Um lado branco e outro negro… Essa não é uma série com um conceito em volta, mas uma série em volta de um conceito.

No dia 22 de Setembro de 2004, o voo 815 da Oceanic Airlines perdeu comunicação com a base e desapareceu dos radares completamente. Depois de algumas horas voando fora do curso – sem razão aparente – os controles do avião deixaram de funcionar logo após uma estranha onda de energia atingir a aeronave. Alguns passageiros sentem apenas a queda iminente, sem detalhes. Outros percebem a ruptura da carcaça e, estranhamente, absorvem a possibilidade da morte não através da escuridão, mas pelas vias de um ofuscante clarão. Na tarde desse mesmo dia, o 815 “aterriza” incompleto e destruído. Mas os primeiros olhos que se abrem após a queda, olham para o mesmo céu que não chegara a ser cruzado completamente.

Jack nasceu para viver só um pouquinho… Os olhos de Matthew Fox se tornaram um quadro marcado na cultura pop do mundo inteiro. Caído no bambuzal, o personagem que obrigou o roteiro a mantê-lo vivo, é observado por um cachorro e pelos nossos olhos ávidos pela maior aposta da ABC naquele ano. Quando corre para a praia e encontra o acidente em todo o seu impacto visual, Jack dá início aquele que é – sem dúvida –  o maior fenômeno de suspense e mistério que a televisão mundial já viu.

O episódio piloto foi um dos mais caros que a televisão aberta americana já fez. Dirigo por JJ Abrams, ele tinha uma função bastante específica: cavar um sucesso através de uma ideia concebida para ser fragmentada. Lost não nasceu para ser clara em momento algum… Ainda que a trama básica  tenha surgido através de muitos olhos diferentes, foi Damon Lindelof que encontrou a sintonia inspirada e exigida por Abrams, tornando um projeto cru sobre sobreviventes de um acidente, numa dramaturgia adornada com camadas maiores que as relações entre os personagens.

Enfim, Jack abriu os olhos, correu pela praia, salvou algumas pessoas e…

Assim que a ação pós-queda se encerra, o primeiro take de resignação é da palavra FATE (destino), nos dedos de Charlie. É claro que a ação do destino sempre se torna o raciocínio maior que assombra os pensamentos de gente que passa por traumas dessa natureza. Por quê alguns morrem… Alguns vivem… Quais são as engrenagens que determinam quem precisa ou não viver situações limítrofes, em certos aspectos, com certas pessoas, levados pelas circunstâncias? O destino é um dos nomes de Deus, segundo a visão da maioria dos seres desse planeta. Se em Lost essa atribuição é discutível, não importa. Importa que desde o primeiro momento, tudo sinalizou para o que nos guiará durante todas as temporadas: Destino.

E será que é só o mistério que importa? Não. Se fosse, por quê perderíamos tanto tempo desvendando as vidas daquelas pessoas antes de chegarem ali? O destino esbarra na condução da vida através da avaliação do passado. O roteiro entende isso logo de cara e inaugura uma forma de procedural que fez o exercício da criatividade mudar de perspectiva pra sempre. E são os flashbacks fora da ilha que nos informam desde já que:

1. Personagens são base, não alegoria.

2. A alegoria é a ilha.

3. O destino não é só o que os levou até ali, mas o que os fez estarem ligados de alguma inesperada maneira. 

Claro que nada disso está imediatamente claro, como as coisas nunca estão na nossa própria vida. A força de certos encontros entre pessoas, em certas situações, fica muito mais evidente quando se olha pra trás. Assim como estamos olhando agora, e vendo que o destino nos dedos de Charlie insinuavam as bases dessa dramaturgia, e que esse destino brincava de ser planejado, em detalhes, como personagens que teriam grande importância uns pros outros, sendo pareados em suas primeiras aparições.

Porém, coisas como o barulho do monstro na floresta exigiam planejamentos que precisavam ser seguros e não apenas salpicados. Uma olhada no episódio piloto duplo, vai invocar a maior verdade de todas: Tinha que haver um caminho traçado, porque as estranhezas não se revelaram apenas alguns capítulos depois, mas desde a primeira investida. Se um “monstro” ronda a floresta e mata gente, quem leva isso pra tela tem que ter ao menos a mínima ideia do que pretende.

