As drásticas consequências de as ações serem guiadas somente pelo destino.

Quando Garcia sofreu uma tentativa de assassinato lá na terceira temporada, ela disse que uma de suas filosofias de vida era o fato de tudo acontecer por um motivo. Certamente, a situações em que não há maneira de evitar o inevitável, como disse Bill nos bilhetes que deixava para suas vítimas. Muito se deve à noção de que o destino é algo incontrolável e impossível de ser determinado de uma forma prática, visto que é justamente o fluxo das ações subsequentes que é capaz de corroborá-lo ou negá-lo. Existem, obviamente, aqueles momentos em que se acredita que o universo está conspirando a favor ou contra o que se julga como ideal ou correto. E, nesse meio termo, são constatados os questionamentos da incerteza. O que realmente teria acontecido se aquilo não tivesse sido feito, ou vice-versa? Partindo destes preceitos, Criminal Minds se comprometeu a abordar esta ideia ambígua – contraditória ou explicativa, dependendo do contexto – de destino, num episódio que não foi fantástico, mas apenas interessante por suscitar e misturar tantas questões sem resposta, principalmente no mundo dos serial killers.

Bill não foi o primeiro Unsub de Criminal Minds que utilizou a lógica de as pessoas estarem simplesmente no lugar errado na hora errada. Foyet, por exemplo, repreendeu um simpático casal de idosos ao se passar por um policial, alegando que este era o motivo da advertência. Mas a verdade é que, neste mundo perverso, algumas situações só podem ser explicadas por essa razão difícil de ser aceita com facilidade. Claro que há o fator periculosidade envolvido ao passar por uma rua deserta pela noite, como um dos mais notórios criminosos da história – Jack, o Estripador – utilizava, mas analisemos o caso deste vigésimo segundo episódio. Aquelas pessoas foram simplesmente escolhidas numa fila de um estabelecimento aleatório porque Bill pensava que tudo estava dando certo em suas vidas, enquanto que, na sua, o câncer terminal e distância da Grécia tornavam tudo mais triste. Bill somente acreditou que aquelas pessoas estavam felizes, e nem ao menos tinha uma comprovação disto. Dessa forma, o destino de uma maneira metafórica e trágica – seja pelo recado posto na caixa do correio, seja por estar naquela cafeteria naquele dia específico – acabou ceifando sonhos e vidas inteiras pela frente.

São estes momentos que levam o telespectador a refletir sobre a efemeridade da vida. Ao passo que não há como prever o dia de amanhã, não se deveria encarar os fatos com um planejamento interminável, mas esperançoso. Obviamente, deve-se agir com precaução porque muitos erros são irreparáveis, mas existem tantas coisas que adiamos por uma maligna insegurança, quando temos dúvida de que aquilo pode realmente dar certo. Isso se expande não somente a aspectos da vida profissional, já que todos naquela cafeteria tinham planos para o futuro, mas também da pessoal. O fato é que todos ali tinham sonhos que não foram concretizados por um grande problema chamado destino.

Mas será que este destino realmente é fundamental? Será que nada acontece por acaso? Como diria um provérbio, aquele que nasceu para ser enforcado nunca será afogado, ou seja, é possível que nossas ações já estejam traçadas desde os primeiros momentos e convirjam para um ponto particular? Muitos especialistas possuem diferentes opiniões a respeito e inclusive as áreas mais modernas da ciência já tentaram esclarecer isto, como a Teoria da Relatividade de Einstein. Entretanto, presumo que cada um deve acreditar que o seu maior sonho é o seu destino, ou melhor, o objetivo mais desejado. Claro que existem deslizes na trajetória intensa do fluxo da vida, mas tudo pode ser direcionado, intencionalmente ou não, para uma circunstância específica. As concepções acerca deste tema são complexas e, por esse motivo, é um conceito extremamente subjetivo, razão pela qual você, leitor, pode discordar dos ideais de Bill.

É terrivelmente complicado tentar explicar todo o ocorrido nestes vinte anos da vida de Bill, elementos que o transformaram de um simples e pacato trabalhador honesto a um serial killer em uma jornada de vingança. Como correlacionar a viagem perdida para a Grécia, a doença de sua mãe e o câncer? Tudo isso moldou um Unsub obcecado pelo país europeu e sua respectiva cultura, caracterizando-o como metódico e sistemático, isto é, extremamente organizado. Embora ele tenha perdido a oportunidade mais incrível de sua vida por uma noite de amigos – de forma proposital – foi aquilo que o salvou de um acidente fatal, como sugere o título do episódio. Esta mesma quase fatalidade impedida pelo destino desencadeou um número grande de mortes por esse mesmo motivo. Constata-se, assim, que este destino pode ser mais contraditório do que imaginávamos, afinal, como disse Jean de La Fontaine, a pessoa muitas vezes encontra o seu destino no caminho que tomou para tentar evita-lo.

