Hora de mostrar a que veio.

A parte ruim de passar tanto tempo desejando uma posição acima da qual se está é que as expectativas quanto a ela sobem mais do que se poderia imaginar. Se você quis tanto chegar ao topo da pirâmide, provavelmente não foi apenas para ficar de lá cima admirando a vista. Se era pra chegar, que isso tenha um objetivo específico e que possa te livrar do perigoso sentimento de tédio bem característico dos horizontes alcançados.

Selina não chegou ainda no topo da pirâmide, mas se tem uma coisa que ela conquistou – e que ninguém pode tirar dela – foi o direito de pode começar a subir. Depois de anos e anos amargando a irrelevância de uma vice presidência, ela finalmente encontrou uma brecha que pode levá-la ao cargo mais importante de toda a nação. Algo nos diz, entretanto, que isso jamais vai acontecer, mas enquanto isso nos divertidos vendo essa ilusão continuar devastando toda e qualquer autoestima que essa mulher poderia ter. 

A hora de fazer o bendito discurso anunciando a candidatura chegou. O episódio fez bonitinho, separando as horas para que o suspense do próximo constrangimento ficasse bem perceptível. Em Alicia, tudo foi uma questão de deixar claro, já no primeiro momento como candidata, quais seriam as prioridades e quais os pontos necessários para garantir alguma força nesse lançamento claramente jocoso. Ou seja, esquetes do Saturday Night Live não eram uma simples coincidência. Além de zoar com Julia, queriam zoar também com Selina, que, ironicamente, não vê essa “coisa juvenil”. 

Daí, ficamos imaginando como funciona a cabeça de Selina e sua equipe… Um discurso de força precisa ter umas palavras-chave que conquistem as donas-de-casa e jovens politizados votantes. O que seria mais apelativo do que “Direitos das Crianças”? Aparentemente, para o congresso americano há muito mais apelos que esse. Selina já tinha trazido a militante Alicia para aparecer bem ao seu lado no lançamento da candidatura, mas como sempre, algumas pressões acabam desviando as coisas de seus caminhos naturais. 

Geralmente, Veep encontra seu apogeu nesses momentos. Diante do fato de que havia sido proibida de citar os direitos infantis no discurso, Selina precisa se livrar de Alicia e o trabalho sujo jamais é feito por ela, que manda Amy, que manda Mike, resolver a questão. Claro que resolver conflitos de interesses meio ausentes de caráter não são especialidade da equipe da Veep e Mike logo arruma uma briga e termina chamando Alicia de vaca. 

Embora estejamos vindo de um ritmo de episódios bastante políticos e menos caóticos como de costume, preciso aplaudir a capacidade dos roteiristas de buscar novas possibilidades, onde Jonah, por exemplo, continua sendo inserido nos plots sem necessariamente recorrer ao velho truque do parecia que ia mudar e não muda. O site criado por ele rendeu bons momentos (como Mike implorando pra não ser exposto) e conseguiu reflexão não só nesse, como no episódio seguinte. 

É bem verdade que em Clovis, Jonah vive uma peculiar sensação de spin-off com Silicon Valley, tendo seu site valorizado e destronado em poucos minutos. A visita de Selina ao utópico complexo de empresas multimilionárias, comandada por jovens e com trabalhadores circulando de skates pelos corredores, não poderia ter sido mais debochada. A visita era parte da turnê em busca de apoio e leia-se “apoio para melhorar a imagem da candidata”. 

Mas, tinha um “Smartch” no meio do caminho… O relógio “inteligente” foi um dos maiores achados da temporada até aqui e a cena na sala de reuniões com os resultados de “Meating Selina Meyer” aparecendo na tela foram dos poucos momentos em que a gente realmente esquece a sagacidade da piada e ri. Todas as sequências tinham um detalhe charmoso a respeito do contexto que estava sendo explorado e algo me diz que essa será uma temporada com muitas, muitas viagens. 

Tivemos também a piada com a sexualidade de Gary, que eu infelizmente acho que não vai passar daqui. Por muitas vezes a série mostrou o endeusamento que ele faz da chefe de maneira ligeiramente romântica, o que significa que esse caminho gay não será uma opção daqui pra frente. Acredito que seria muito interessante ver como Selina e o staff se comportariam com um integrante gay no meio dessa corrida pela boa reputação. E além do mais, foi muito engraçado ver todo mundo sendo politicamente correto com ele.  