E havia uma… A primeira vítima dessa criatura foi o piloto do avião, morto no meio de uma tentativa de clarear os sobreviventes com alguma informação ou alguma instrução de resgate. Aquilo que era interpretado como uma força diretamente conectada à ilha, estava dando um recado específico: ninguém vai sair daqui. Se ninguém sai, era porque tinham de chegar… Destino, destino, destino… E nenhuma ideia de nada. Nebulosidade implícita até na tatuagem no ombro de Charlie, que invoca a dúvida e ajuda a compôr uma irresistível atmosfera de suspensão.

Living is easy with eyes closed
Misunderstanding all you see”

– Strawberry Fields Forever – The Beatles

E então, os 48 sobreviventes (o oito, o infinito, o cíclico, o interminável, o destino) se amontoam no que restou dessa viagem e não sabem nada uns dos outros. Quando você está diante de pessoas que não podem ter acesso ao seu passado, você pode ser quem você quiser. Porque desperdiçar isso? Lost não desperdiçou… Guardou segredo de nós e fez os personagens guardarem segredos de si mesmos. Isso compôs um quadro de complementação de personalidade. Os personagens eram desmembrados  em duas fases e o que entendemos deles só ficava completo quando essas duas fases colidiam.

Locke era o maior exemplo disso. O mesmo homem, mas com duas camadas absolutamente opostas. Frágil antes do acidente, seguro e pretensioso depois. O homem que sempre quis ser especial em alguma coisa, foi o primeiro a saber que aquela não era uma ilha como as outras. Recuperou os movimentos das pernas, viu a face do monstro antes de todos nós, e foi o detentor do segundo argumento desse texto para defender a completa ciência de que havia um planejamento no cerne do que foi esse seriado. 

Dois lados, um claro e um escuro. Dois jogadores. Atentem para a palavra JOGADORES. É como se para esses dois lados, a ilha fosse um imenso reality-show de confinamento, em que a convivência precisaria ser manipulada com sutilezas, de formas indiretas, com peões sendo movidos em estratégias de convencimento que não eram impostas e sim percebidas. Os bons jogadores precisam conseguir fazer o jogo acontecer se comprometendo o mínimo possível, e os dois jogadores da ilha de Lost estão apenas implícitos durante boa parte do show. Jogadores… Um deles já fazendo seu trabalho de recrutamento: quando o monstro aparece pra Locke sem matá-lo, ele só quer fazer o homem acreditar. Acreditar que é tão importante quanto sempre quis ser. Porque no fim das contas, a fé de Locke será um dos grandes propulsores da narrativa. 

Esse mesmo jogador (o jogador escuro), tenta convencer Jack de suas propriedades. O personagem, que tinha perdido o pai e estava levando seu corpo para ser enterrado em Los Angeles, vê o mesmo, como se estivesse vivo, no quarto episódio, usando até mesmo o tênis branco com o qual Jack havia-o calçado antes do embarque (algo que só vamos compreender muito tempo depois). 

Essa visão, esse corpo, esse que seria o mesmo que aparecera para Locke para convencê-lo de que ele era especial, também guiou Jack até as cavernas, que apenas no futuro, nós perceberíamos que ele conhecia muito bem. Nessa mesma caverna, dois esqueletos. Junto deles, duas pedras que se confirmam como reforço argumentativo. 

Um dos “jogadores” levou-os até ali, onde mais uma vez, tudo se trata de uma perspectiva sobre o destino. Sayd se questiona o porquê deles estarem vivos, inteiros e de não se lembrarem como chegaram ao chão. Isso soa premeditado, mas no torpor da tragédia, eles ignoram fatores fantásticos o tempo todo. Jack vê o pai morto pela ilha, Locke vê uma criatura disforme que tem consciência aparente, e tão aparente quanto é a aleatoriedade desses eventos, que estão sim, especificamente conectados. 

Quando a francesa surge lá pelo meio da temporada, temos mais algumas pistas dessa convergência. Ela é um símbolo do que significa o lado escuro desse xadrez. 

1. Russeau diz que seus companheiros foram afetados por uma doença.

2. Essa doença, nada mais é que a aproximação definitiva com o jogador enegrecido desse tabuleiro.

3. Sayd é o personagem escolhido para ser o interlocutor dessa personagem porque ele, dentre todos os sobreviventes, é o que tem mais ligações com a obscuridade das reações humanas. Ele é o candidato mais elegível a sofrer dessa mesma “doença”.

