Nada é mais doloroso do que a percepção do próprio deslocamento.

Depois de um episódio focado em um flashback, Penny Dreadful tinha que voltar a andar. Velhas tramas precisavam ser fortalecidas, e novas tramas tinham que surgir. E foi golpe de mestre focar na estranha dupla formada por Dorian Gray e Vanessa Ives, e melhor ainda fazê-los contracenar em um jardim botânico. O aroma das plantas caracterizaram o andamento da conversa, uma esperteza do roteiro em colocar dois personagens tão profundos na presença dos mistérios que o olfato proporciona. O desafio que Dorian tanto procura é encontrado em Vanessa. Os diálogos dos dois, sempre cheios de tensão e erotismo, são incríveis. Cada palavra tem várias conotações, intencionais por parte dos dois, e isso reforça a estranha “dança” dos personagens. Eles sabem de suas forças e auras de mistério, e jogam um com o outro em uma mistura de flerte e disputa. Vanessa desconhece a vida hedonista ao extremo de Dorian, e talvez não se adapte a isso quando o conhecê-lo melhor (o que, lógico, é só questão de tempo). E sequer passaria pela cabeça de Dorian as atividades de Vanessa como diplomata do demimonde, mas aí seria algo que até alguém como ele teria dificuldades de lidar. Até para alguém hardcore como ele, viver entre vampiros e monstros à espreita seria algo assustador.

Falando em vampiros, é mostrado que a transfusão de sangue entre sir Malcolm e Fenton é ineficaz, ou não eficaz o suficiente, mas leva o grupo a compreender mais claramente o que se passa na cabeça de Fenton. E, por consequência, considerar a hipótese de que o moleque possuído se deixou ser capturado para aproximar seu mestre de Vanessa, inegável objeto de desejo por todas as formas de mal que estão presentes na série. Fenton escapa, e o mestre vem ao seu encontro. A caracterização do vampiro é uma obra de arte, trabalho louvável da equipe de maquiagem. Sir Malcolm acaba matando o menino, e com isso perdendo parte do processo de investigação sobre o mal que o afligia. Entretanto, ele talvez não fosse mais necessário, porque essa mesma investigação mudou de figura quando os planos do mestre foram se esclarecendo. Sir Malcolm já compreende que Mina pode ser caso perdido, mas os novos contornos dessa busca o impedem de parar. Mesmo com a mudança de rumo, saindo do científico para o quase completo paranormal, foi bem-vinda a e entrada em cena do mais conhecido que a noite de Paris professor Abraham van Helsing, a grande referência “acadêmica” em vampiros, para trabalhar com o jovem e ambicioso Victor Frankenstein. Os dois são uma grande dupla, e espero que tenham mais momentos juntos.

Outra personagem que teve um grande momento no episódio foi a nossa amada Brona, que teve seu dia de Eliza Doolittle ao ir ao Grand Guignol com Ethan, e impressionar-se com o sangrento espetáculo de terror apresentado. Aliás, a reação de Ethan a uma peça sobre lobisomens foi tão “…” que, novamente, volto a duvidar sobre uma possível licantropia.

Após a peça, Brona é puxada de volta à realidade quando Dorian Gray e Vanessa chegam para conversar com Ethan. Deparar-se com Dorian, o homem no qual ela cuspiu sangue durante uma transa dois episódios atrás, relembra a nossa amada irlandesa que ela está à margem do grupo no qual Ethan está inserido. A vida é tão cruel com Brona que ela teme estabelecer laços com o americano. Para ela, é menos arriscado resignar-se em sua vida doente e precária do que se iludir em um relacionamento que pode não resistir às diferenças, à tuberculose e ao passado dela. Ah, pobre Brona, não sabe que ela é a mais normal entre todos em Penny Dreadful. Até o presente momento, ela é a personagem mais humana, em suas falhas e vitórias.

Como Ethan não consegue conter Brona em seu autoinfligido choque de realidade, ele deixa-se acompanhar Dorian em uma incursão a um outro submundo, dessa vez apenas humano, da capital inglesa. E esse submundo parece ser mais chocante do que o outro, povoado por monstros. O showman americano não é santo, nem inocente ou hipócrita para ficar horrorizado com carnificinas, ainda mais a de meros ratos. O que o levou ao enjoo e ao choque foi perceber que as pessoas conseguem superar a monstruosidade das feras e deleitarem-se com a morte e com o sofrimento. Em sua busca por aventura e viver a vida intensamente, Dorian não leva a sério o que se passa ao seu redor. Para ele, a crueldade daquele submundo é apenas mais uma forma de aproveitar sua juventude.

Quando Ethan e Dorian estão juntos tomando uns bons drink, uma nova tensão irrompe, para nossa surpresa. E ela vem da sexualidade magnética e irresistível de Dorian Gray. Orgulhoso por deixar um ponto de interrogação na cabeça das pessoas, fascinadas por sua beleza, erudição e estilo de vida, Dorian tira proveito ao máximo. E nem Ethan conseguiu escapar disso, levado pela lábia do rapaz, que incitou o tesão e a raiva nele. É incrível a forma que Penny Dreadful junta o sexo e o ódio, fazendo com que a tensão sexual se torne um personagem na trama. Melhor: mais do que um personagem, uma divindade. Entre os seres ancestrais que veem aquela Londres de cima e influenciam no destino dos personagens, a tensão sexual é a mais desafiadora.

O envolvimento dos dois beneficiou muito o personagem de Josh Hartnett, ao criar uma situação realmente profunda e desafiadora para o ator. Além disso, é um ótimo passo para a série, que coloca a bissexualidade na trama, e ainda mais importante, através do personagem que menos se esperava. Demimonde foi um episódio disposto a andar mais do que o episódio anterior, e deu passos largos o suficiente para deixar muita coisa no ar – o que é muito bom.

