Plift ploft still, a porta se abriu!”

 Há 20 anos, a televisão brasileira lançava um de seus grandes sucessos. Era um programa infantil, mas não era simples. Era complexo a cada quadro, a cada segundo no ar. O que fez seu sucesso instantâneo deve-se à curiosidade que tudo aquilo promovia ao olhar atento de uma criança. Olhar este que ao estimular o mais inquieto espectador, abraçava toda uma família. À época, chegou a computar consolidados 12 pontos de audiência. Um número expressivo às condições. E uma aposta certeira dentro de um importante canal de televisão brasileiro, a TV Cultura, que hoje se desponta com o segundo maior canal de qualidade do mundo pelo instituto britânico de pesquisa Populus, atrás apenas da BBC One. A ideia original era ser um redesenho de outra série infantil – a Rá-tim-bum – retirando aquilo que deu certo e inserindo novidades, mas, tornou-se algo muito maior impondo a necessidade de uma autoria e personalidades próprias.

E você vai ver, fazendo tudo com carinho, vai aparecer”

O castelo (talvez o personagem mais importante e principal de toda a série) foi pensado para realmente passar a credibilidade de que existia um lugar daquele jeito em São Paulo entre tantos prédios. Existe ludicidade em SP? Sim, ou pelo menos, existia o castelo no meio daquela selva urbana. A ideia se baseava em uma simbiose de mistério e alegria, afinal, um castelo sempre está nos sonhos mais aterrorizantes ou mais belos e cativantes da meninada. As referências vieram de uma arquitetura antroposófica alemã – que trazia a sobriedade e esquisitice – e da arquitetura moderna de Gaudí.  Além de um programa de entretenimento, que até hoje atrai os mais diversos públicos pela contemporaneidade e atemporalidade das histórias tratadas, tem-se uma pegada educativa e lúdica ao mesmo tempo, servindo estas de bases para a faixa etária pré-determinada de um programa infantil.

Somar é legal”

Da proposta da emissora à criação, roteirização, concretização, atuação e direção – passando por produção de cenários, cenografia, direção de arte, fotografia e figurino – foram 250 envolvidos. Era um projeto ambicioso dentro de um estúdio que indicava um hall com uma árvore no meio e várias coisas escondidas ao redor. E noventa episódios para contar histórias, educar e fazer aquele que assiste questionar o seu modo de viver da maneira mais leve possível.  “Só este trabalho já justificaria eu ter escolhido a carreira de ser ator”, disse Sérgio Mamberti, o querido mago e inventor Tio Victor neste nostálgico documentário disponibilizado no youtube que vale a pena ser conferido aqui.

Lava uma mão, lava a outra, lava uma mão”

Como a série conquistou o seu lugar? Acredito que sempre há espaço para um programa deste calibre na programação da TV aberta. Um programa que não simplesmente entretenha a pessoa do outro lado da tela apenas mostrando aquilo que ela quer ver, mas um programa que consiga instigar tratando de assuntos variados com a sua própria personalidade. No Castelo, os temas travados por Nino, Biba, Pedro e Zequinha – os personagens principais – eram visitados das mais diversas formas. Daí, eles eram fabulizados pela Tia Morgana, ou ainda, podiam ser adoçados por um dos personagens que faziam visitas surpresas no dia do episódio, coroados com alguma poesia na biblioteca ou musicados na vitrola ou pelos passarinhos. Cada personagem e quadro existiam ali por algum motivo, e tinha o seu momento chave na trama do episódio. Nada é por acaso ou desnecessário, talvez também seja assim, o seu sucesso.

Tô chegando, tô chegando, tô chegando, cheguei… Godofredo!”

Os personagens eram um poço de criatividade só por eles mesmos – os reais e os surreais. O gato pintado que era o guardião da biblioteca, as criaturas no encanamento do castelo e a gargalhada fatal do Mau, os cientistas gêmeos com a família de nomes de ossos, as fadas que viviam no lustre do castelo, o Telekid do Marcelo Tas, os passarinhos cantores e instrumentistas… Todo o castelo escondia uma surpresa agradável. E seus moradores, com toda certeza, também. Vale ressaltar, antes de analisarmos cada um, que foi intenção dos próprios produtores não colocar exatamente um pai e uma mãe para Nino, em função das mais diversas formas familiares que as crianças podiam encontrar em seu próprio lar. Isso em 1994. (#pausaparareflexão: na minha defesa de que este programa é algo a frente do seu tempo, eu tenho um pouco de razão, e não sou apenas uma criança que não quer crescer e ficar assistindo na frente da TV Castelo Rá-tim-bum tomando leite com achocolatado pelos séculos).

 E atenção: o Dr. Victor vai chegar, o Dr. Victor está chegando, o Dr. Victor chegou!”

