“Reading Is Fundamental”, and if you don’t have the nerve to play it… you don’t play it. 

RuPaul’s Drag Race é um programa que, apesar de surpreender constantemente (principalmente por sua assombrosa evolução ao longo dos anos), mantém algumas tradições e previsibilidades. O primeiro desafio é de costura; em algum momento você precisará imitar uma celebridade no Snatch Game; se você chegar até a final, gravará um videoclipe de alguma música de RuPaul; um dos mini challenges abrirá a biblioteca e você terá que “ler” suas coleguinhas etc. Outra tradição é: enquanto meia dúzia de queens chegam preparadas para enfrentar esses desafios mais clássicos, outra meia dúzia de iludidas acha que ser linda ou ter um estilo único é suficiente e acabam se condenando ao fracasso por terem que fazer tudo no improviso. Se o Snatch Game da semana passada já não deixou dúvida de quem está no primeiro grupo e quem está no segundo, o mini desafio dessa semana veio apenas para reforçar essa certeza.

Fica cada vez mais claro quem é joio e quem é trigo nessa temporada. Quando o conhecidíssimo desafio da biblioteca começa, somos agraciados com um desempenho cômico muito bom vindo da maioria das participantes… menos Trinity e Laganja. Surpresa!… ou melhor, não.

O mais interessante é analisar como Trinity, pertencente ao grupo das drags mais jovens, se diferencia de outras do mesmo grupo – no caso, Adore e Joslyn. Enquanto Adore tem mostrado uma constante empreitada por melhoras na sua drag persona, absorvendo conselhos e a ajuda de Bianca, e Joslyn mostra uma empolgação natural e genuína com o simples fato de participar e estar no meio de drags até mais famosas (quem não lembra dela toda fã de Courtney no segundo episódio?), Trinity não mostra uma coisa nem outra. Insiste em permanecer dentro de sua zona de conforto e não arriscar dar um passo sequer além dela, justificando sua incompetência com argumentos rasos que na verdade poderiam ser resumidos em: “sou preguiçosa”.

Outro fato interessante foi perceber que nem todas as drags parecem ter “the nerve” (a força) necessária para ser The Next Drag Superstar. Ter nerve é aceitar críticas, encarar afrontas com inteligência e elegância, crescer como drag ao longo do programa, não se vitimizar e rebater ofensas com talento. Nesse sentido, Trinity também fica devendo, porém acompanhada por Laganja e Darienne.

Isso ficou evidente em Trinity quando Ben tentou aconselhá-la a trabalhar sua pronúncia no desafio principal, onde isso seria muito necessário. Ao invés de ao menos tentar melhorar nesse aspecto, Bonet se esquiva e usa novamente o “é assim que eu falo e fuck this shit” card. Mais adiante veremos se foi ou não uma boa atitude.

Já Laganja é uma velha conhecida da nossa gongação. É cada vez mais evidente que Estranja não lida bem com nenhum tipo de ataque, ou mesmo com a menor das críticas. Ao invés de se defender com um bom diálogo, ela faz a linha passivo-agressiva, se coloca como vítima, inventa situações e ofensas que nunca existiram etc. Quando é “lida” pelas colegas, Laganja não consegue rir de si mesma e torna tudo pessoal ao extremo. Imaturidade demais para essa competição.

E Darienne Lake se revelou outra que não consegue muito bem separar as coisas. Ela até acha graça de si mesma nas piadas sobre seu peso, menos quando elas vêm de Ben De La Creme, que, em um plot repentino que brotou da terra direto no ateliê, é a nova rival de Miss Lake. Mesmo não sendo correspondida, Darienne parece ter adotado essa rivalidade como meta primordial.

Vamos destrinchar melhor esse episódio drag por drag, como de costume, rankeadas por ordem de preferência do reviewer. Além do conhecido mini challenge da “leitura”, o desafio principal pediu para que as bonecas criassem versos de um rap entitulado “Oh No She Betta Don’t”, se vestissem inspiradas nas rappers dos anos 90 e gravassem o videoclipe da canção (available on iTunes, claro), com a ajuda das guest judges e rappers Trina e Eve. Só fiquei muito triste por se tratar de um desafio envolvendo música e Lucian Piane não voltar. Ei, Logo, vamos aproveitar toda e qualquer oportunidade para trazer Piane de volta? Ou melhor, vamos ouvir a sugestão do leitor Bruno Saporito e colocar logo ele e a Gillian Jacobs como jurados fixos na próxima temporada, dando merecidas férias para Santino e Michelle? Aliás, fica aqui minha retratação por não ter elogiado Gillian no episódio anterior. Muito bacana ver ela se assumindo uma super fã do programa e se divertindo durante todo o decorrer dele. Gillian é gente como a gente! Por fim, o tema da runway era “Crazy, sexy, cool”, mas também era para valorizar a parte do corpo favorita de cada uma, mas teve gente que não foi de uma coisa nem outra e eu acabei ficando confuso. Vamos lá:

