A “voz da experiência” nem sempre fala mais alto… Ou melhor.
Na última segunda-feira foi ao ar nos Estados Unidos a premiere da sexta temporada da corrida mais fabulosa e única da TV norte-americana… Ou pelo menos a primeira parte dela. Rupaul deu a largada para a disputa pelo prêmio de U$100.000,00 e suas novas queens já tiveram que trabalhar a bacurinha para não sofrerem a tragédia do first boot na pele… ou pelo menos metade delas!
Em um método inédito, Ru dividiu as quatorze novas concorrentes em dois grupos para já separar o joio do trigo em dose dupla no challenge inicial. A estratégia é boa não só por limar duas potenciais irrelevantes de uma só vez, mas também por dividir melhor o airtime entre as drags nesse primeiro momento, que é fundamental para a construção das cruciais primeiras impressões. E, nesse contexto, o episódio cumpriu o esperado: em quarenta e poucos minutos, pudemos conhecer muito melhor as sete primeiras aspirantes a “next drag superstar” do que se a edição tivesse enfiado todas as quatorze goela abaixo em uma dose só.
E por falar em novidades, outra mudança significativa foi anunciada na passarela principal: titia Ru veio com a pá virada nessa temporada e decidiu que acabou esse negócio de imunidade para a vencedora do challenge principal. Embora eu concorde que as piranhas tenham que fazer valer cada momento, regras como essa permitem que históricos como, por exemplo, o de Ongina na season 1 (High, Winner, High, Winner, Eliminated) se repitam; e, bom, meu recalque será eterno pela eliminação da primeira drag asiática do programa depois de ir muito bem nos quatro primeiros desafios.
Entrementes, vale destacar, mais uma vez, uma evolução notória no que diz respeito a aspectos como edição, cenários e produção. Desde o palco principal, até o Interior Illusions Lounge e o “galpão” onde acontecem os mini challenges; as montagens e clipes de edição; e até mesmo a intro para a runway; tudo, absolutamente tudo parece ter ganhado mais um toque de cuidado e glamour. Isso, claro, só evidencia como o programa é um sucesso inquestionável e está sendo devidamente valorizado. Continue assim, Logo, and don’t fuck it up!
Todavia, algumas tradições foram mantidas: o primeiro mini challenge que desafia as drags com um photoshoot inusitado e o primeiro main challenge que testa as habilidades de costura, criatividade e senso fashion das drags. Nesse caso, ambos foram temáticos e fizeram referências à televisão.
A princípio, as gatinhas tinham duas chances de serem fotografadas pelo já conhecido Mike Ruiz, pulando de uma pequena plataforma para posarem em frente uma tela de TV, aterrisando em seguida em uma piscina de espuma. Depois, a prova final era montar um look utilizando materiais que faziam referências a grandes sucessos da televisão, sendo que cada uma foi associada a um programa pela vencedora do mini challenge. Os jurados convidados foram o próprio Mike Ruiz e cantor Adam Lambert. Não sei quando foi que Adam deixou de ser a drag queen que era aqui e aqui, mas a mudança foi muito boa aos meus olhos, viu Adam? Tá de parabéns.
Nesse primeiro momento, vamos analisar o desempenho de cada uma das drags individualmente, e dividindo-o em 4 partes: entrada; mini challenge; main challenge + runway; e a personalidade que transpareceu ao longo da premiere.
LAGANJA ESTRANJA

Entrada: Considerando que era minha favorita no pré-show, Laganja entrou não decepcionando, desmontando-se no chão como uma boneca Nega Maluca. Contudo, apesar de eu simpatizar com o jeito meio “barbie do gueto”, já nesse primeiro momento Laganja extrapolou na empolgação e soou um pouco forçada.
Mini Challenge: Laganja foi a que melhor entendeu e executou o intuito desse desafio e, merecidamente, venceu. Isso lhe rendeu o direito de dar as cartas no desafio seguinte.
Main Challenge + Runway: O primeiro pecado notável de Laganja foi jogar super safe ao escolher para si “Dancing With the Stars” d’entre as opções disponíveis, mas é até compreensível considerando que o medo do fantasma do first boot pode levar as pessoas a não arriscarem demais logo de cara.
Na passarela, o look, embora razoavelmente bom, não passou nem perto de surpreender. Embora eu discorde de Michelle e Adam e tenha gostado da combinação do acessório na cabeça, da peruca e da pluma, e não me sentir tão incomodado pelo sumiço do pescoço – parte do corpo muito valorizada no mundo fashion -, simplesmente não deixou ninguém “wow”. O que me incomodou de verdade foi o jeito dela desfilar. Tenho agonia desse tipo de passo porque me parece acelerado demais, como se ela estivesse andando sobre carvão quente.
Ao receber o feedback, Laganja repete a atitude espaçosa e energética demais e isso gera um certo desconforto.
Primeira impressão geral: Laganja não é completamente odiável e se saiu razoavelmente bem nessa primeira semana. Sua maior falha é mesmo o exagero com sua expressão corporal, tom de voz, e os intermináveis “mama!”, e isso pode gerar um ódio das colegas e do público antes mesmo que ela tenha tempo de se desmanchar de novo no chão. Além disso, já foi a primeira a chorar no Untucked com sua sob story da relação com a mãe, e zzzzZZzzz… Menos choradeira e mais barraco, bitch!
ADORE DELANO

