Red e a arte de esquecer em que chão está pisando.
Desde muitas reviews atrás e com uma frequência considerável, venho comentando a respeito da maneira como Orange Is The New Black foi posicionando Red como a heroína da temporada, a única pessoa em Litchfield capaz de pôr um fim ao império de Vee. Pois fazendo jus ao seu título, o pré-finale It Was The Change (“A Tempestade”) chega estrondosamente para romper com toda essa expectativa, e é sucesso absoluto justamente por sair da caixinha e nos guiar em direção ao inesperado, com direito a vários desvios no meio do caminho.
Não acredito que nenhum de nós, espectadores, realmente precisava ter visto o flashback de Vee para concluir que foi ela quem deu um fim no irmão adotivo de Taystee, não sem antes aproveitar-se pela última vez do corpitcho do rapaz. Aqui, considero a nudez de Vee mais um ponto gigantesco a favor de OITNB por um motivo muito simples: shock value. Perdoem-me pela linguagem chula, mas o fato é que das cocotinhas da prisão nós já esperamos nudez e sexo. Mas não de personagens mais velhas e – mais importante! – mais sérias dentro da dinâmica social do lugar. A nudez de Vee tem um objetivo muito claro: intensificar o nosso choque ao testemunhar uma cena que já é chocante por si, já que envolve uma espécie de “incesto psicológico” que até nos faz imaginar quando foi que essa brincadeira entre mamãe e filhinho começou. Imediatamente antes do sexo, a série não nos poupa da informação de que Vee havia criado o moleque, era realmente uma mãe pra ele. E é o conjunto dessa obra que torna esse roteiro tão genialmente impactante.
Da mesma maneira, nenhum de nós precisava do flashback para saber o suicídio que Red estava cometendo ao desistir de sufocar Vee no meio do caminho. Mulher, você já está na chuva, se encharca logo! Uma vez que a iniciativa foi tomada, era matar ou morrer ali, e, em mais um desvio inesperado, Red “emburreceu”, esqueceu-se completamente de quem era Vee e nos deixou desesperados prevendo exatamente o seu destino. Nós assistimos a toda a história das duas, e aquilo foi claramente feito para que acreditássemos que Red agora era outra pessoa, mais calejada, mais astuta, mais consciente do que acontecia à sua volta. Doce ilusão. No fundo, a russa continua sendo mole – ok, bem menos do que antes, mas ainda mole. E era óbvio que isso lhe renderia uma boa e nova surra. Essa moleza dá uma brecha para reclamarmos de inconsistência do roteiro na construção de Red? Sim, dá. Mas eu prefiro acreditar em outra explicação: só agora estamos conhecendo a verdadeira Red. Só agora a personagem está ganhando contornos reais e uma tridimensionalidade que era invisível na época em que ela só era a chefona da cozinha que se recusava a alimentar Piper. Enquanto isso, Vee continua extremamente consistente e fazendo o que esperamos dela: ser 100% vilã e descer o cacete na rival que ousou tocá-la.
Em termos de trajetória na série, junto com Red naquilo que podemos chamar de “ponto de virada” está ninguém mais e ninguém menos que Natalie Figueroa. Da última vez em que vimos a vida pessoal da personagem, houve uma clara tentativa de humanização, de mostrar que Mrs. Fig é “gente como a gente”. Este episódio consolida esse movimento do roteiro no momento em que ela flagra o marido aos beijos com seu assistente. Aqui, preciso dizer brevemente que é triste o fato de eu e quem mais estivesse na mesma situação que eu – acessando as reviews antes de ver os episódios seguintes – termos tomado um baita spoiler sobre esse affair em um momento em que ele ainda não havia sido explicitado pela série. Assim que li o comentário sobre o assunto, sabia que cedo ou tarde isso seria explorado, porque o que havia sido exibido antes deste episódio, apesar de deixar uma levíssima pista, nem de longe era suficiente para cravar o caso entre os dois. Mas sigamos em frente.
O divertido dessa história é pensar que ela tanto pode ser o prelúdio de uma grande virada – Fig, em um acesso de raiva, dando um jeito de incriminar o marido e denunciá-lo por todas as falcatruas da prisão, por exemplo – como simplesmente uma maneira de justificar a amargura da administradora da prisão e o seu jeito 100% bitch de ser (característica que amarei para todo o sempre, podem me julgar!). Eu apostaria na segunda hipótese, ou seja, não creio muito que a série terá coragem de sair da própria zona de conforto. Mas ficarei muito feliz caso seja surpreendido.
Poussey continua encantando cada vez mais em sua dedicação por Taystee. Meu caro colega Thiago Leal disse muito bem: há toda uma aula de pureza envolvendo essa personagem que a torna extremamente cativante dentro de um ambiente pesado como aquele. Taystee, por outro lado, segue sua jornada de perda massiva de fãs. Ok, ela cedeu à emoção e fez as pazes com a amiga no final, e foi emocionante, sim. Mas nem de longe considero aquele momento uma redenção, visto que ele só veio em razão do abandono de Vee e do grupo das negras – que, aliás, perdeu quase completamente o seu brilho depois de se transformar na “gangue da Vee”. Watson passou a ser extremamente dispensável, e até sua relação com Yoga Jones, que tinha um belo potencial, foi descartada. Black Cindy não serve mais nem para alívio cômico, e nem o magnífico trabalho de Uzo Aduba foi capaz de manter minha simpatia por Crazy Eyes.
Outra que me decepcionou sendo dedo-duro (e burra) foi a atualmente isolada Boo, que foi “expatriada” por todos os lados. E, já que a personagem não tinha muito o que fazer, por que não colocá-la para fazer o que ela faz melhor: arrancar umas boas risadas? Eu já estava há algum tempo com a reclamação de que estava faltando explorar mais a maluquice conservadora de Pennsatucky nesta temporada, mas isso aconteceu da melhor maneira possível antes que eu pudesse expor a minha insatisfação nas reviews. O melhor aspecto de ter uma personagem como a caipira é justamente a diversão que a equipe da série certamente tem e gera quando zoa a mentalidade conservadora usando uma maluca psicótica e sem noção como porta-voz dessa mentalidade. Aqui, com um empurrãozinho de Healy, Pennsatucky voltou a ser o instrumento perfeito para caçoar da limitação intelectual dos imbecis que propagam teorias ridículas da conspiração, os “gayzismos” da vida. Divertidíssimo o diálogo em que Boo explicita a Pennsy o plano das lésbicas de dominar o mundo, mas manter os homens vivos – afinal, elas precisam de escravos! Foi pra rir do início ao fim!
Enquanto isso, Piper luta com a tristeza gerada pela expectativa da transferência. Preciso dizer que estou um pouco assustado, morrendo de medo de isso acontecer mesmo – a belíssima cena em que ela agradece a Morello teve um clima assustador de despedida. Detestei ver Piper em outra prisão no início da temporada, e tenho pesadelos com a possibilidade de assistir a uma terceira temporada picotada, com um núcleo liderado por Piper em uma nova prisão intercalado às aventuras das já independentes prisioneiras de Litchfield. Não quero Litchfield sem Piper, e ponto final! Jenji Kohan, você trate de enfiar alguma coisa pra cancelar essa transferência, nem que Fig precise mudar de postura depois de descobrir que tem uma marida! E tenho dito!
P.S. – Pessoal, desculpem-me pela longa interrupção das reviews. Fiquei realmente atribulado e não consegui entregar este texto antes, mas não desistam de mim, que estamos quase acabando! Obrigadão pela compreensão!
Próxima review: 2×13: We Have Manners. We’re Polite [Season Finale] – 18/7















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