9) TRINITY K. BONET 

Trinity começou o episódio contando para todas no ateliê sobre a história da AIDS e é só para isso que ela serve no programa, né? Continua parecendo uma defunta o tempo inteiro. Para tudo ela se justifica com “Isso não é o que eu faço, não é o meu forte” e girl, ninguém mais tem tempo ou paciência para essa ladainha.

Para variar, foi péssima tanto na hora de “ler” as companheiras quanto na performance de seu rap. Nem a edição milagrosa, que conseguiu salvar algumas queens, foi capaz de dar alguma vida àquele show de horror. Seu melhor momento na semana sem dúvidas foi no Untucked!:

Parabéns Trinity, provando por A + B que minha opinião sobre você não é puro recalque com sua beleza (como drag). Só estar sempre bonita na passarela para mim não é suficiente, e é por esse motivo que eu não engulo a vitória de Tyra na season 2 até hoje. Portanto, espero que T. K. Bonet volte para casa o quanto antes para eliminar qualquer possibilidade de zebras.

8) DARIENNE LAKE 

É sempre muito difícil confiar totalmente na edição, então não posso afirmar que Darienne foi efetivamente a melhor no mini challenge. Porém, as suas piadas que foram exibidas foram realmente as melhores. Ela chamando Adore de burra, porém de maneira bem lenta para a gata entender, foi hilário.

Já a performance no rap, not so hilarious tough. Aliás, todo o resto merece um grande FUEN, né? Darienne foi péssima e o momento mais engraçado foi ela tropeçando na lata de lixo antes de começar a gravar sua parte. Na passarela, estava bonita, porém básica como sempre.

E alguém consegue me explicar esse recalque com a coitada da Dela assim, do nada? Só porque a coitada ganhou – muito merecidamente – o último desafio? Eu hein… Darienne vai ficar para Ben assim como Laganja ficou para Adore: uma invejosa do êxito alheio. Por falar em Laganja…

7) LAGANJA ESTRANJA 

Não se engane por Laganja não estar na última posição do ranking. Ela continua sendo insuportavelmente egocêntrica, dissimulada, irritantemente dramática, não muito talentosa e péssima jogadora.

No mini challenge, a gata mais uma vez se prestou ao papel de ridícula, colocando um óculos diferente de todo mundo, mas, no que realmente interessava, fracassou miseravelmente. Não sabia se eu ficava com dó ou caía na gargalhada, mas como não costumo me sentir muito culpado por rir da desgraça alheia nos realities, optei pela segunda opção. O rap e a passarela ficaram entre algum lugar entre o “fraco” e o “aceitável” e não compensaram o desastre anterior. Nos ensaios para o vídeo, Laganja aproveitou para choramingar mais um pouco porque não conseguia se lembrar da letra… enfim, toda aquela bullshit de Laganja que vocês já conhecem.

O que coloca Laganja um pouco acima de Darienne e Trinity no meu ranking é o fato de que toda essa sua atitude detestável rende história para RPDR. Gera babado, gera confusão e, o melhor de tudo, começou a gerar uma aproximação entre Adore e Bianca. Sendo assim, Laganja pode ficar até Bonet e Lake darem o fora.

6) MILK 

Enquanto Laganja poderia garantir mais uma ou duas semanas apenas por fazer a narrativa girar, Milk poderia ficar também por finalmente entregar um look diferente. E, quando eu digo diferente me referindo a Milk, quer dizer algo mais “comum”. Apesar do mau acabamento que Santino pontuou, eu gostei do look no geral, ficou bonito, fishy e sem perder a personalidade de Milk – que eu particularmente associo bastante ao batom marcado e a maquiagem caricata.

