O lado sombrio de Annie Walker.

Há dois dias um colega leitor questionou sobre dicas para novas séries, na mesma hora Covert Affairs me veio à cabeça. Não apenas por apresentar poucos episódios, mas principalmente, porque esta foi uma série que surpreendeu e ainda surpreende o público.

Lembro-me que quando C.A. foi lançada, minha única razão para decidir em assistir o piloto da série veio de fato de sua produção pertencer ao canal U.S.A. Naquela época eu acompanhava Burn Notice e adorava, logo conclui que se pertencia a mesma emissora e tratava do tema espionagem, a série merecia uma chance. No começo eu hesitei e pensei que não daria certo, mas felicidade minha foi abraçar a ideia dos criadores, assim como o público. E atualmente, estamos presenciando um dos melhores roteiros de espionagem da televisão.

Não estou exagerando não, e me atrevo a colocar nesta lista comparativa, até mesmo Alias. Lógico que, nem de longe, quero comparar os personagens Annie Walker e Sydney Bristow, mas no quesito trama e desenvolvimento, ambas não são tão distantes. Porém, é exatamente, pela grande distinção de Annie, que enxergo tanta qualidade em C.A. Desde seu começo, a estruturação da história buscou abordar uma outra perspectiva da espionagem, na realidade, uma visão mais enfatizada na dinâmica e política hierárquica que envolve a C.I.A. do que, exatamente, o mundo da espionagem. E esta é a principal razão para que a série conquiste o carisma do público a cada temporada, por tentar criar um novo cenário para um tema que, de certa forma, encontra-se batido no universo cinematográfico e dos seriados.

A ideia de inserir uma personagem que, simplesmente, acabou de sair do seu treinamento na “fazenda” e, nem de longe, fora recrutada por ter habilidades excepcionais, era ousada e ao mesmo tempo complicada. Annie Walker fora moldada do barro, com uma única característica marcante, o carisma. Além, de não ter qualquer grande genialidade para se destacar como espiã, a agente fora aliciada com uma idade acima do comum, principalmente por interesses burocráticos, e não era vista para atuar ou compor grandes planos da agência.

Para muitas pessoas que assistem à primeira e a quarta temporada de C.A., há de se notar um contraste gigante tanto na personagem de Annie quanto na própria estrutura da série. E até mesmo, por esta razão, muitos acreditam que Covert Affairs mudou, por sentir necessidade. Eu confesso que não faço parte deste grupo, minha maior admiração na série está, exatamente, em ver Walker durante a primeira temporada como uma mulher que se atrevia a trabalhar para o governo, e assistir em Trome Le Monde uma verdadeira espiã, educada, treinada e orgulhosamente, amparada pela C.I.A.

É simples, mas de grande agrado, a criação desta temática onde o James Bond ou melhor, o Ethan Hunt não possui inúmeras “bugigangas” surreais para lhe socorrer, ou mesmo habilidades que corrompem as leis da física para sobreviver. Desde suas primeiras missões, para sair das enrascadas que estava envolvida, Annie contava com a excepcional habilidade em sorrir e correr, além de possuir um pouquinho de sorte quando os dois recursos não resolviam.

Mas como tudo tende a ficar mais sério e complicado, a vida de Walker embaraçou-se drasticamente desde que suas missões alcançaram êxitos além do esperado. Grande parte deste sucesso veio da irritante persistência da agente, mas também por sua capacidade de pensar além do ordinário para entender as trapaças e artimanhas que envolvem os jogos de espiões. Sua evolução foi tanta, que desde a morte de Jai Wilcox em Hang on to Yourself, Annie não é mais uma novata tratada com cuidados e precauções, a partir de então, ela fora lançada no fogo cruzado e aprendera a viver sob o lema do “é matar ou morrer”. Aprendizado que Walker desenvolveu muito bem, para vingar-se de Lena Smith e Henry Wilcox, o grande inimigo e vilão da quarta temporada. Questões à parte sobre o trágico e simbólico desfecho do grande traidor do ano, o fato é que Henry fora o primeiro oponente que Annie matou a sangue frio. Não houve legitima defesa, ou um disparo efetuado pela emoção do momento. O assassinato do ex-diretor da C.I.A. não foi planejado, mas foi desejado e executado, sem qualquer hesitação por Walker. Logo surgia o grande dilema:

Até que ponto Covert Affairs estava preparada para dar este salto com sua protagonista?

