Quando a própria dor é maior do que se pode compreender.
Durante as últimas semanas me peguei a observar a opinião dos fãs com relação à quinta temporada de Covert Affairs. Em parte, por este ser meu primeiro ano cobrindo a série, e também, porque não senti uma forte empolgação do público após os dois primeiros episódios da temporada. Posso desconfiar que muitos de vocês considerem muito cedo para fazer uma avaliação como esta, mas quando falamos de uma série de canal pago, onde o número de episódios é bem enxuto, qualquer tempo “perdido” pode significar um momento de dificuldade para a série. Então… aproveitando o gancho que o episódio desta semana permitiu, irei relacionar o momento vivido por Covert Affairs e razão para que alguns sintam certa relutância a se adaptar com a nova personalidade atordoada de Annie Walker.
Como era de se esperar, Unseen Power of the Picket Fence focou-se no desfecho de Borz e a “oferenda” do terrorista para que Annie desse mais um pequeno passo em direção à trama da temporada, antes que ocorra o “mergulho de cabeça”. Porém, o roteiro aproveitou a circunstância para se focar nas novas atitudes de Annie e o quanto a presença de Ryan não será benéfica para a espiã.
Na review da última semana, o comentário da Isabela Milanezzi me chamou a atenção. Ela disse que ainda não havia conseguido perceber o objetivo real desta temporada. Esta percepção me atraiu porque ela faz muito sentido no cenário vivido pela série. E para me justificar, peço que você se recorde de alguns comentários que fiz durante a première.
Em Shady Lane eu havia citado o fato da grande distinção que temos ao compararmos a primeira e a quarta temporada de CA, e a grande justificativa está na evolução profissional e pessoal da protagonista, levando-a alcançar o patamar do que talvez seja a principal agente da CIA (em sua atualidade). A consequência de promover este desenvolvimento está em se permitir complicar, cada vez mais, as tramas das quais Annie se envolve. Se no piloto tínhamos uma jovem empolgada com a utilização de suas habilidades em idiomas e o sorriso mais carismático da agência, ela apenas executava missões de simples reconhecimento ou troca de informações. Ao decorrer do tempo, estas “simples” tarefas se transformaram em disfarces, relacionamentos com criminosos, conflitos pessoais diante à tantos segredos, desentendimentos com a família, presenciar a morte de colegas e provocar a morte de inimigos. Além, lógico de tornar-se uma vítima de seus casos e ser baleada dentro da própria casa.
A verdade é que durante meses, Annie foi treinada pelo governo para se transformar em uma espiã, e após quatro anos ela se graduou na profissão. Com louvor? Aos olhos da agência sim, mas à percepção de quem Walker era como pessoa, e quem ela se transformou, talvez esta faculdade tenha criado uma espiã e tenha deixado pelo caminho as virtudes que tanto destacava esta mulher.
Em Quicksand Annie diz a Eyal que “nem todo mundo pode ser salvo, não era este o seu trabalho”. A afirmação assusta o amigo que não esperava ouvir de Walker uma convicção tão fria quanto esta, e o espião lhe diz: “A sua empatia é um dos seus maiores dons, nunca perca isso.”. Na época, fora o apoio do amigo que fez Annie tomar a decisão de revelar toda a verdade para Khalid, mas deixa-lo escapar vivo. Tal atitude provém de alguém que é capaz de pensar além do ordinário e agir com astúcia, transpondo a exclusiva habilidade de executar ordens.
E esta personalidade sempre foi a sacada da série, impor ao subentendido de que o grande diferencial de Annie estava em se comprometer com aqueles aos quais envolviam-se em suas missões, indiferente à culpa ou inocência. Walker era aquela que conseguia a verdade com a verdade, a confissão do inimigo relatando os próprios segredos. Sempre persistente aos seus objetivos, Annie acredita no que faz, no fato de que está praticando o bem, mas ela nunca impôs as necessidades da agência ou da segurança nacional acima das necessidades de cada indivíduo. Isto é posicionar-se como ser humano, acima de qualquer ato de espionagem.
Com o assassinato de Henry e o encerramento de Trome le Monde, Covert Affairs encerrava um ciclo, completava a jornada de uma jovem que caiu de paraquedas na maior instituição de inteligência de mundo e, após inúmeros desafios, ela sobreviveu. É por esta razão que a última Season Finale não apresentou cliffhanger, além de uma mulher que se isolava no oceano e seguia destino a um rumo desconhecido. Ali encerrava-se o último capítulo de um livro, para que então, este ano, Shady Lane escrevesse um novo prólogo.
