O terceiro capítulo de O Rebu no apresenta mais uma morte chocante: a da linearidade.

A questão de ter uma trama não linear era algo que já sabíamos sobre O Rebu e, para mim, era inclusive um dos grandes atrativos da trama, mas esse recurso nunca tinha sido usado com tanta frequência como ocorreu nesse terceiro capítulo da novela… Foi usado muito, e com maestria.

A primeira parte do capítulo foi montada basicamente com um costurado de inúmeras cenas de vários personagens, e uma sequência mal conseguia durar dois minutos em tela e, ainda assim, conseguiu ser tão bem construído, que resultou num avanço importante para a trama.

Aliás, sempre elogio o trabalho até então impecável de José Luiz Villamarin na direção da novela, mas hoje sou obrigado a estender meus elogios aos responsáveis pela montagem final do capítulo.

É muito complicado, numa trama tão fragmentada, não perder o sentido entre as mudanças abruptas de cenários e de linhas temporais (flashbacks, durante a festa e a manhã seguinte) que o fantástico roteiro de George Moura e Sérgio Goldenberg, e toda a equipe técnica da novela têm sabido trabalhar bem as variações do roteiro.

Uma coisa que eu percebi também foi que, com essa trama sem qualquer linearidade, também fica muito complicado fazer uma crítica sobre os capítulos, já que a trama é um grande costurado de cena que, com sorte, só poderão fazer algum sentido lá no final da novela.

Por isso vou tentar dar uma organizada no que não está organizado e dividir as reviews em três partes, sobre as três linhas temporais diferentes.

Primeiramente, nos flashbacks, mais uma vez fomos guiados por Duda e Gilda para algumas cenas de Bruno… Conhecer a vítima é fundamental para tentarmos entender quem o teria matado, e que forma melhor do que conhecer um homem a partir das lembranças das duas mulheres que o amava? Mas o genial em toda essa história de nos mostrar a vida de Bruno a partir das lembranças de suas duas amantes é que nenhuma dessas lembranças é plenamente válida, pois estão afetadas pelos sentimentos delas…

E isso pra mim foi o mais delicioso de cada um dos flashbacks deste capítulo… Entre as inúmeras cenas românticas, embaladas por belíssimos clássicos da música brasileira de Elis e Chico, e takes que romantizavam o sexo, o que estava por trás de tudo isso era mais simples do que a memória afetiva de Duda e Gilda poderia nos revelar: Bruno estava tendo um caso com as duas, e muito provavelmente não gostava de nenhuma delas.

Bruno era interesseiro, ambicioso e nada confiável… O cara apareceu para os Mahler fazendo espionagem industrial… Transar com duas mulheres – altamente importantes para Angela – não seria qualquer sacrifício. E o que eu achei mais genial foi a sutileza com que o roteiro nos avisou para não embarcar no luto das “duas viúvas”, enfocando o relógio que o rapaz ganhou de Gilda, enquanto transava com Duda na mesa de sinuca e lhe jurava amor eterno.

E além dos flashbacks, que mostravam o auge do “amor” de Bruno e Gilda e Duda, a novela abriu um pouco a mão de cenas durante a festa (tendo apenas duas bem curtinhas) para estabelecer de uma vez por todas sua terceira linha temporal: a manhã seguinte. E mesmo que timidamente, já foi introduzida a investigação do crime, mesmo que apenas com a introdução dos dois personagens responsáveis por fazê-la: o Delegado Pedroso (Marcos Palmeiras) e Rosa (Dira Paes).

As cenas de introdução dos dois personagens foram fantásticas e em poucos segundos conseguiram nos mostrar muito das personalidades dos dois e de seus valores… É incrível ver a qualidade de um texto que apenas em uma cena de Marcos Palmeiras cercado de crianças ao som de Zumbi (Jorge Ben Jor) é capaz de nos escancarar grande parte da personalidade do delegado responsável por investigar o assassinato de Bruno Ferraz, ao mesmo tempo em que faz o mesmo com Rosa, abrindo mão de maiores ferramentas para, focando-se apenas no choro de Dira Paes enquanto fazia uma consulta com sua médica de fertilidade, ao som de Magrelinha (Luiz Melodia).

