Entusiasmante, aterrorizante e empolgante. São poucos e insuficientes os adjetivos para “It´s Not for Everyone”, um episódio tão cortante (desculpe manter esse efeito de “eco” nas qualidades) que fez com que 40 minutos passassem diante os nossos olhos. Ainda estou em estado de choque no altruísmo ao “contrário” de Alsen e da postura fuckin´ass da sua esposa, que em um acesso completamente insano, se vingou do vizinho chato. Imagine se a gente tem um porão “destes” para cada vizinho que nos incomoda?

“It´s Not for Everyone” paradoxalmente não se aprofundou nos outros temas que foram abordados, a saber, as que envolvem a política de retaliação na web planejada pelo pessoal da StoneHeart. Contratar uma hacker para promover o terror (não literal) para aqueles que prometem atrapalhar os negócios “dus alemão”. Uma ação bastante contextualizada, mas que não mereceu por parte dos diretores maiores detalhes. O mesmo serviu para o núcleo latino, com aquela cena nada a ver de devolver o relógio roubado para o Setrakian, que além de não parecer agradecido, estava com pressa para tomar algumas atitudes muito bem-vindas. Sem contar que não deu para entender qual a relevância da venda do carro para os nigerianos. Haverá desdobramentos? Boiei.

Contudo, conhecer a anatomia de um corpo atacado pelo vampirismo neoclássico foi o ponto alto do episódio. Mesmo com a atuação meia boca de Sean Austin, que entre o seu problema de consciência e o medo pelo desconhecido, resolveu “soltar a franga” e se auto delatar por ter negociado sua dignidade, sendo um dos responsáveis pela caixa cheia de areia estar por aí como uma ameaça profunda à vida de muita gente. Descobrimos, por exemplo, que além de ávido por sangue, os parasitas constroem um sistema de circulação particular, utilizando a caixa torácica para seu próprio sistema respiratório.

Os timbres thriller e de terror que o episódio possui, descarta toda a comparação – até certo ponto tola – com Fringe, que tinha uma abordagem praticamente sci-fi. The Strain está imersa em uma proposta muito literária, por mais ululante que seja. Pela forma como retrata as personagens, pela riqueza descritiva e pela economia dos diálogos, pelo impacto visual intenso e também por não poupar seu público daquilo que ele deseja ver: ataques, reações, mudanças drásticas, terror e arte. Está tudo contido em “It´s Not For Everyone”.

Agora para não dizer que tudo foi perfeito, um parágrafo que pode ser atrevidamente machista, mas que cabe mediante as circunstâncias:

Dra. Nora Martinez, você conseguiu ser a “coisa” mais chata que aconteceu em todo o episódio.

Os motivos são muitos, mas irei elencar um ou outro para não cair no pecado de perseguir uma personagem, sem lhe dar tempo de se desenvolver. Afinal de contas, estamos apenas no quarto episódio da temporada de estreia. E de antemão aviso: mesmo aqueles que hão de comentar: “Ah, mas você nem tem ideia do que ela vai fazer ainda! Porque no livro ela é o capeta!”, estou julgando o episódio, não li a obra e ela não é o parâmetro para análise das cenas em que a integrante do projeto Canário participa.

A exuberância e o exagero de choradeira para alguém que lida com ciência é completamente desproporcional aos “fatos”. Em suma: está na cara que não se trata de uma epidemia mediante a autópsia improvisada que fizeram sobre o cadáver de Redfern. Que tipo de patologia conhecida faria com que um ser humano tivesse uma língua (na falta de palavra melhor) do tamanho de uma enguia elétrica, com a espessura de um cabo de força, que fosse capaz de ter velocidade e agilidade para destruir um indivíduo. Nestas horas se sente falta de uma direção mais corretiva para os exageros e que tragam certa verossimilhança para a ideia abraçada: ela é a ciência diante do factual fantástico. Redfern, a bem da verdade, já estava morto e impregnado de um “vírus” completamente desconhecido. Não há justificativa para um mimimi ideológico sobre “nós não matamos pacientes, nós cuidamos deles”. Com um detalhe: pacientes não podem ser ameaças e se o são – neste contexto absurdo – devem ser contidos sem tempo para um maior aprofundamento ou crise profissional.

E quando você pensa que a lição ficou…

… Ela se dirige à casa da francesinha e tem “pena” da forma como Setrakian elimina os zumbis, especialmente a menina. Ora, ele salvou a vida de todos os vivos! Não está óbvio para doutora que não se trata uma criança assistida pela UNICEF, mas de alguém que na verdade já morreu e que serve de habitat para um parasita assassino? Por que aquele escândalo na hora de tratar de um momento importante na investigação para entender o que está acontecendo? Mia Maestro pisou na bola e parecia uma Regina Duarte com acessórios. Não tivesse o episódio sido tão bom, seria fundamental para perder alguns pontos com o público e tenho certeza que não estou sozinho nessa.

The Strain consolidou seu sucesso e segue um rumo muito positivo entre as estreias feitas neste mid-season. É possível, inclusive, que se for exibida no Brasil, alcance uma ótima repercussão entre assinantes. A torcida é que mais gente possa conhecer uma das melhores séries exibidas atualmente nos Estados Unidos.

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