4. Na última temporada, ele enfim, sofre. 

Mas e Claire? Ela também não foi afetada por essa força negativa? Foi. E alguns sinais de que isso aconteceria também estavam presentes desde a primeira temporada. Em Raised By Another, a gestante tem um sonho em que Locke fala com ela de forma assustadora, e seus olhos estão diferentes, um preto e outro branco (conexão reafirmada com os dois “jogadores” desse plano). Claire tem esse sonho/visão justamente com Locke porque será uma forma como a dele – e tomada pelo lado negro dessa brincadeira – que a arrastará para o abismo dessa consciência distorcida. Ao mesmo tempo, outras conexões da personagem são anunciadas ainda nesse início. É Kate quem, afinal, ajudará Aaron a chegar ao mundo. 

Esses cruzamentos que referenciam o destino, já tão mencionado, se tornam efetivos quando aparecem fora da ilha, pela primeira vez, em Hearts and Minds. O flashback de Boone e Shannon revela Sawyer cruzando uma cena e estabelecendo, de uma vez por todas, que os personagens são a base definitiva dessa dramaturgia. Isso é o mais importante. Essa ligação entre eles. Aqui começa a se formar a certeza de que essas histórias serão complementares num futuro incerto e mais do que nunca, que a vantagem no planejamento proporciona muito mais possibilidades de suspense. 

É nesse episódio, também, que a sombras do “monstro” aparecem pela primeira vez e elas já determinam parte do que significam. É aqui também que a energia eletromagnética também é inicialmente mencionada, depois que acaba confundindo a leitura de Sayd de uma bússola diretamente afetada por esse magnetismo. E será essa energia a principal responsável pelos eventos que só serão discutidos cinco anos depois. 

Mas, o episódio em seguida é justamente o que se chama Special. Então, entramos num terreno movediço do qual Lost nunca conseguiu sair. 

Vamos voltar a discutir o menino no texto da última temporada, mas vale invocar a presença dele aqui para tentar encontrar linhas de raciocínio que esclareçam o que pretendiam dizer com a mitologia em torno de si. Walt parecia ter uma habilidade nociva, sombria, que aparentemente se correlaciona também com o jogador escuro. Porém, nada disso foi abordado com segurança e se algum detalhe poderia nos esclarecer esses aspectos, ainda não consegui alcançá-lo. 

Muito ligeiramente, o azar que Hurley atribui a si mesmo se correlaciona com essa energia negativa delegada à Walt. Porém, há algo maior que isso. Os números que segundo Russeau “a levaram pra lá e trouxeram os passageiros também”, são outra grande alegoria para a ação do destino. Seis números que nos revelarão seis pretendentes muito bem definidos. Seis que serão os “Oceanic Six”, seis que viajarão no tempo numa mesma direção, seis que representam o que já foi determinado. “Os números me trouxeram pra cá e trouxeram vocês também”. Sim, os números precisavam chegar à ilha, e quem estava na hora errada, no voo errado, pagou o preço por isso. 

Walt e Michael, por exemplo, são itens sacrificados desse plano maior. E usados direitinho, servindo para a apresentação do conceito que revelou Os Outros. Se há uma ilha misteriosa tão grande, por que perder a chance de insinuar outros moradores? Lost não perdeu. Agora, além do monstro que arrancou o braço do colega de Russeau (algo que veremos acontecer em um flashback do ano seis), temos os estranhos que vagam pela floresta. 

Exodus foi um season finale de tirar qualquer um do eixo… Invocando as boas trilogias finais de The X-Files, Damon Lindelof e Carlton Cuse nos devastaram de emoção e dúvida. Mas, também nos adiantaram as rédeas de uma trama que eles já sabiam onde queriam levar. Enquanto a balsa saía na praia, numa sequência linda e de cortar o coração, Jack, Kate e Locke tentavam abrir a misteriosa escotilha, enquanto já eram surpreendidos pela forma visível do monstro que rondava a ilha. 

Se a decisão de apresentar o monstro ainda na primeira temporada foi tomada, é porque esse monstro já tinha suas origens muito bem definidas. Se é importante sublinhar os traços de segurança narrativa? Claro que é. Esse texto começou dizendo que Lost se apoiava em um conceito de destino muito bem definido e que foi esse conceito que construiu a força das relações dentro da série. Em um dos momentos do finale, Sun fala sobre o destino como um ato de punição para com aqueles que têm contas a acertar com energias superiores. E se esses personagens foram criados com gêneses definidas pelos pecados que cometeram, a ação do destino não pode e não é uma simples coincidência. 