Embora este episódio tenha provocado esta profunda reflexão, ele incomodou em alguns detalhes particulares, principalmente por serem inverossímeis em situações reais, mas importantes para garantir uma investigação mais complexa e desafiadora. O primeiro deles refere-se ao fato de os estabelecimentos da cidade não conterem câmeras de segurança, salvo somente a cafeteria em que todas as vítimas se encontravam ao mesmo tempo. Enquanto isso, foi muito estranho o fato de o amigo de Bill nem sequer suspeitar porque ele não estava bebendo e comemorando no primeiro dia de aposentadoria. Sei que se tratava de um momento de euforia, mas qualquer ser humano naquela situação pediria pelo menos um brinde.

Enquanto a equipe tentava impedir as consequências do exaustivamente discutido destino, um agente perguntava-se o fato de mostrar para os outros como o destino o modelou, definindo-o como um grande profiler. Ele sempre prendeu homens ruins, mas um destes serial killers havia assassinado a mãe do seu filho. Nesse caso, qual seria a decisão certa a se fazer? Mostrar para as crianças o verdadeiro trabalho de um agente da BAU ou privá-los dos grandes sofrimentos que eles podem ter se efetivamente adentrarem na arte do profiling? Essa dúvida cruel permeou na cabeça de Aaron por alguns instantes, gerando até questionamentos com Rossi, levando a uma belíssima cena final.

Foi muito legal ver aquele imenso sorriso no rosto de Hotch enquanto ele tentava descobrir quem havia escondido o grampeador, mas o melhor ainda estava por vir. O encanto daquelas crianças ao ver um trabalho tão interessante, com brilhos nos olhos, talvez os mesmos que eu tinha quando comecei a ver a série e tenho até hoje, foi algo admirável. Toda aquela explicação, na linha básica da análise comportamental, que atraiu o meu interesse há alguns anos, foi enfatizado para crianças tão inocentes num mundo tão apaixonante e angustiante como o da BAU. Fazendo uma analogia com o caso da semana, seria o destino capaz de gerar toda a felicidade daquela criança, cujo sonho era se tornar uma profiler? Pelo menos ela já foi capaz de elaborar um perfil tão preciso sobre a professora ainda muito nova, ou seja, os indícios estão ali.

Buscando uma associação com o conceito de destino – já explorado várias vezes nestes nove anos, mas agora de uma forma mais profunda – Criminal Minds conseguiu construir um episódio interessantemente bom por entreter com assuntos aparentemente tão simples, mas tão complexos quando analisados. Após diversas tramas procedurais com o fechamento do arco envolvendo JJ e Cruz, espera-se que a season finale cumpra as expectativas depositadas nela, demonstrando que Criminal Minds tem se consagrado como uma das melhores séries do gênero investigativo.

Profiling… 

– A primeira parte da season finale já foi ao ar, mas a review dela sairá no máximo até o final de semana. Por favor, não comentemos sobre aqueles incidentes da promo, sé é que vocês me entendem.

– O Reid me assusta. Foi simplesmente incrível a forma que ele começou a explicar como o cérebro dele processava aquela infinidade de imagens nos vídeos. Acho melhor que nem saibamos a resposta…

– Foi hilária a cena que o Morgan pediu para o Reid contar para o policial o que ele havia feito pela manhã. Nada mais nada menos que ler Guerra e Paz pela segunda vez, agora em russo. Absolutamente normal! Todos conseguimos fazer isso.

– Eu estava sentindo muita falta das frases desse gênio. A forma que ele fez a conversão de polegadas e metros, fazendo a associação com as idades das vítimas, foi fenomenal.

– Como o Jack cresceu! Ainda tenho na cabeça a imagem daquele garoto que fez o trabalho para o seu pai no centésimo episódio, totalmente inocente… Agora o pai nem mais consegue fazer o perfil dele. Como o tempo passa!

– A raiva que o Rossi construiu foi muito justificável. Deve ser terrível escutar aquela morte pelo telefone enquanto você tenta confortar a vítima, induzindo-a a acreditar que tudo ficaria bem. Essa promessa não cumprida motivou o agente de uma excelente forma.

– Acho que a BAU nunca enfrentou um caso tão complexo quanto o do grampeador. O modo que o Hotch conduziu a investigação e interrogou os suspeitos foi simplesmente fantástico. E, no final, a professora ainda foi alimentar o gato, como o Rossi disse….

– Será que as crianças gostaram da batcaverna da Garcia?

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