Todos os problemas são entediantes. Até que eles se tornam seus.
Com uma das frases mais sábias já proferidas pela série, Red mostra o calibre de sua personalidade e de sua importância para Orange Is The New Black. Mesmo com sua participação discreta em Low Self Esteem City (“Presas fáceis”), a personagem de Kate Mulgrew foi quem mais marcou o quinto episódio da segunda temporada.
Isso porque ficou muito claro que Red, além de estar brilhando nos diálogos como a nova roomie de Piper, é a única detenta com calibre para entender e enfrentar as artimanhas de Vee, que continua sendo uma antagonista maravilhosa nesta temporada. Nota-se claramente que a série está construindo um momento para o confronto direto entre as duas e colocando Red como uma espécie de heroína em Litchfield, nossa esperança de ver alguém destronando a nova e extremamente ardilosa companheira das nossas meninas.
Falando em ardil, preciso tirar o chapéu para Vee nesse episódio. Eu ainda não faço muita ideia do que essa mulher está tramando, mas o fato é que sua capacidade de ler Gloria e entender como se comportar com ela é louvável. E é delicioso ter uma personagem assim na prisão, porque estamos muito acostumados com um grupo de mulheres que tendem a ser impulsivas, agressivas, briguentas e diretas. Vee é completamente diferente de tudo isso, ela finge, ela trama, ela manipula as pessoas em vez de confrontá-las. E, como em terra de cego, quem tem um olho é rei, sem concorrência alguma, o método de Vee acaba elevando-a rapidamente a uma posição de comando na cadeia.
Para compreender por que o plano de Vee deu tão certo, é necessário analisar o passado de Gloria, e essa foi a jornada que o quinto episódio nos propôs. Devo dizer que raramente fico tão tocado com uma história contada por flashbacks como fiquei com a de Gloria, mas sou completamente suspeito pra falar porque o assunto violência doméstica e a opressão física à mulher me sensibiliza demais há anos. E essa sensibilidade foi potencializada por ter sido uma história escolhida justamente para Gloria, uma personagem que eu apenas via, mas não enxergava até o momento, e por isso me surpreendeu profundamente. Quem vê aquela mulher forte e rainha das latinas da prisão de Litchfield jamais imagina tamanha vítima da opressão masculina na vida anterior à condenação.
A história de Gloria cai como uma luva no contexto social mundial, visto que, segundo o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), a maior causa de violência contra a mulher na América Latina é justamente a doméstica. Não me entendam mal, esse é um problema mundial e extremamente comum nos EUA, mas que traz consequências ainda mais graves à economia e à saúde pública daquele antigamente chamado de terceiro mundo. Culturalmente, essa é uma causa preocupante na comunidade latina (assim como na África), e não é raro ver imigrantes desses países sofrendo esse problema e engrossando as já robustas estatísticas dos EUA.
Orange Is The New Black usa o pouquíssimo tempo disponível de seus flashbacks para captar com extrema competência a situação pela qual passam essas mulheres. A maneira como os agressores voltam como cães sem dono (o mesmo olhar de cão sem dono que Vee usou e no qual novamente Gloria caiu como uma pata), a ilusão de que “enquanto não forem os meus filhos, eu aguento” que apenas leva à constatação de que, sim, cedo ou tarde a violência chega às crianças, e esse costuma ser o limite (quando há limite) para que as mulheres deem um basta naquela situação.
Como se não bastasse, não há como não morrer de pena de Gloria ao vê-la saindo algemada enquanto seu agressor fica impune, o fim mais comum que as situações reais costumam ter, mesmo. É complicado, porque a até então comerciante realmente era uma criminosa, mas é o tipo da situação que nos faz pensar “que sociedade é essa que pune tão eficazmente Gloria por fazer o que fez e deixa um espancador de mulheres livre?”. É a vida, e a vida nem sempre é justa.
Para minimizar nossa frustração, a série insere uma dose de sincretismo religioso (que muita gente pensa que é coisa só do Brasil) para gerar um final de impacto que funciona perfeitamente bem, reduzindo o antigo agressor de Gloria (junto com todo o dinheiro que ele tentou roubar dela na loja) a cinzas quando ele invade o local para tentar se aproveitar da mulher pela última vez.
Não me lembro de outro episódio que se encerrou com o flashback e, mesmo que haja, é coisa rara em Orange Is The New Black e só mostra a força da história do passado de Gloria dentro da excelente narrativa de Low Self Esteem City, que tanto carecia de um final “feliz”. Não sabemos se é Deus, Jesus, os orixás, as velas ou simples obra do acaso, mas que os santos de Gloria são fortes, isso não podemos negar! Resta saber se – e como – essa força agirá sobre os futuros acontecimentos em Litchfield. É esperar pra ver!
Observações:
– A rivalidade entre Nicky e Big Boo é até divertida, mas está começando a me cansar. Principalmente porque era óbvio demais que a história com a guarda Fischer não ia render nada.
– A história de Bennett e Daya não está apenas chata, está devagar, quase parando… e pensar que eu gostava tanto desse casal na temporada passada!
– Healy, Caputo, Bennett, Pornstache (sdds), Fischer e Figueroa… não consigo descrever o brilhantismo de uma equipe de roteiristas que cria um grupo tão maravilhoso de administradores de uma prisão! Por mais que estejam resignados ao segundo ou terceiro plano, adoro tudo que envolve esses personagens, e mal posso esperar pra ver o espanhol de Fischer em ação!
P.S. – Pessoal, infelizmente o Cléverton teve problemas pessoais e não pôde dar seguimento às reviews durante a minha ausência. Mas estou de volta, e agora voltaremos à programação normal. Obrigado pela compreensão, e até a próxima!
Próxima review: 2×06: You Also Have a Pizza – 23/6















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