A pergunta só poderia ser respondida na quinta temporada da série… Mas, antes tarde do que nunca! A espera foi longa, mas o momento tão aguardado chegou…

Shady Lane foi ao ar na última terça-feira, e mesmo antes de qualquer spoiler ou informações sobre o episódio, tudo o que se podia imaginar era que esta première já nascia com uma extrema responsabilidade: dar continuidade ao desfecho da excepcional SF de Trome Le Monde, e se comprometer a mostrar o impacto da última aventura de Annie Walker, em sua vida pessoal.

E o que posso dizer? Bem… Covert Affairs não se esquivou, mas pagou um preço caro por isso.

Quando penso em uma palavra para definir esta première: sombrio, é o adjetivo que me vem em mente. Shady Lane foi tenso desde seu início, principalmente pela necessidade de abranger as consequências das decisões de Annie. Desde o momento onde ela forja a própria morte, até o instante onde larga o corpo de Henry, em um beco qualquer de Pequim. E estes impactos não poderiam ser menores ou superficiais. E o primeiro choque desta nova mulher/espiã Walker, foi sentido no relacionamento com Auggie.

Para que todos me odeiem de vez, nunca me agradei com o relacionamento da dupla. Pra ser sincera, no começo não tinha muita opinião, mas ao decorrer da quarta temporada, simplesmente detestei o que foi feito. A relação Auggie e Annie era, sempre foi, totalmente estruturada em uma amizade que nasceu antes da parceria profissional. Anderson foi o primeiro a se comunicar com Walker quando esta chega na C.I.A, e também foi o primeiro a lhe estender a mão oferecendo ajuda, em suas piores dificuldades. Quando C.A. decidiu investir em uma relação romântica, já era sabido que se aquilo não desse certo a amizade do dois não poderia voltar a ser como era. E olha aí o resultado!

A química da dupla sempre foi mais envolvente como parceiros e amigos, pular esta barreira do relacionamento para “criar raízes”, ao personagem de Annie, acabou sendo desnecessário e não resolveu muito, psicologicamente falando. Afinal, a última temporada foi a situação onde Walker mais se afastou da agência e do país. Ainda que tenha entendido os objetivos da série, (na época), confesso de coração aberto que estou muito feliz com o rompimento deste casal. E espero que seja definitivo.

Mas é lógico que o término com Auggie não poderia e não seria o maior problema de Annie. Então temos o primeiro “drama” da temporada… Não sei exatamente, qual é o problema psicológico de Annie, (abro espaço para todos os comentários dos médicos de plantão!). Porém, é possível compreender que suas crises de pânico ocorrem quando ela se encontra em situações semelhantes a que ela esteve quando perseguia Henry, na China. O ambiente de becos, ou ruas apertadas e com pouca iluminação, associados à qualquer tipo de perseguição ou correria, provoca uma crise, consideravelmente problemática, para uma agente de campo. O cenário criado para mostrar os problemas físicos de Walker acaba se tornando o “tempero” necessário para instigar a curiosidade sobre os quatro meses de sumiço da espiã. O que aconteceu em sua vida além de ficar observando a praia?

Alguém levanta alguma teoria?

Mas não vale ser mantida em cativeiro e torturada pelos chineses. Afinal, esta história é do Jack Bauer.

Como notícia ruim não caminha sozinha, Joan e Arthur Campbell mal tiveram a oportunidade de curtir o primeiro filho. Com o afastamento pela licença e o sucesso na operação de Annie e Auggie, na China. Calder decidiu colher os frutos maduros, e não sentiu muito remorso por tomar o cargo de Joan… Eu confesso que gosto de Michaels, e até acho mesmo que ele joga limpo. Porém, ninguém é santo e alcança um patamar de tamanha relevância na C.I.A. passando a “mão na cabeça” dos amigos. Na realidade, acredito mesmo na afirmação de Calder quando ele disse que não queria passar por cima de ninguém para crescer na agência. Além do mais, todos nós sabemos que ele foi o primeiro a trazer Joan de volta quando a crise sobre o caso Henry Wilcox perdia o controle, e Braithwaite estava na liderança da D.C.S.

E vou mais além, concordo em gênero, número e grau, quando Michael “cutuca” a colega, afirmando que Arthur não lhe ajudou em nada, porque é verdade. Quando a crise alastrou a agência, antes mesmo de correr qualquer risco e ser “retirado” do cargo, Arthur pediu demissão, e a responsabilidade de assumir a “bucha” ficou por conta de Joan.

