O amargo sabor da liberdade.
Muitos comentários aqui nas reviews de Orange Is The New Black têm enfatizado a sensação de fillers da maioria dos episódios desta temporada. Mais de uma vez andei lendo por aqui, inclusive, que “todos os episódios até o 10 têm cara de filler”.
Assim, qual não foi o meu espanto ao assistir ao episódio 9 e constatar que absolutamente TODAS as suas cenas foram extremamente relevantes para as principais tramas da série? 40 OZ of Furlough (“Saída temporária”) é, até o momento, o melhor e o mais importante episódio da segunda temporada de Orange Is The New Black! Tão importante que é até difícil decidir por onde começar.
Mas comecemos por nossa protagonista, que, para o meu espanto absoluto, acabou conseguindo sua licença temporária da prisão e pôde experimentar 2 dias de “vida real”. O curioso é notar que, para Piper, de real aquela vida não tem mais nada. Muito do que ela fez nesses dois dias foram apenas compromissos sociais chatos com pessoas que não fazem ideia de quem ela é de verdade.
Como se não bastasse, a principal função daquela licença foi a percepção absoluta de que seu relacionamento com Larry também havia deixado de ser real. E, se esse foi um momento belíssimo e extremamente dramático, a maneira (proibida para menores) como Piper descobre que Larry não era mais o seu noivo fiel foi a mais hilária possível:
Piper: E você decide me contar que dormiu com outra agora, quando estou com o seu pau mole na minha boca???
Larry: Tava meia-bomba, vai…
Piper: Não ouse defender sua ereção!!!
Já pode eleger este como o melhor diálogo da história das séries? Quase MORRI de rir!!! Foi quase um retorno de Jason Biggs aos tempos de American Pie, mas num contexto um pouco mais elegante. E é impressionante quão inteligente é o roteiro de OITNB, equilibrando drama e comédia de maneira perfeita. A constatação dos dois de que o romance acabou foi um dos grandes momentos da temporada, se não da série. Não querendo fazer ninguém passar fome, mas é como a mais deliciosa mistura de goiabada com queijo, uma fusão de dois sabores completamente opostos que não faria sentido na teoria, mas acaba criando uma combinação inusitadamente agradável.
Pela primeira vez, senti empatia por Larry. Nós sabemos que o cara não é um babaca e, apesar de ele ter feito muita bobagem, o sentimento entre os dois não acabou de fato. O que acabou foi a viabilidade prática do relacionamento. No fim, a verdade é que Larry não é o cara para Piper, e a prisão apenas acentuou o quanto eles são pessoas diferentes. E, entre um noivo falso e uma família completamente desconectada de Piper, nossa protagonista decidiu passar sua última noite sozinha naquele que agora mais parece um mundo paralelo, aproveitando uma junk food à qual detenta nenhuma conseguiria ter acesso. Mas é bastante melancólico vê-la ali, no meio da rua, deslocada como quem viaja e se sente completamente fora do seu lar.
Enquanto Piper desfruta de sua liberdade temporária, a prisão de Litchfield pega fogo! Guerra Fria é pouco para definir a disputa de poder entre Red e Vee, e tudo parece estar prestes a explodir quando temos uma “traidora” de cada lado da briga.
Nossa caríssima Poussey está vendo Taystee se transformar em outra pessoa depois de virar capanga de Vee, e dificilmente ela ficará parada vendo sua paixão caindo no fundo do poço. E, quando pensamos no segundo episódio da temporada, com o potencial para o sucesso profissional que vimos que Taystee demostrar, é horrível ver a pessoa que ela se tornou, sendo capaz até de fazer com que Nicky seja sugada novamente pelo vício em heroína.
No caminho contrário ao de Poussey, Big Boo decidiu trair Red por motivos bastante mesquinhos, e por 10% de um cigarro que ela dificilmente verá de verdade. Os flashbacks deixaram muito claro que Vee não está preocupada com amigos e muito menos com palavras. Vee está preocupada com poder. E, se Boo acha que a informação que deu garante alguma coisa dessa mulher, coitada. A queda vai ser feia. Só menos feia do que a queda de Red no passado, quando achou que poderia confiar em Vee apenas para ser espancada e forçada a trabalhar para ela, provavelmente até que a vilã fosse libertada.
A administração da prisão também está recebendo uma baita atenção do roteiro. E não poderia ser diferente, já que Pornstache está de volta com tudo, enquanto Bennett segue descontrolado com a ideia de ter outro cara azarando sua mulher. O cara chega ao ponto de confessar a gravidez de Daya para Caputo para prejudicar o colega, e isso certamente não vai acabar bem.
Healy, por outro lado, está em busca de se tornar uma pessoa melhor, e continua estabelecendo uma conexão interessante com Pennsatucky, que pelo visto não aprendeu nada com a surra que levou de Piper. Eu não vejo muita chance de reforma para essa maluca, mas aplaudo Healy por tentar.
A título de curiosidade, ao contrário da tradução, o título original tem uma referência fortíssima ao álcool que Piper tanto bebeu no velório da avó (e escolheu não beber no final de tudo). O trecho “40 OZ” refere-se a um tamanho maior de garrafa de cerveja, enquanto “Furlough” é a palavra em inglês que representa a licença da prisão. Uma tradução literal seria algo como “Licença alcoólica”, mas a estranheza dessa expressão me faz aprovar o título em português escolhido pela Netflix.
Com traduções ou sem traduções, o que importa é que 40 OZ of Furlough é o episódio mais importante desta segunda temporada até agora. Bastante dinâmico, ele avança rapidamente as narrativas de cada uma das grandes tramas da série, enquanto usa seus flashbacks para pintar com cores cada vez mais assustadoras a relação entre Red e Vee a e consequente organização social de toda a comunidade da prisão de Litchfield. Portanto, se você realmente acredita que esse episódio foi um filler, recomendo assistir novamente a esta temporada. A experiência de vê-la aos poucos, acompanhando a publicação das reviews, está bastante interessante, mas finalmente chegou o momento em que está ficando difícil não dar play loucamente episódio após episódio. Deem-me forças, e até a próxima!
P.S – Estou adorando as mil referências à Disney da série, com Soso sendo chamada de Pocahontas, de Mulan, de Lilo (com participação de Leanne como Stitch)… e o melhor é que todos os apelidos combinam perfeitamente! Fora as velhas detentas sendo apelidadas de “bruxas da Disney” pelas latinas que foram assaltadas na cozinha. Uma diversão à parte!
Próxima review: 2×10: Little Mustachioed Shit – 1/7














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