Falando com Golfinho, sendo enterrado vivo.
Ray Donovan é uma pedra. Ou melhor, uma lápide – afinal não é atoa que carrega no peito e no braço os nomes da mãe e da irmã que morreram no passado. O grande esforço da série seria então, fazer de seu protagonista uma pedra fraturada: retirar da crosta que o rodeia, por mais difícil que pareça, os sentimentos estilhaçados e desordenados que preenchem esse sepulcro raivoso. É algo bem ao contrário de um Walter White, que ao passar do tempo teve seu coração endurecido.
Na primeira temporada, de cara, nos víamos diante de um personagem impassível e inabalável, difícil de gostar. Com a chegada de Mickey, esse furacão errático, o histrionismo do pai se choca com a sobriedade do filho. Revelam-se aos poucos as fragilidades, as decepções, os traumas, as expectativas, os sonhos não realizados (é válido lembrar que a série se delineia na tragédia). O que acaba fazendo de Ray Donovan, acima de tudo, uma história sobre confrontos de pais e filhos.
E é engraçado ver como a segunda temporada já começa realizando a operação fundamentalmente sintética de contrapor Mickey e Ray de forma tão eloquente (a brutalidade do filho, a alucinação do pai), mas ainda assim nunca os separando de fato.
Ray acorda de um pesadelo em que era enterrado vivo – ele é uma lápide, não um cadáver e está longe de enterrar completamente os corpos do passado – para logo depois molestar a esposa numa das cenas mais incómodas e selvagens que cristaliza esse abismo entre Abby e o marido. Nesse momento uma verdade se impõe – áspera, crua, e que com certeza sessões de terapia não irão resolver (não Abby, ele não “gosta apenas de foder”).
Mickey, síntese canastrona, aparece numa paisagem paradisíaca no México com uma mulher ao fundo e uma garrafa de tequila na mão. Ao ir para o mar, o personagem protagoniza provavelmente uma das cenas mais antológicas da série (e digna dele): em um diálogo com um golfinho, Mickey percebe que por mais que esteja rodeado de mulheres e paisagens bonitas, ele não iria escapar tão fácil das assombrações que deixou para trás, esse mestre das desculpas, Capitão da defensiva.
Melhor é ver a relação dos dois com os seus respectivos filhos. Enquanto Connor se liga ao pai pelo laço da violência que cada dia se mostra mais latente no garoto (e que parece não ter consciência nenhuma das consequências dos seus atos – culpa do Ray?), Daryl se afasta do seu ídolo ao ver que o pai não é flor que se cheire, ao apostar contra ele numa luta de boxe e ganhar dinheiro as custas do sangue expelido da cara do filho. A decepção que ele encara é provavelmente a mesma que os irmãos encontraram em toda a vida em se tratando de confiar nos escrúpulos de Mickey.
Falando nos outros Donovan, nesse primeiro episódio não tiveram muito destaque além de uma possível continuação da trama mais chata da série que é o Terry com a Frances (cara, por favor supera ela) e que se arrastar assim irá apenas desperdiçar um personagem que poderia render bastante de outra forma. Bunchy por sua vez, se engravata para ir numa entrevista de emprego numa loja de bicicleta. E acho que já passou da hora de arrumarem uma narrativa realmente descente pro Bunchy além do garoto traumatizado (a cena na reabilitação com o cara chamado Stan dando em cima dele pode ser um caminho, não o melhor, mas pelo menos é uma coisa).
O grande desafio que se desenha nesse início de temporada é o confronto entre Ray, Mickey e o James Cochran do FBI, que mesmo sendo avisado, quer ir atrás de toda verdade dos fatos que ocorreram na noite da morte de Sully na temporada anterior. Confesso que essa trama não me agradou e acho até bastante fraca, sendo na verdade apenas o deflagrador da ida de Ray até Mickey, cena que fecha esse episódio bom da temporada. Quando numa construção de tensão em poucos minutos, é revelado a selvageria do protagonista ao tirar o terno, guardando a civilidade de uma camisa branca no porta mala e trocando-a descaradamente por um bastão de baseball. Só para mostrar quem é o Capitão dessa história.
P.S 1.: Quando essa série vai perceber o potencial da Lena e entregar uma trama só pra ela???
P.S 2.: Falando nisso, o caso dessa semana ganhou alguns minutos em cena só para transformar uma amante do Deonte em heroína no American Idol, brindando as aparências ao cantar a edificante ‘My Heart Will Go On”
P.S 3.: Engraçado o contrato de Ray e Abby de deixar a violência longe dos filhos, mas quando se trata de Donovans taí uma palavra que não se afasta.
P.S 4.: Jon Voight continua foda.














