelations, da companhia de dança Alvin Ailey, que desde 1960, emociona o mundo com essa demonstração da cultura negra e seu processo de firmamento na sociedade americana. E a razão de estar falando disso, colando esse vídeo, é tentar estabelecer que nessa semana, The Leftovers continuou seu trabalho de distorção dos conceitos de crença, religião e morte. Dentro da mitologia da série, esses símbolos vivem sendo manipulados para propósitos nocivos. Ainda que entre os RC não se fale em divindade, a simbologia da fé num ideal faz parte do que os constitui, do que os torna tão agressivos e invasores.

E começamos com uma canção… Ficou claro pra mim que as fotos roubadas e as cópias entregues no final do episódio, estão unidas por um plano maior. Através das fotos as cópias foram feitas e serão vestidas com aquelas roupas, para de alguma forma assombrarem os moradores de Mapleton. Esse é o empurrãozinho do qual fala Patti. E esse empurrãozinho vai produzir outras Gladys, sem que os próprios Remanescentes precisem sacrificá-las.

A grande sacada do episódio foi a captura de Patti, no meio de um dos surtos de Kevin; sendo esse “efeito do sono”, o mais categórico de todos. Notem como palavras como sono, fé, perda e morte vão ganhando aplicações diferentes o tempo todo. O pai de Kevin acha que o filho está numa espécie de “sono”, mas não é o mesmo tipo de sono do qual Patti o acusa. Além disso, Kevin realmente dorme e realmente é levado por esse estado de sonolência, quando alguma parte dele realmente “acorda” e age de acordo com os próprios códigos.

E temos Jill e Aimee do outro lado… Aqui a metáfora do sono também se aplica. As coisas dentro de Jill doem tanto, latejam tanto, que para ela é impossível que possa haver esquecimento. De certa forma, saber dos distúrbios de Nora – e de todos que perderam alguém – ofereciam à adolescente um certo conforto. Quando Nora aparece sorridente e segura, os incômodos começam a nascer dentro de Jill. Os mesmos incômodos que ela sente com relação a Aimee. Na forma de Jill de ver as coisas, não pode existir paz e se há em algum lugar, ela tem que ser parte de uma espécie de sono forçado, um sonambulismo provocado, que a enoja e a faz invadir uma casa atrás de uma prova desse fingimento.

E ela encontra… Nora escondeu suas memórias numa caixa e isso valida a perspectiva de Jill. Então, se não se pode rejeitar a lembrança, torne-se uma memória viva. Analisando as coisas assim fica muito inteligível o propósito dos Remanescentes Culpados, fica muito perceptível o tipo de apelo que eles têm naquela sociedade.

Kevin será devastado quando souber que perdeu Jill para o mesmo grupo que levou sua mulher. No momento, o caos de consciência do personagem é um dos traços mais perigosos da mitologia da série. Em alguns momentos, Kevin chega a me lembrar os espasmos sensoriais que víamos no segundo longa da Bruxa de Blair, por exemplo. Gente que é privada da percepção do mundo e se dá conta disso horas depois, quando as pistas daquele comportamento hedonista começam a aparecer pelo caminho. E o que Kevin vê no meio daquela floresta é quase ritualístico… Fogueira, sapatos, camisas de uniforme pregadas em árvores… Sinto como se o “outro” ao qual se refere o fantasmagórico Dean fosse o centro do que pretende o arremedo final da temporada. Nunca estive tão curioso sobre o segundo ano de uma série como estou sobre essa. 

E então, enquanto Laurie assume as rédeas dos Remanescentes, Patti está amarrada naquela cabana, sendo sufocada numa sequência bem incômoda, mas salva pelo constante senso de preservação de Kevin. Fico na dúvida do que é verdade e do que é projeção na ação que levou à captura de Patti. Até agora, todas as ações martíricas dos Remanescentes partiram deles mesmos, sendo esse inesperado “sequestro”, um movimento providencial demais. Algo me diz que desde o início, Patti já sabia o que ia lhe acontecer; o que torna toda a evolução até o final ainda mais assustadora. Por alguns minutos ela parecia realmente acreditar que Kevin lhe proporcionaria aquele destino vitimizado, usando contra ele uma argumentação que efetivamente, friamente, não seria capaz de atingi-lo. 