E a dança de rua Milk Style, Brasil? HAHAHAHA não sei vocês, nem Trina e EVE, mas eu estava rindo COM ELA e não dela. Acho que Milk conseguiu entreter e se divertir no desafio e, mesmo que sua parte no rap não estivesse fantástica, os movimentos singelos e quase acrobáticos ao mesmo tempo foram bagaceiramente maravilhosos.

5) JOSLYN FOX 

Joslyn não se cansa de sambar na minha cara, hein? Sério, não me canso de dizer o quanto ela me surpreende, porque eu ju-ra-va no pré-show e até nas primeiras semanas que ela já estaria sasheando away lá pelo terceiro episódio.

Aí ela vem, se sai relativamente bem na sua “leitura” das outras drags (“Adore, a gente sabe que você é da Costa Oeste por causa do delay de três horas até você entender um piada!”) e entrega Jennifer Lopez (antes da influência do Pitbull) realness no videoclipe. Gosto também da maneira como ela se posiciona nos bastidores, fugindo totalmente da imagem de drag burrinha que muitos podem ter tido – ou ainda ter – dela. Pena que a edição tenha apagado Joslyn nesse episódio. O mesmo aconteceu com…

4) COURTNEY ACT 

Segundo episódio seguido que a Courtney desaparece na edição. Achei uma tremenda sacanagem, principalmente considerando o bom trabalho da australiana até agora, e também nesse episódio. Apesar do conjunto simplificado do look apenas com roupa íntima já ter sido usado pela própria no primeiro desafio, a ideia de sair do cobertor e trabalhar um conceito “acordando fabulosa” foi incrível.

E Mama Ru acusando-a de se apoiar apenas na aparência e no corpinho? Sorry, mas me recuso a acreditar que ouvi aquilo. O jeito barbieficado de Courtney me fez acompanhá-la com os dois pés atrás, mas desde o primeiro mini challenge do qual participou eu já fui mudando minha opinião. Ela se mostrou engraçada, boa para modelar, fotografar, cantar (dãr)… ou seja, um dos pacotes mais completos entre o Top 9. Afirmar que ela tem se apoiado apenas no corpo é colocá-la no mesmo patamar de alguém como Carmen Carrera e isso é uma ofensa.

3) BEN DE LA CREME 

CREMINEM, apelido que se tornou uma das melhores coisas de “Oh No She Betta Don’t”. Gostei muito também do visual street de Dela, que fugiu um pouco daquele estereótipo de “drag velha” que já estava começando a ser criticado pelos jurados. Acredito que nesse momento não há mais dúvidas sobre o talento de Ben e que, muito provavelmente, ela estará no Top 3.

A única coisa que me incomodou ligeiramente foi o drama por não ter sido escolhida para o time de Darienne. A impressão que ficou é que ela se sentiu inferior por não ter sido encaixado no time das vencedoras de challenges passados (com exceção de Laganja, que foi escolhida por suas habilidades como coreógrafa). Porém, ao dramatizar esse ponto, ela também inferiorizou Trinity, Milk e Joslyn. Convenhamos, ser pareada com Trinity e Milk realmente não é muito animador, mas uma atitude muito mais admirável seria decidir chutar o traseiro da big girl fazendo de tudo para seu grupo se sair melhor, do que ficar chorando as pitangas e ainda pedindo justificativas. Assim não dá, dona Dela. Desceu uma posição no ranking por isso.

2) ADORE DELANO 

Está ficando difícil relacionar todos os motivos pelos quais eu venho me apaixonando cada vez mais por Adore e fazendo-a escalar esse ranking até essa vice-liderança. Mas vamos tentar.

Pra começar, eu A-M-O a personalidade dela, esse jeitão “i don’t fucking care”, essa coisa meio patricinha do gueto que eu nem sei explicar muito bem. Só sei que toda vez que ela solta esse “Party!” é uma enxurrada de amor por essa piranha.

Talvez tenha sido justamente essas características, somadas à habilidade de Adore com música, que fez com que o desafio do rap fosse, finalmente, o momento dela brilhar. Outras queens foram bem, mas ninguém estava com o mesmo swag de Delano, que provou que uma drag pode usar macacão e ficar, sim, feminina e sexy (Alaska, estou olhando para você).