Mas havia uma outra razão para as cenas introdutórias de Pedroso e Rosa terem sido tão curtas: esse capítulo seria de Duda, Gilda, e apenas elas. Além de dominarem os flashbacks, também dominaram a maior parte das cenas na manhã seguinte ao crime.

E o mais interessante foi notar como o roteiro montou tudo com um cuidado impressionante, dando espaço para cada uma delas sofrer seu luto introspectivamente para, logo em seguida, colocar uma contra a outra no primeiro grande confronto entre as duas na novela.

E, por tudo o que é mais sagrado, QUE CENA FANTÁSTICA O CONFRONTO DE DUDA E GILDA… Fantástica, crua, verdadeira e curtíssima, infelizmente… Mas foi um dos pontos mais altos desde a estreia de O Rebu… E por tudo o que vimos naquele momento maravilhoso, sou obrigado a, novamente, elogiar Sophie Charlotte. Não é fácil fazer uma cena dessas com uma atriz com o currículo que tem Cássia Kis Magro e, pelo menos no contexto da discussão, Duda conseguiu engolir Gilda, dando à Sophie Charlotte seu melhor momento neste capítulo…

Mas Sophie, no quesito atuação, ganhou a batalha direta com Cássia, mas perdeu a guerra… Acho que, com exceção da referida cena, Cássia Kis Magro foi o grande nome desse episódio, do começo ao fim… Seja na sua cena com o corpo de Bruno na beira da piscina, onde ela ao mesmo tempo em que demonstra sua dor abre espaço para a astúcia de pegar de volta o relógio que tinha dado ao rapaz, ou seja, em sua cena com Angela, onde foi educadamente maldosa com os motivos que levaram Angela a adotar Duda, Cassia mostrou a amplitude de sua personagem.

Mas o que coroou a participação irretocável de Cássia Kis Magro neste terceiro capítulo de O Rebu foi sua singela cena de choro no box do banheiro. A cena em si não é nada de inovador, e o próprio George Moura já demonstrou gostar bastante desse tipo de cena (tivemos em O Canto da Sereia e em Amores Roubados), mas aqui em O Rebu ela teve um significado especial por ter ocorrido com Gilda, que até então sempre se mostrou uma mulher forte e cheia de classe, mas que naquele momento desmoronou completamente.

E assim, com um show de Cassia Kis Magro e da equipe técnica da novela, chegamos ao fim do terceiro capítulo que conseguiu ser tão bom quanto os outros dois, se duvidar, melhor.

P.S.: Outra trama importante do episódio foi sobre Alain (Jesuíta Barbosa), que é um dos personagens mais enigmáticos e que mais promete na novela… Mas como era uma trama ainda em fase introdutória, estou esperando um pouco mais para me aprofundar sobre ela… Mas por enquanto, o rapaz não está no meu radar e, até aqui, o desconsideraria como suspeito.

P.S. 2: Aliás, o trabalho de Roberta (Mariana Lima) tá se mostrando bem pior que o de Felipão na seleção brasileira… Uma promoter que tem um corpo na piscina no meio da festa que tá produzindo e ainda permite que um penetra entre na casa para roubar as jóias da anfitriã PRECISA mudar de profissão.

P.S. 3: E as marcas no rosto do Bruno? Até então não tinha parado pra pensar como o Bruno morreu, mas duvido que tenha sido afogado… É mais provável que apenas tenham desovado o corpo na piscina.

QUOTE DO CAPÍTULO:

“A gente pode escapar de tudo… Do amor… Menos da morte” – REZENDE, Gilda.

PALPITE DO CAPÍTULO: Como o episódio não foi muito bom para nos dar dicas, mantenho meu último palpite em LÍDIA BRAGA.

SETLIST DA FESTA:

“Paris” (Frech Version) – Jay-Jay Johanson

“Feeling Good” – Nina Simone

E para ouvir depois da festa…

“Tatuagem” – Elis Regina

“Zumbi” – Jorge Ben Jor

“Magrelinha” – Luiz Melodia

“Atrás da Porta” – Elis Regina

“Eu te Amo” – Chico Buarque

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