Se são o destino e as ligações interpessoais a maior força da dramaturgia de Lost, isso só se deve à condução dos eventos. Quando a morte de Boone aconteceu, já nos importávamos tanto com cada um deles, que sofremos essa perda apenas para confirmar que os roteiristas já tinham conseguido o que queriam. Ao som de Damien Rice, um panorama da rotina dos sobreviventes num pôr-do-sol da ilha já nos afaga o coração com uma explosão de carinho por esse universo. 

Nós já entendemos a necessidade de heroísmo de Jack, a fuga de si mesma constante de Kate, o amor relutante de Sawyer, a doçura disfarçada de Sayd, a generosidade comovente de Charlie e Hurley… Numa série de suspense, de ação, de mistério, o amor que esses personagens nos forçam a sentir por eles acaba sendo sim, maior do que tudo. E foi essa consciência que demarcou o futuro do  programa, essa consciência unida ao destino, ao jogo, ao plano, à inevitabilidade. Por isso a história de Lost sempre foi tão poderosa. Ela lida com aquilo do qual não se pode fugir: o que você veio aqui pra fazer. Ainda que tudo de bom que um dia se teve, seja estraçalhado no caminho.

Quando a primeira temporada chegou ao fim, inaugurou a tradição dos finales amplificados, que faziam um mosaico dos personagens principais, se convergindo, se confirmando… E a série que começou com o desastre, termina com os momentos antes do voo, quando aquelas pessoas estão prestes a ter suas vidas mudadas pra sempre. Essa sequência de todos entrando no avião é apenas um adiantamento do que veremos no fim: personagens que precisavam ter se encontrado, para viveram a maior experiência que um ser humano poderia viver na terra, e acabar com isso, criando um laço definitivo e eterno. 

É com lágrimas nos olhos, até hoje, que eu vejo esse momento, quando cada personagem olha para o outro com pura inocência, aquela inocência característica de quem não sabe o que está por vir, quando nós, aqui do outro lado, sabemos. E cada segundo daqueles quadros, cheios daquela trilha lindíssima, prenunciam o que não se pode negar jamais a respeito de Lost: nós amamos aquelas pessoas, nos importamos com elas, esses humanos amorais tão torpes… E sabemos de tudo que eles perderão nesse encontro. Foi entrar naquele avião que mudou tudo… Talvez, num mundo onde pudéssemos escolher o destino que de fato não se escolhe, entrar naquele avião até poderia não ter mudado nada. O maior pecado de Lost? Ter colocado essa emoção infantil em prática. 

Relatórios Transitórios 1: Uma pequena listinha das coisas que acho muito bacanas nessa temporada de estreia: 

1. A complacência dos fatos sendo incutidas nos primeiros episódios, como a francesa sendo uma voz que ganha vida mais pra frente e Ethan surgir como um intruso no meio dos passageiros.

2. A descoberta da escotilha, por acaso, quando uma lanterna cai no chão no meio de uma discussão entre Locke e Boone.

3. A mudança da praia para o acampamento que acabou se tornando icônico. Ela aconteceu por conta de erosões na praia original, que obrigou a equipe a mudar de locação.

4. Shannon cantando em um dos momentos mais ternos da temporada.

5. Ana-Lucia aparecendo no season finale e garantindo um senso de continuidade simplesmente genial.

6. Sawyer contando à Jack sobre o encontro com Christian.

7. Vincent tentando alcançar Walt na saida da balsa.

8. O momento em que o outro barbudão diz: vamos ter que levar o menino.

9. O Black Rock no meio da floresta.

10A trilha sonora arrebatadora de Michael Giacchino. 

Relatórios Transitórios 2: Os Blu-Rays da série são um presente pra qualquer fã por muitas razões, mas também porque a quantidade de extras é admirável. Em um deles, dessa temporada, vemos como foram feitas as gravações com os destroços na praia.  Não sei porque, mas tenho uma fascinação imensa pela ideia de que a poucos metros do set, havia uma rodovia por onde qualquer pessoa poderia chegar na mesma praia. 

Entre as coisas que eu gostaria muito de fazer antes de morrer, está um passeio pelas locações de Lost. Essa, em especial. Gostaria muito de um dia estar nessa praia, sentindo o vento no rosto e agradecendo por cada minuto em que esse programa me fez o nerd mais feliz do mundo. Podem me chamar de bobo, mas eu sou assim… 

See you in another season brotha…

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