Aqui preciso elogiar a direção de Michelle Maclaren. Ela já dirigiu bons episódios de Breaking Bad e Game Of Thrones e sabe como tirar latência de aparentes apatias. Quando fica estabelecido que Kevin não vai fazer “o que é necessário” (segundo as próprias impressões de Patti), ela começa a apelar para a sinceridade absoluta, num jogo de argumentações que pra mim já está entre as melhores coisas que já vi esse ano. Do lado de Kevin há a recusa em aceitar que o 14 de outubro precisa ser o centro motor da vida de todo mundo; e do lado de Patti, a certeza de que não há outra opção de existência que não seja aquela que é devastadoramente ligada à Partida Repentina. Porém, a resistência de Kevin vai obrigando-a a revelar o que realmente está por trás de sua estranha organização: a busca por um propósito. 

Quando Gladys é mencionada pelo nome, Patti alcança o clímax do que acredita. Se a memória é o núcleo de toda a crise acerca da Partida Repentina, ela também é a ferramenta necessária para o plano maior: ser lembrado. E a voz de Damon Lindelof sai da boca da personagem, nos dizendo: Não é uma questão de resposta, mas de propósito. E se não pode haver propósito após o 14 de outubro, que o 14 de outubro SEJA o propósito. Então, eles vestem o branco que representa a tela branca que precisam ser; aniquilam laços, apegos, tudo em busca de uma existência de suspensão; esperando pelo momento em que algo irá acontecer… E Patti não é muito clara sobre o que é isso. 

Pode ser que a ex-líder do grupo esteja se referindo à martirização apenas. Mas, pode ser que ela esteja falando de algo que – secretamente – compartilhe com a própria fé. Patti declama um poema de W.B.Yeats e ao pesquisar sobre ele, descobri um outro poema, chamado A Segunda Vinda, que tem versos bastante emblemáticos: 

A escuridão cai novamente; mas agora eu sei

Que vinte séculos de um pedregoso sono

Eram atormentados de pesadelo por um berço balançando

E a besta áspera… a sua hora virá, finalmente

Cambaleando rumo a Belém para nascer”

Sono, besta, nascimento, pesadelo… The Leftovers em essência. O poeta era bastante ligado à espiritualidade e mesmo que os roteiros resistam, esse é um ponto importante do desenvolvimento da série. Não resisto a tentação de acreditar que talvez Patti tenha mais conhecimentos do que divide; e que Dean, por exemplo, não disse seu “Cala a boca, eu tentei” para ela e sim para algum amiguinho invisível, parecido com aqueles que dizem coisas ao velho Garvey. Ou, no máximo, que ele tenha mesmo dito isso para Patty depois de os dois terem engendrado aquele momento.

Enfim, a resistência de Kevin obriga Patti a tomar conta da situação. Ela mantém seu discurso e o leva até as últimas consequências, quando prova seu ponto de vista cometendo suicídio, de uma forma brutal, na frente dele. Enquanto o faz, Patti está sussurrando que o entendimento faz parte de Kevin, que ele sabe, que ele entende o que é não pensar em mais nada; e que, portanto, ele também é capaz de entender o que ela fez; o que torna Kevin alguém que tem seus pensamentos e sentimentos determinados pelos outros, essencialmente.

Comovido, assisti Patti declamar aquele lindo poema, cortar a própria garganta e morrer nos braços de um homem tomado de dúvidas e dores. A sequência foi tão intensa que precisei de alguns instantes para me recompor dela. Era uma convergência de emoções e perspectivas que tornou esse episódio um episódio de esclarecimentos importantes. Percebemos aqui, que a série está comprometida com sua história, clareando-a pouco a pouco, registrando com mais beleza acidental, toda a escuridão que ronda aquelas pobres almas atormentadas pela memória. A memória… a vaidade do sono, a esperança, sonho… o desejo infinito. Sim, porque sejamos honestos, tudo que a memória mais quer é reviver a plenitude do presente.

As Sobras: Megan surtou com Matt e depois levou um tapão na cara de Laurie. Percebi que a personagem precisa de mais enfoque, mas acho que só veremos isso no ano que vem. 

As Sobras 2: Cairo, ao que parece, era um nome para nos confundir entre a capa da revista, que falava do Egito e o distrito com o mesmo nome, em Nova York. 

As Sobras 3: Ann Dowd saiu de cena de uma forma brilhante. Os últimos dez minutos desse episódio já são antológicos. 

As Sobras 4: Preciso repetir: a inteligência musical da série é admirável.

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