Ouvi, por exemplo, algumas reclamações a respeito da série “não estar mais tão engraçada quanto antes”, mas ainda acho que existe um ruído na forma como Veep é interpretada. Além de lidar com política, um contexto nada fácil de distorcer sem perder verossimilhança, a estrutura da série é feita para aguçar o raciocínio cômico, o que é muito diferente de invocar o instinto cômico. Veep é o tipo de show que nos faz sentir bem quando termina de ver, porque fomos levados a pensar no humor… E senhores, isso pode ser tão prazeroso quanto simplesmente rir. 

The Shit Wing: Ron Jeremy assinou o mural do Clovis? O que diabos ele foi fazer lá? 

The Shit Wing 2: Rupert Grint pra presidente daria mais certo que Selina Meyer, acho que ficou bem claro. 

The Shit Wing 3: Palmas para a estratégia de Selina para difamar o adversário e provavelmente não vimos o discurso de lançamento da candidatura (que séria outro clássico), por conta da já instaurada mitologia de não expandir os horizontes da protagonista para partes importantes do meio onde está inserida. 

3×05: Fishing

Selina é presa, não predadora. 

Vamos ser honestos… Por que uma pessoa acaba sendo escolhida para um cargo de vice-liderança ao invés de estar ele mesmo liderando? Mas vamos ser honestos mesmo, sem condescendência, admitindo que em alguns casos, as pessoas realmente funcionam melhor no exercício da servidão. Isso não é uma coisa que transmite somente ideias de inferioridade… Na organização do mundo é necessário que alguns obedeçam e outros mandem. É preciso, sobretudo, encontrar a dignidade em submeter-se e abraçá-la como uma virtude. 

Não é o caso de Selina Meyer, vale dizer. Além de ignorar completamente que suas características não são de uma líder, ela passou todo seu mandato de vice-presidente tentando espremer dele uma importância que ele não tinha. De certa forma isso acabou enlouquecendo a mulher, se misturando com esse engano vocacional berrante que bem que poderia ser explicado num “episódio flashback” futuro. Tenho muita curiosidade de saber por que raios POTUS achou, em qualquer momento da vida de Selina, que ela lhe traria qualquer benefício ao seu lado. 

Mas enfim… Se no episódio passado ela lutou para implementar em seu discurso algumas palavras-chaves (e presenças-chaves) que lhe garantissem alguma força, agora ela precisa tentar impedir que gente mais importante que ela entre na disputa pela presidência. E é aí que entra a questão… Se Selina tenta “pescar” Madoxxx para que ele seja o vice de sua campanha, ficamos imaginando em que ponto da história da vida dessa mulher, ela foi importante ao ponto de alguém tentar com ela o mesmo movimento. 

Claro que ela não consegue… Como a boa piada ambulante que é, Selina acaba sendo convidada por Madoxxx para ser a vice dele e aí senhores… Bom, aí alguns palavrões ecoaram fortes pela sala de jantar no austero homem. Sim, porque Selina prefere sentar a bunda num formigueiro do que voltar a ser vice do que quer que seja. Com isso, Veep nos entrega seus dois caminhos mais possíveis: ou veremos essa disputa pela presidência durar muitas e muitas temporadas ou Meyer vai acabar mordendo a última isca que for jogada pra ela e se contentar com nunca receber uma visita do chefe. 

O episódio também encerrou o suspense sobre quem seria o diretor de campanha da toda poderosa. Selina foi ter uma conversa com o cara mais indicado, mas ele pediu a demissão de praticamente todo o atual staff e sabemos como a veep funciona: ela precisa de gente mais imbecil que ela à sua volta e JAMAIS mandaria pra casa gente como Mike, que se masturba várias vezes por dia e leva seu sêmen numa maletinha por todo canto onde vai. 

Sendo assim, acontece o mais óbvio e o cargo fica pra Dan. Como o personagem está sempre agindo na série (sobretudo contra Jonah), achei que essa posição talvez ajudasse Amy a sair um pouco da deriva dos acontecimentos, mas pelo jeito só vamos continuar vendo a personagem falando no telefone com um tom mal humorado até o ano que vem. Apesar de gostar muito de Ana, não consigo entender porque Amy até hoje não se estabeleceu comicamente dentro da mitologia da série. 

Chegamos então à metade da temporada e podemos nos conformar com o inevitável: os roteiristas tomaram uma decisão que estende as possibilidades do programa por muito tempo, sem que grandes eventos precisem acontecer. A partir de agora, viagens, reuniões e apresentações farão parte da rotina de Selina, garantindo um seguimento de temporadas que só vai precisar se apressar se quiser.

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