House of Cards segue com sua segunda temporada complexa, entrecortando diversas tramas e criando uma atmosfera de progressiva inquietação.
Existem coisas na vida que te aterrorizam profundamente. Mas a característica mais curiosa do terror é que ele muda ao longo do tempo. Se, quando crianças nosso pavor girava em torno de figuras demoníacas na televisão, de pesadelos atormentadores e do escuro, quando crescemos, passávamos a temer intensamente coisas mais concretas, como a violência, a política ou a solidão. Pode parecer que eu esteja divagando aleatoriamente pelo universo, no entanto há um propósito nisso. O terror é um sentimento que cresce dentro de você, te deixa ser dominado pelo desespero ou o desamparo, que pode se manifestar recorrentemente quanto a algo específico ou em experiências súbitas. Em House of Cards, o terror tem nome, sobrenome, rosto e dissimulação: Frank Underwood.
Não, não estou querendo dizer que FU causa sustos no público, mas o Vice-Presidente é tão carregado de autocontrole e contenção que qualquer milímetro fora desse espectro se torna algo inquietante e eletrizante. E é com ele mesmo que eu puxarei o fio da review: nesse Chapter 21, nós vimos Frank em uma atmosfera de desconforto, com muitas variáveis fora de seu controle, levando-o a fugir de sua áurea dominada mais de uma vez e entregando momentos lívidos e intensos.
Seu relacionamento político em trio com o Presidente e Linda torna suas verdades passíveis de incertezas nos ouvidos de Walker, devido à importância da figura da Secretária de Gabinete. Frente a isso, o episódio construiu a tensão entre os dois polos do ménage político de forma exemplar: partindo da discordância entre Underwood e Vasquez, a transposição para o jogo de punhaladas, o momento em que ambas as partes abrem o jogo e a resolução da contenda. A abertura do jogo foi o momento em que Kevin Spacey e Sakina Jaffrey puderam brilhar: a Secretária sempre foi imponente e confrontadora, uma das únicas que não demonstra intimidação em relação ao protagonista, porém ela conhece os próprios limites e a forma humilhantemente explícita que Frank menospreza o trabalho dela foi um dos melhores da série e Jaffrey, soberba, foi hábil ao mostrar a retração gradual de sua personagem diante da monstruosidade de sua contraparte.
Frank também lidou com sua rixa crescente com Raymond Tusk e nesse plot foi uma puxada de tapete atrás da outra. É sempre um prazer ver materiais televisivos que mostram o modus operandi indireto das políticas nacional e internacional e a instrumentalização da questão indígena foi um exemplo disso. Tusk, no entanto, não é uma figura fácil de se enganar e identificou as intenções de Underwood rapidamente, levando ao segundo momento explosivo do Vice-Presidente, quando vemos ele sair da surpresa, passar pela raiva e se entregar à lividez da vingança. House of Cards conhece e entende o texto que tem em mãos e foi satisfatório ver que eles não se renderam ao clichê de mostrar Raymond e Lanigan com ar de superioridade e deboche, ao invés disso, investindo na expressão de apreensão, afinal, naquele instante, eles sabiam que a próxima jogada do ex-congressista seria certeira e desconhecida.
Os quatro plots restantes do episódio não conseguiram chamar tanta atenção para si, pois imagino que eles ainda estão em construção. Mesmo assim, eles não se tornaram enfadonhos e, em dois casos, na verdade, minha curiosidade ficou bem atiçada. O primeiro deles girou em torno de Rachel, cuja história finalmente avançou. Desde que surgiu em Chapter 16, eu mantive um pé atrás em relação à Lisa e esse episódio fez meu radar da desconfiança quase estourar e a culpa disso é de sua intérprete Kate Lyn Sheil, que não permite que nós consigamos decifrar a personagem. A atmosfera nebulosa e erótica da entrega emocional e sexual das duas garotas acentuou a dubiedade de Lisa e eu agradeci muito ao roteirista David Manson e ao diretor James Foley por terem conseguido dar vida a essa trama, que se encontrava bem apagada em relação aos outros acontecimentos na Casa Branca.
Falando na Casa Branca, o relacionamento entre Claire e Tricia Walker, cada vez mais, me deixa instigado pela expectativa de saber aonde a Vice-Primeira Dama pretende chegar. Robin Wright consegue ser tão intimidadora quanto Spacey e a sua maneira corriqueira de analisar as pessoas à exaustão enquanto fala com elas é de uma sutileza ameaçadora ímpar da atuação da atriz. Dessa forma, apesar de achar bem estranha a ideia do aconselhamento conjugal para Garret e a esposa, mantenho minha empolgação em relação à trama. Sem contar que, se há algo positivo que o casal Walker relega ao público, é a possibilidade de vermos Claire e Frank trabalhando em dupla, cada um com seu peão, mas em total sincronia. Mrs Underwood também estava envolvida na continuação da história da violência sexual no ambiente militar, mas, assim como o caso extraprofissional entre Sharp e Danton, não conseguiu decolar em Chapter 21.
Por último, eu gostaria de destacar a coesão textual de House of Cards. Lá no início da primeira temporada, Evelyn foi demitida por Claire, devido à falta dos investimentos que viriam da nomeação do marido à Secretaria de Estado. Da mesma forma, quando emergiu atrito entre o casal Underwood, Claire se rendeu a um affair (descartado) com Adam Galloway. Pois ambas as peças foram retomadas em Chapter 21, uma como trampolim para a emergência da outra, e serão o próximo obstáculo que FU terá que lidar. E vale ressaltar que esse é um possível escândalo que tem a capacidade de interferir na vida pessoal do casal, na proximidade de Claire com os Walker, no projeto de lei protegido de Frank e colocar a opinião pública contra a Vice-Presidência.
Diante disso, House of Cards segue com sua segunda temporada complexa, entrecortando diversas tramas e criando uma atmosfera de progressiva inquietação.














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