Community sendo simplesmente Community.
A criatividade de Community não tem limites. Seja criando episódios “normais” ou sátiras e paródias, a série é certamente uma das mais inovadoras de seu gênero, apostando em um estilo de humor mais sutil e de maior densidade para ter sucesso. Assim, quando a vemos em plena quinta temporada e ainda capaz de entregar momentos carregados de divertidas referências (excluindo, logicamente, seu pavoroso quarto ano), é gratificante ainda rirmos pelo fato de Dan Harmon conseguir se reinventar até mesmo quando utiliza premissas semelhantes. Estes quatro episódios criam uma bela coletânea do que Community pode oferecer, em todos os seus aspectos.
Destes, o que mais se aproxima de uma história comumente vista em sitcoms é Bondage and Beta Male Sexuality. Curiosamente, é também o menos competente. Ainda que a meta-referência sobre a ausência de Annie e Shirley da trama apontada pelas próprias seja divertida, ela também acusa a inabilidade de Community em lidar com todo o grupo de personagens, tornando-as excessivamente deslocadas e tornando seus diálogos sem nenhum propósito. Depois de anos sendo extremamente habilidosa em lidar com quantidades gigantes de personagens, é curioso que a série ainda deslize dessa forma em certas ocasiões.
Mesmo assim, o episódio se sai muito bem nas piadas que constrói. Por mais que as referências a comédias românticas apontada por Duncan seja explícita demais, é interessante que Bondage and Beta Male Sexuality seja tão capaz de criar uma crise existencial realmente relevante para Britta, expondo os buracos em seu ativismo de araque enquanto evoca uma certa recaída em Jeff em relação aos seus sentimentos por ele, ainda que Community em geral se atrapalhe quando decide criar pares românticos para os personagens. Já a referência a O Sexto Sentido e O Iluminado contida na trama de Chang é muitíssimo eficiente, se transformando no arco mais hilário do episódio, mesmo que a história em si não tenha grande importância. Além da importante lição que Hickey ensina a Abed, que referencia RoboCop ao reclamar da nova vestimenta de Kickpuncher.
Já em App Development and Condiments, Community constrói algo muitíssimo digno da série. A começar pela crítica social proposta pelo episódio, exacerbando a alienação provocada por redes sociais, utilizando uma delas para a criação de um regime totalitário baseado exclusivamente em status. A situação em si é inusitada, mas Harmon cria aqui um cenário em que consegue explorar todos as suas habilidades como showrunner, criando diversas piadas divertidíssimas, especialmente no que diz respeito à revitalizada rivalidade entre Jeff e Shirley. Além disso, o episódio é capaz de criar momentos marcantes, como o show de stand-up de Jeff, que entra em conformidade com a proposta crítica da trama para a criação de um texto cômico interessantíssimo e criativo.
Obviamente, o episódio também busca criar diversas referências. Além das mais evidentes, como a citação de Mark Zuckerberg como um Fidel Castro de chinelos (o que, nesse contexto, é uma afirmação consideravelmente precisa), App Development and Condiments utiliza uma diversidade de filmes para construir diversos aspectos, como as vestimentas dos 4s e dos seguranças, oriundas de Fuga no Século 23, e as de Star Burns, idênticas às que Sean Connery usa em Zardoz. Além disso, o lugar para o qual os 1s são exilados remete a Outland – Comando Titânio. Todos esses são sci-fis que se passam no futuro, criando uma interessante mistura que faz uma alusão satírica ao destino da humanidade se alienada por criações que busquem quantificar a interações humanas. Aliás, o fato de Abed se sentir vivo exatamente por esse motivo insinua que ele é um membro deste futuro macabro, além de criar uma interessante piada com as características do personagem. E não podemos deixar de destacar a participação de Michael D. Hurwitz, criador de Arrested Development (o título do episódio faz clara referência à série), parente espiritual de Community.
Por falar em participações especiais, é VCR Maintenance and Educational Publishing é o que traz sua presença mais ilustre. Vince Gilligan faz sua estreia como ator em um episódio que busca referenciar Breaking Bad somente por conta disso. Podemos ver essa tentativa nas negociações escusas de Britta, Hickey, Jeff e Shirley sobre a venda de um amontoado de livros (azuis) de química. O que torna a experiência curiosa é o fato de Jonathan Banks ter um personagem completamente diferente na série citada. Aliás, essa proposta de emular uma transação envolvendo drogas torna a trama divertida, bem como seu inusitado desfecho.
Já o arco envolvendo Annie e Abed é divertido por usar personagens diametralmente opostos em uma disputa. O romance entre Abed e Rachel ainda parece extremamente cru (como já citei, Community tem problemas quando tenta investir nisso), mas o fato de o episódio não procurar explorar demais os dois faz com que isso se torne menos incômodo. Além disso, o momento em que ele tenta recuperar a namorada é deliciosamente adorável, contando com um Danny Pudi em uma de suas cenas mais inspiradas da temporada.
Na ponta final desse conjunto de episódios está Advanced Advanced Dungeons & Dragons. Ainda que seja a única situação em que uma mulher bonita como Annie joga um RPG e se diverte com isso, o episódio é mais um exemplo de como Community tem sabido se reinventar sem perder sua essência. Ainda que seja uma continuação direta de Advanced Dungeons & Dragons, a história é extremamente competente ao estabelecer sua própria identidade, através dos problemas familiares entre Hickey e seu filho, Hank (de novo, Community busca se conectar com Arrested Development). Assim, novamente podemos nos deliciar com a criativa forma de Abed em conduzir seu jogo, nos imergindo em sua história sem que a série precise recorrer a cenas passadas na imaginação, utilizando para isso somente recursos sonoros e efeitos visuais pontuais.
Mas o episódio não poderia deixar de homenagear a primeira aventura em um RPG do grupo. Podemos ver isso no mapa de Abed, que contém um memorial para Brutalitops, personagem de Chang em Advanced Dungeons & Dragons. Além disso, logo no início Jeff comenta sobre Fat Neil e sua habilidade de permanecer em background enquanto o mesmo aparece ao fundo. Sacadas como essas, que estabelecem um humor extremamente sutil, são alguns dos diferenciais de Community para outras sitcoms que buscam provocar risadas através de diálogos expositivos e maçantes. Além de criar diálogos interessantíssimos quando os personagens finalmente conseguem entrar em seus eus no RPG. Principalmente o interrogatório de Hickey aos hodgoblins de Abed, que provoca belas risadas durante toda sua duração.
Ou seja, Community começa a entrar em um momento de sua temporada em que já não há dúvidas de que é uma série ainda capaz de encantar. Resta apenas saber, infelizmente, até quando.















