A vida é superestimada”

– GARDNER, Will.

Não estávamos preparados para esse episódio, nunca poderíamos esperar isso de The Good Wife, parte porque não é o estilo da série apelar para esse tipo de recurso dramático e parte porque Will não merecia.

Will Gardner morreu. Morreu bruscamente, aleatoriamente, na maneira costumeira que os seriados costumam recorrer para chocar, para criarem drama/trama (Grey’s Anatomy que o diga). The Good Wife não tinha esse perfil, o que tornou tudo ainda mais surpreendente e devastador e, ao mesmo tempo, um tanto quanto decepcionante. Não sei se decepção seria a palavra certa, mas o que quero dizer é que estávamos tão acostumados a vê-la fugir desse tipo de saída que uma espécie de desapontamento emergiu junto com tantos outros sentimentos despertados por esse acontecimento. Depois de ler a carta dos criadores Robert e Michelle King, suas demais declarações a respeito, bem como as de Josh Charles (foi o ator que pediu para sair no final da última temporada, tendo Julianna Margulies o convencido a ficar por mais 15 episódios) e da própria Margulies, consegui aceitar um pouco melhor essa escolha criativa. Realmente, será um divisor de águas para série e precisou de coragem para apostar nesse caminho. Nas palavras dos Kings: “Nós todos experimentamos a morte súbita de um ente querido em nossas vidas. É assustador como um dia perfeitamente normal e ensolarado de repente pode explodir com a tragédia.” De fato.

Decepção, sem dúvidas, e não há carta que justifique, é Will ter morrido naquela que provavelmente foi a temporada mais triste para ele. Tiveram um ano para preparar um terreno mais favorável para despedida de Will. Sei que não podemos controlar nosso destino, como eu mesma disse na review passada, sei que a vida não é redondinha e perfeitinha assim, só sei que Will merecia um pouco de felicidade e calmaria antes de se despedir. Veja bem, apesar das coisas estarem mais amenas, ele ainda estava brigado/magoado com o amor de sua vida (pior bad timing possível, diga-se), ele e sua firma se reestruturava depois do golpe dado pela saída de Alicia, Cary e cia, ele enfrentava um novo processo… Talvez tudo que vimos nessa temporada esteja sido intencional para nos traumatizarmos e sofrermos ainda mais com a sua morte. Cruel, porém, efetivo.  Não sei, talvez eu ainda esteja lutando com as minhas fases do luto, com a negação, a raiva e a depressão comandando, e só possa ter uma visão mais distanciada de tudo isso com o tempo. Enfim, difícil aceitar. Fato é que esse nó na garganta que tenho agora deve perpetuar por muito tempo.

Bom, mas vamos engolir o choro por um momento e destrinchar um pouco Dramatics, Your Honor. Tivemos importantes momentos, mas nada de grandioso com exceção de seu final, claro. Tivemos Cary confessando a Alicia seu relacionamento com Kalinda, tivemos Alicia descobrindo e lidando com o fato que havia mais vídeos comprovando a fraude das eleições de Peter (o que soava apenas como um agravo da questão já certa), tivemos Kalinda comunicando a Will sua saída da LG (numa cena muito comovente, mesmo que Will não tivesse morrido. “Podemos olhar as pessoas normais e querem ser como elas, mas não podemos”. Aí, Will…) e Alicia e Will sendo simpáticos um com outro (pelo menos isso).  E, por fim, tivemos o retorno de Jeffrey Grant. No episódio que ele apareceu pela primeira vez sua história nos comoveu e comoveu a Will. O caso ficou em aberto e seu desfecho figuraria em só mais um episódio esquecível da série se não fosse a morte de Will. O caso trouxe um retrato do profissional Will Gardner, ambicioso, destemido, afiado, um advogado lutador, tudo que o levou a se tornar, ainda jovem, sócio de uma grande empresa de Chicago, mas, como bem apontou Diane, ele não sabe quando recuar, quando desistir. Se bem que ele estava convencido da inocência de seu cliente, complicado abrir mão assim. Porém, vale lembrar que ele pegou esse caso em mais um dos embates com Florrick/Agos, e não estava com um advogado para auxiliá-lo (que, quem sabe, poderia perceber com antecedência e evitar as intenções de Jeffrery). E não deixa de ser chocante que Jeffrery tenha dirigido seu desequilíbrio a Will, não se importando com o esforço do advogado para inocentá-lo. Por outro lado, o garoto estava fora de si, como bem vimos quando ele tentava e falhava desesperadamente em atirar na própria cabeça.

Will era assim leal e apaixonado por seus casos processuais, sua firma, seus colegas, seus amigos e seus amores (aqui, talvez, caiba o singular, Alicia) e, nisso, acabava sendo o mais passional dos personagens da série, criando um contraste, especialmente, com Alicia  na sua postura fria (mas sabemos que, lá no fundo, ela ferve). Seu legado mais urgente será trazer à tona os sentimentos de suas pessoas tão retraídas. Já tivemos uma amostra com Kalinda (Archie Panjabi brilhando como há tempos não era nos permitido ver) e Diane arrasadas. Vamos, no próximo, sem dúvidas, ver uma Alicia devastada mais do que nunca, tardiamente lidando com seus sentimentos por Will. Vamos ver essas personagens lidando com o luto, com a dor, com a falta, com os arrependimentos.  Isso deve aproximar Diane e Alicia, Alicia e Kalinda,  Cary e Diane, e Kalinda e Diane. Deve também reforçar os laços de Cary e Alicia, e mexer com o casamento dos Florricks.

Tudo foi trágico, injusto até, e tudo está tão obscuro agora. É difícil ver uma saída, é dolorido pensar The Good Wife sem Will. A certeza é que nada, especialmente Alicia, será como antes. A série, particularmente, não só perdeu seu personagem masculino principal, mas também o fator Will e Alicia que sempre impulsionou a série. É uma mudança e tanto,  se funcionará ou não, estou a postos para conferir.

É interessante como nos envolvemos e nos apegamos tanto a uma séria ou a um personagem. Estou certa que não estou sozinha aqui nesse luto. Aliás, meus pêsames, leitores. Não estou preparada emocionalmente para fazer um retrato mais abrangente de Will e seu papel na série e na vida de Alicia e na dos demais personagens, deixarei para próxima review (essa já foi difícil e dolorida o suficiente). Por ora quero dizer que Will Gardner foi, com todos seus defeitos e suas ainda maiores qualidades, um dos meus personagens masculinos preferidos de toda ficção de todos os tempos.  E Josh Charles, bem, venho elogiando sua performance repetitivamente em minhas reviews. Ele encarnou Will impecavelmente, um personagem cheio de nuances, nos fazia crer no seu lado humano, no seu lado herói e no seu lado moralmente duvidoso. Sua atuação não era de arrombos caricatos, era do melhor tipo, era de sutilezas cortantes e penetrantes.  Parabéns, Josh.

R.I.P William Paul Gardner.

Só um p.s: Como será que ficará o caso de fraudes agora? Já que era tão dependente do depoimento de Will. Terá Peter se livrado com a morte de Will? Repito, isso tudo é tão injusto…

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