*

01×05: Closer than Sisters 

Depois dos vários jawdroppers do quarto episódio, Penny Dreadful deu uma nova quebra no andamento da trama para, novamente (e dessa vez, bem melhor), focar no passado de um personagem. Talvez tenha sido uma jogada esperta em não dar continuidade a tudo que aconteceu no episódio passado, afinal, o encontro de Ethan e Dorian Gray é algo que, ao mesmo tempo que tem seu impacto enorme e implicações múltiplas, não deve ser visto como algo que mude radicalmente os rumos da série. O que Penny Dreadful menos precisa é de gente shippando personagens, e Dorian pode virtualmente se relacionar sexualmente com QUALQUER outro personagem.

A intensidade das emoções de Vanessa, já perceptíveis nos episódios anteriores, é mostrada desde suas raízes nesse episódio. A mulher solitária e perturbada já foi uma criança inocente, mas sempre diferente das outras, especialmente de sua melhor amiga e vizinha Mina. A queda dessa inocência aconteceu quando ela encontrou a mãe transando com sir Malcolm, e sentiu-se bem, a certo modo, ao ver a cena.

E, na medida em que crescia e amadurecia, Vanessa foi assimilando o seu não pertencimento àquele mundo. Ela, com os dois pés na realidade e no pessimismo, via com desdém as relações de cortesia e polidez dos outros. A paixão pelo oceano, mortal e fascinante, era o grande símbolo disso. Não há nada mais frustrante para alguém deslocado socialmente, uma pessoa “diferente” das que a cercam, do que ter conhecimento desse deslocamento. A insatisfação com a falta de oportunidades leva ao surgimento da inveja, embora o invejoso não se assuma ou não se perceba como tal. O que para os outros é recalque, para o recalcado é o sentimento de injustiça. E isso não é conjectura, é experiência pessoal. Como bom rancoroso e recalcado que sou, me solidarizei com Vanessa. A sua vontade, e por fim êxito, em destruir o relacionamento de Mina foi uma forma de extravasar a raiva e a inveja que ela sentia da amiga, que “não merecia” o futuro que teria. Ali, ela destruiu todo o convívio entre os Ives e os Murray, jogando na cara de todos que o jogo de aparências poderia ruir a qualquer momento. E, com isso, acabou por cair na vertiginosa espiral de escuridão que tanto lutava. Para a sociedade, Vanessa era uma desequilibrada, e a única maneira que acreditavam ser possível para ajudá-la foi a internação em uma clínica psiquiátrica. Lá, ficou claro que seu caso era quase perdido para o olhar humano. Ninguém sabia explicar o que Vanessa tinha, e muito menos o que Vanessa ERA, então medidas extremas eram as únicas soluções plausíveis.

Após o procedimento cirúrgico (não me arrisco a dizer lobotomia porque não entendo o assunto o suficiente), Vanessa entrou em estado catatônico. Um dos poucos momentos que ela sai desse estado/escolhe sair desse estado é para avisar Peter que ele vai morrer na África. O fim dessa macabra contemplação do nada acontece quando a constante presença do obscuro que acompanha Vanessa se manifesta para ela. Não entendi muito bem o motivo de o demônio ser uma personificação de sir Malcolm, porque ainda não o vejo como uma pessoa má. Claro, é muita estupidez minha acreditar em maniqueísmos como “bom” e “mau”, mas é provável que tenha simbolizado o novo caminho que Vanessa teria que andar e, por consequência, de mãos dadas com o mal que sir Malcolm é tão próximo. E não há melhor forma de selar esse destino em uma série como Penny Dreadful do que o sexo. Vanessa, de certa forma, abraçou o seu destino como mulher do submundo, o único lugar que a faria ter as aventuras que tanto quis. Não é nem perto do que ela desejava, mas é só o que ela pode fazer.

A origem e os motivos da relação entre Vanessa e sir Malcolm, é, portanto, esclarecida. Ambos têm dívidas a cumprir com Mina, amiga e filha tanto amada quanto tripudiada. E essa relação, permeada por sentimentos como respeito, paternidade e rancor, é mais do que uma espécie de contrato entre os dois.

As minhas críticas ao episódio focado nos personagens Frankenstein e Caliban, sobre os dois não terem força suficiente para segurarem por si só o foco da trama, são inaplicáveis aqui. Eva Green, uma força das artes, poderia ter protagonizado um episódio duplo, triplo, quádruplo e ainda assim dominar por completo. O mestre vampiro quer Vanessa, e ela é a única personagem que consegue circular, embora sem muito controle, entre os mundos conflitantes. Como ponto nevrálgico da série, é obrigatório que seu personagem seja o principal. Penny Dreadful não é uma série burra, e jamais daria mais espaço para um personagem apenas por causa de seu apelo ou carisma. Há o entendimento de que as tramas precisam passar por Vanessa, e Eva Green é genial ao segurar essa barra. E aqui, amados leitores, reforço o coro: EMMY PARA EVA GREEN!

p.s. 1: Não esqueçam, obviamente, que esse Emmy só pode vir no ano que vem, pois Penny Dreadful é inelegível para este ano. Então vamos antecipar para “Globo de Ouro para Eva Green!”.

p.s. 2: Desculpem pelo atraso nas reviews. Está muito frio aqui no Rio Grande do Sul. E a Copa do Mundo está desconcertante. E eu tenho a tendência de colocar meus atrasos em fatores externos. Mas que tá frio e a Copa tá absurda, tá.

Artigo anteriorArrow | Novos personagens na 3ª temporada são revelados
Próximo artigoOrange Is The New Black 2×05: Low Self Esteem City