Gostando ou não, a coordenadora do D.P.D. é vista como alguém que já foi longe demais, exatamente, por ser uma mulher. E Covert Affairs gosta de expor este preconceito dentro da agência, principalmente para mostrar as características de uma instituição de extrema relevância para a segurança nacional. E que apesar de se inovar e reestruturar, seus diretores continuam a manter a perspectiva arcaica e amedrontada, de quem não aceita ou respeita o potencial de um profissional, ao extremo, se este não for do sexo masculino. É claro que esta percepção está mais centrada aos “manda chuva” da casa, quando voltamos ao cenário aonde Annie atua, sabemos que, enquanto agente de campo ela terá a oportunidade de evoluir e atuar em crises cada vez mais complexas e relevantes à segurança da nação.

E falando neste assunto, vamos comentar o “caso da temporada”, que brilhantemente se apresentou lembrando-se de casos passados, já abordados pela série. Nesta situação em especifica, C.A. retornou com o personagem de Khalid Ansari.

Para quem não se recorda, Khalid foi o vilão que protagonizou o caso investigado por Annie e Eyal, durante a terceira temporada. O pai dele, Omar Ansari, mandou matar sua namorada. Walker conta a história para Khalid em Lady Stardust, e acaba deixando o terrorista escapar vivo, alegando que após aquela informação ele mataria o pai para a C.I.A. No episódio desta semana, Khalid acaba sendo utilizado como um “estopim” para revelar as primeiras informações de que alguém, ou um grupo muito poderoso, e detentor de informações altamente sigilosas, está atuando contra a C.I.A.

Vejo neste primeiro caso da temporada uma questão bem interessante. Se durante as quatro últimos anos vimos Annie viajar pelo mundo, em busca de informações, conexões, parcerias, derrubando inimigos e terroristas. Aparentemente, o foco desta quinta será o solo americano. Parece até simples atuar dentro do próprio país para alguém que já foi prisioneira na Rússia, mas a verdade é que não é. Quando se trata de investigar o inimigo estrangeiro, qualquer suporte é pouco na perspectiva do governo. Porém, quando o assunto se volta para o próprio território, tudo é mais delicado, porque o poder irá falar mais alto.

Eu gosto desta aposta, assim como gostei do cenário criado. Apesar o velho e eterno clichê do terrorista estrangeiro, a maneira que o episódio optou para transmitir a dramaticidade da situação foi espetacular… Não sei se vocês se recordam, quando na segunda temporada, o professor de Annie (Dr. Mark Ramsay) foi morto. Ao comunicar a morte do agente, Arthur compara o número de mortes da C.I.A. com o restantes das instituições que compõem a força de segurança do país. E os valores são gritantes, enquanto a polícia e o exército contavam baixas na casa do milhar, Arthur diz que o professor de Walker é a baixa de número 103 da agência. Agora, imaginem este número de casualidades fatais ocorridas em mais de meio século. Então, em único evento, a agência perde 12 de seus especialista com um ataque terrorista. O impacto é muito grande, principalmente por se tratar de uma instalação sigilosa, o que destina o culpado a alguém do alto escalão da agência ou do governo… Mais uma vez, Annie sobrevive por pura sorte.

Eu não encerraria este texto sem comentar sobre o novo homem na vida de Walker, Ryan McQuaid (Nic Bishop). O cara conversou com a espião por menos de cinco minutos, mas já foi suficiente para se encantar, (não se esqueçam do carisma!). Mas a verdade é que a situação se faz bem compreensível, afinal de contas, Ryan toca em um tema delicado e que será trabalhado nesta temporada. O fato de que quanto mais espião, mais o indivíduo mergulha em seus disfarces e mentiras, alcançando um ponto aonde não se reconhece a face da verdade. Provavelmente, Annie irá atravessar esta fase, começando pela “pequena mentirinha” que ela não hesita e nem se envergonha de afirmar a Auggie.

Não há nada a dizer, você pode confiar em mim”

A questão é, até quando Anderson continuará confiando em Walker.

Em uma avaliação geral, Shady Lane cumpriu muito bem o seu papel de première. Montando todo o cenário e contexto da quinta temporada de Covert Affairs. Ainda que fora um episódio mais tenso do que o tradicional, a verdade é que a série não “tira o pé” e avança intensamente, na evolução dos casos, da protagonista e da política burocrática que preenche, de forma genial, o pano de fundo do seriado. Eu gostei muito do que vi e continuo apostando alto neste novo ano. Se a cada temporada somos surpreendidos, este ano temos grandes chances de admirarmos, ainda mais, a nova postura líder e muito mais intensa de Annie Walker. E ao que tudo indica, mais ameaçadora e impetuosa contra os inimigos.

Alguém ousa desafiá-la?

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