Tio Victor era a figura paterna. Mago e inventor indicava a vida adulta para as crianças. Apesar de viver com a magia, suas invenções mirabolantes e uma casa de dar inveja em qualquer um, sempre saía para trabalhar cedo e voltava à tarde. Entre tanta fantasia, a realidade também tem o seu lugar. Tia Morgana, por sua vez, era a figura materna. Ficava em sua torre com a sua fiel escudeira, Adelaide, mas não se importava em ajudar o Nino e seus amigos quando a situação precisasse de uma força mais imperativa – ou de um pouco de mitologia e histórias. Nino era uma criança de 300 anos, que nunca foi à escola e não tinha amigos normais e com isso não sabia o quão bom era brincar (#curiosidade: não sabia, mas a santa Wikipédia informa que seus pais foram viajar dez anos no espaço, e por lá estão desde 1990). Pedro, Biba e Zequinha são os “amigos normais” de Nino. Entre a delicadeza, a inteligência e a sagacidade cada uma dessas crianças, cada espectador se identificava com seu retrato mais parecido entre os protagonistas na tela.

 Alguém aí chamou a Caipora? Caracatau”

As personagens especiais também contribuíam para formar a identidade da série. Penélope era uma jornalista que vivia em busca de seus instinto e faro de repórter atrás de uma boa história. Bongô era o entregador de pizza boa-praça que sempre trazia boas ideias para a turma. Caipora era o ente folclórico para as discussões sobre o meio-ambiente e natureza. Etevaldo era de outro planeta que vinha conhecer aquilo que há de bom na Terra. Era com ele que se ensinava dar valor às pequenas coisas do dia-a-dia. E talvez, o mais emblemático, o favorito das massas, o Dr. Pompeu Pompilho Pomposo, o Dr. Abobrinha, que queria comprar o castelo e criar um prédio de cem andares no lugar.

Enquanto isso no lustre do castelo”

Quando um destes personagens estava presente, toda a história era ao redor dele e envolvia os principais. As complicações de sempre ao serem enganados pelo Dr. Abobrinha, as descobertas com Penélope, o folclore de Caipora… Cada episódio trazia um assunto de gente grande com uma abordagem poética, mas sem perder a autocrítica e vontade de mostrar aquilo que devia ser mostrado. Em um episódio, como exemplo, Tio Victor sai de viagem e deixa a cobra Celeste no comando, esta, por sua vez abusa de seu poder irritando a todos. Diante do imbróglio, Penélope chega ao castelo e ajuda os moradores de lá a votarem em quem eles querem que os represente no comando das decisões. Assunto sério com linguagem colorida. Ok, bacana, mas, porque mesmo estou lendo sobre “O Castelo Rá-tim-bum” no SM? Porque sim.

Porque sim não é resposta”

(sim, não podia faltar essa) O que ela tem demais? Como já disse nesse mesmo texto, a vejo como uma obra a frente do seu tempo. A sua atemporalidade e sua forma de tratar de assuntos complexos de uma maneira atraente mostra o tanto que ela foi trabalhada e cuidadosamente planejada. Sim, estamos diante de uma série para um público que não pode ser apresentado para qualquer coisa. Mas, mesmo assim, hoje em dia, depois de 20 anos, ela está sendo retransmitida pela TV Cultura e ainda atrai os seus velhos e conquista novos fãs.

Conheço uma pessoa que se interessaria muito por isso, uma não, duas”

Não é difícil reconhecer pessoas que tenham a sua infância relacionada com esse programa da televisão brasileira. A formação de uma geração, dentro de vários fatores, também se influencia pela produção artística da época. Também temos ligação com a fonte que pegamos o nosso entretenimento ou a nossa educação. Afinal, não estamos imunes àquilo que consumimos visualmente. E, se hoje, dedicamos tanto tempo com nossos hobbies presos a uma tela, vale a nostalgia de lembrar os primórdios. Os primeiros plot twists que nos atraíram. Os primeiros guest stars que nos matava de ansiedade. Ou a próxima exibição de um inédito.

Passarinho, que som é esse?”

A descoberta estava em todos os episódios, seja na caixinha musical, na vitrola ou nas peripécias dos excêntricos moradores do castelo. Mas, acredito que além de muita saudade e nostalgia que a série deixou, ela deixou outros sentimentos peculiares em cada um de nós. Pra mim, além do basilar das relações humanas e do conhecimento universal de mundo que aprendi com esta obra, as minhas vontades sempre foram ter um lava-louça maluco igual daquela cozinha, ter uma lareira poliglota com fantoches falando em outras línguas, ou ainda um par de sapatos falantes. Um Tap e Flap para chama-los de meus.

Tchau preguiça, tchau sujeira, adeus cheirinho de suor”

Por ser um clássico do meu tempo (ou de todos eles), eu não tenho vergonha alguma de dizer: se estou mudando de canal, e está passando, eu paro. E vejo, revejo, descubro, questiono e me encanto. E como foi esta a primeira série que eu acompanhei, gerando o meu vício por tantas outras, compartilho aqui para ver se mais alguém divide essa origem junto comigo. E claro, aproveito para parabenizar os vinte anos do programa que mais marcou a minha infância.

Raios e trovões”

PS – Para você que está com saudades do Castelo Rá-Tim-Bum em mora em São Paulo, O MIS preparou uma exposição especial para comemorar os 20 anos da série. Clique aqui para saber mais.

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