A runway dela essa semana estava sensacional, adorei a Mulher Gato travessa. Só a Michelle Visage que parece estar arrumando todo e qualquer motivo para implicar com a Adore, né? Deixa a menina usar os malditos vestidos com a barra curta, mulher! Tá gostosa, tá fierce e é isso que importa.

E estar se afastando de Laganja para se aproximar do nosso primeiro lugar só está fazendo bem a ela. Adore pode ter sido “lida” por ter o raciocínio lento, ser burrinha etc, mas é bem articulada quando a panela esquenta e sabe se posicionar, defender seu estilo e não se deixar ser jogada debaixo do ônibus.

You go, girl!

1)   BIANCA DEL RIO 

Apesar de Adore subir meteoricamente no meu conceito, não consigo tirar essa vadia do topo. Mesmo só tendo vencido um desafio até agora, Bianca esteve quase sempre entre os “highs” (com exceção do musical) e, de um jeito ou de outro, sempre consegue se destacar positivamente, dando um show de versatilidade. O modo como em um episódio ela conseguiu transitar entre a perfeita street girl dos anos 90 até o glamurosíssimo look da passarela – o melhor de Bianca até agora, incluindo a maquiagem que estava perfeita – é simplesmente impressionante.

O legal é que, para quem reclamava que Bianca só sabia jogar shade aos quatro ventos, nesse episódio ela foi super prestativa e se sensibilizou com a história de Trinity, coisa que nem eu consegui. Particularmente eu espero que isso tenha sido só nesse episódio e a bitch pela qual nós caímos de amor volte logo, de preferência fazendo a cara de Laganja de Sapucaí e sambando all over it. Mas é legal ver que Bianca consegue ser fabulosamente versátil até no seu tratamento com suas concorrentes. Ela sabe gongar e gonga mesmo quando merecem, mas sabe também demonstrar vulnerabilidade e sensibilidade com as outras, como fez nesse episódio.

Após a deliberação, Adore foi merecidamente coroada como vencedora e, agora, ela está mais do que nunca no jogo.

O bottom 3 ficou entre Trinity, Milk e Darienne. Por ter finalmente escutado os jurados e saído um pouco de sua caixinha, eu teria salvado Milk, mas Ru pensa diferente e salvou a última.

A canção era “Whatta Man” (Salt-n-Pepa feat. En Vogue). Muito obrigado, RPDR, porque eu lembro dessa música embalando a entrada de um Brandon Routh de regata branca em Partners (2012) e acabei me esquecendo de baixá-la para me lembrar sempre daquele momento sublime…

Ops, de volta a RPDR. A música claramente dava uma vantagem natural à Trinity, extra-ajudada ainda pelo seu look que combinava com a construção rítmica da música. Ainda assim, Milk fez o que pode e, até certo momento, acredito que a vitória estava nas mãos dela. Mas, a partir da hora em que Trinity deitou-se no chão e começou a entregar todo o significado da provocante letra de “Whatta Man” através de sua expressão corporal, a excentricidade de Milk não teve vez e o “sashay away” sobrou para ela.

Não que Milk fará enorme falta à competição, muito pelo contrário. Mas, considerando que ela parecia ao menos tentar impressionar em algum aspecto, que eram seus figurinos diferentes na passarela, isso já é mais interessante do que Trinity anda fazendo, que é apenas manter-se boa no que ela já é experiente – dublar – e continuar enclausurada nessa limitação de talentos. Vamos ver até onde ela vai assim; espero que não muito longe.

Gostaria de fechar essa review com sickening news: para quem ainda não sabe, Jujubee, uma das drags mais carismáticas e queridas da história de Drag Race e terceiro lugar na season 2, está arrumando as malas para visitar o nosso país. Ela fará uma apresentação e possivelmente um DJ set na Festa Recalque, em São Paulo (SP). A festa acontecerá no dia 03 de maio, e os ingressos já estão à venda. É a primeira vez que uma ex-RPDR (que é muito mais legal que um ex-BBB, certo?) desembarca em terras brasileiras e uma super oportunidade para os fãs do programa e admiradores de uma das melhores drags a já ter participado da competição. Mais informações na página da Festa Recalque no Facebook e também na página RuPaul’s World.

Até a semana que vem com mais RuPaul’s Drag Race!

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Aleph Macaullay
Goiano que foi viver no caos de São Paulo mas não esconde as origens caipiras e chora quando ouve "Evidências". Radialista por formação e redator publicitário por profissão.