Eu poderia dizer que esta foi a jornada de um herói e que Annie provou-se digna para o novo desafio, sua nova provação. Mas a verdade é que não é, isto é vida, aprimorada nas aventuras de uma espiã, mas não perdendo as características da vida de cada um. A cada desafio superado, outro irá se impor diante de você e ele será mais complicado, difícil, e você estará mais amadurecido para enfrentá-lo, porém ferido e marcado por todo o caminho que já atravessou.
E está é a nova Annie Walker, alguém que conseguia ser verdadeira porque encarava a vida com grande prazer, após passar anos viajando e conhecendo o que há de melhor nela. Mas que agora, atravessou um caminho que deixou cicatrizes e feridas abertas, sendo bem mais difícil manter-se aos próprios princípios quando foram eles que lhe deixaram marcada. Este é o contexto que nasce a quinta temporada, inicialmente focada em uma protagonista mudada pelas forças da vida, e que começa a desconhecer a própria capacidade de viver à percepção de uma outra face.
Após atravessar a fronteira com Ryan, Annie revela que mentiu para Borz manipulando os sentimentos do homem pela irmã. Walker o culpou por tudo que houve em Chicago e mentiu para obter informações de um terrorista prestes a morrer, além de prometer ajudar uma mulher morta. Annie não demonstra qualquer pesar ao perceber que Borz morreu acreditando na sua mentira. Para justificar suas ações ela argumenta a Macquaid dizendo, “Eu fiz o que precisava ser feito”. Porém, diferente de Eyal, o novo “amigo” de Annie lhe elogia e faz-se compreensivo à atitude da espiã.
Influencias são mais do que decisivas nos rumos que traçamos em nossas vidas, e nesta cena vejo Ryan instigando o lado negro de Walker, enquanto Lavine tentou resgatar a personalidade da jovem que conhecera três anos antes.
Diferente dos dois primeiros episódios da temporada, que buscou oferecer fatos que embasarão o desenvolvimento da trama do ano. Unseen Power of the Picket Fence ofereceu ao telespectador a temática da protagonistas, e como esta será desenvolvida ao meio desta nova ameaça. Não há dúvidas de que todos os envolvidos neste novo panorama, aonde influentes da CIA agem eliminando os agentes da instituição, irão ser responsáveis pelo novo comportamento de Annie. Talvez para enfrentar alguém tão ousado e perigoso, seja necessário expor ainda mais esta impressão fria e descomprometida com tudo que não se refira a seu propósito.
Mas a verdade é que enxergo esta temporada como crucial para Covert Affairs, pois se sua protagonista seguir o destino da maioria dos espiões que já conhecemos de longas datas na telinha, a série pode perder o seu grande diferencial. Em contrapartida, acredito que possa ser genial a exploração de uma temática onde não existirá nada que possa “desvirtuar” a grande dadiva de Annie Walker.
Observações Finais
1. Borz fornece a Walker o apelido “O Carteiro”, como sendo o responsável por vender informações da inteligência. Pode ser pura especulação, mas o fato de que Calder não tem uma namorada (eu fui inocente!), e sim uma acompanhante para momentos de reflexão, (por assim dizer). Esta circunstância me fez questionar se a série está nos lançando uma pista falsa, ou pode ser esta mulher quem obtém informações. Não apenas de Michaels, mas de todos aqueles aos quais ela possa se envolver.
2. Mal esquentou a cadeira da Macquaid Security e Arthur convenceu Joan a aceitar o auxílio da empresa para tirar Annie e Ryan da Venezuela. Algo me diz que estes “favores” podem se complicar.
3. Como era de se esperar, Calder terá que esclarecer os acontecimentos do atentado em Chicago, e já demonstrando que nem de longe ele é um Arthur da vida. Fomos apresentados a um líder despreparado e totalmente encurralado na audiência. Já disse antes, mas vou repetir. Provavelmente, Joan não irá quebrar uma unha para recuperar seu posto.
4. Ryan não conseguiu interrogar o ex-funcionário. O que deixa a interrogação para nós também. Será que ele desconfia que alguém dentro da sua própria empresa esteja envolvido neste atentado e por esta razão decidiu ir pessoalmente em busca do terrorista na Venezuela?
5. Roger saiu para investigar o informante para Auggie e acabou sendo fotografado. Mas apesar dos suspense, acredito que ele estava sendo vigiado por outros motivos e de que sua reação paranoica com Auggie tenha justificativa mais do que cabível.
6. Soltando um grande spoiler:
Tudo indica que mais informações serão esclarecida no próximo episódio, pois Eyal volta em cena para ajudar Walker. Algo me diz que seu aparecimento será para fornecer informações obtidas com o seu retorno à Mossad. Nós já sabemos que ele voltou a atuar como espião desde a temporada passada, certo?














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