Entrada: Simpatizei gratuitamente com Adore logo de cara. Gostei da atitude meio whatever, do exagerado – porém bom – uso de expressões envolvendo “fuck” e achei uma boa promessa para os VTs e as cenas no galpão de preparação.
Mini Challenge: Adore também entendeu o intuito do mini challenge, mas encontrou problemas no posicionamento da perna e suas poses acabaram saindo um pouco awkward.
Main Challenge + Runway: Mais uma vez Adore captou a intenção, porém falhou na execução, dessa vez de maneira ainda mais grotesca. Sua ausência de qualquer talento em costura a prejudicou pesadamente, e o comentário de Michelle sobre o vestido parecer um pedaço de pano enrolado e preso por um cinto foi muito coerente. E, se você não é Jennifer Lawrence, você não pode usar um lençol amarrado no corpo.

Talvez a ideia tivesse sido boa – afinal, o modelito feito pela drag até lembrava “Here Comes Honey Boo Boo” e todo o clima de concurso de beleza infantil que cerca o reality – porém a execução foi terrível.
Aproveito esse exemplo para abrir um parêntese: por que diabos algumas drags chegam no programa sem saber costurar? Os desafios pedem com certa frequência habilidades nessa área e, se uma inscrição para RPDR eu fizesse, eu teria procurado, no mínimo, um cursinho básico de costura imediatamente.
Primeira impressão geral: Com o perdão do trocadilho ridículo: adorável! Se melhorar o desempenho nos testes, não só tem chances de tomar minha torcida para si como também pode ter maiores chances de ir longe na competição.
APRIL CARRIÓN

Entrada: Eu juro que fiquei tentando achar a tal mistura entre Björk e Coco Rocha no meio daquela roupa de escoteiro mirim, mas não rolou. Mas, como eloquentemente disse Gia Gunn: “she’s cute”.
Mini Challenge: April foi bem e manteve a impressão de “she’s cute” impregnada na minha cabeça… E só.
Main Challenge + Runway: Foi no desafio principal que April CaRRRRRión teve seu spotlight e despontou como uma das minhas favoritas desse primeiro grupo. Em primeiro lugar, soube usar com maestria o monte de lixo que estava dentro de sua caixa de materiais, conseguindo transmitir toda a vibe rústica e selvagem de “Duck Dynasty” em seu look, preservando a feminilidade. Até o pato de borracha ela soube utilizar muito bem a seu favor!
E o flerte com Adam Lambert, Brasil? Impagável! April aproveitou muito bem os olhares admirados do ex-American Idol, e o “Get a room!” de Visage e o “Because you wanna fuck her!” de RuPaul foram hilários.
Primeira impressão geral: April me surpreendeu muito, e positivamente, e eu já posso afirmar que ela está no meu top 3 dessa primeira metade de concorrentes. Minha maior preocupação é o fato de que ela simplesmente SUMIU no Untucked, tendo a mesma relevância que os quadros de RuPaul na parede. É bom ela não se apoiar na imagem “cute” eternamente para não ser engolida pela personalidade das outras drags.
GIA GUNN

Entrada: Gia foi a terceira a entrar e a primeira a me deixar com o queixão caído. Claramente vai seguir a linha 100% fishy (com grande foco na aparência bastante feminina) e já deixou isso bastante claro imediatamente. Tudo no primeiro look funcionou: o collant, o cabelão, e a bolsa extra plus size; e chegar já chamando sutilmente a coleguinha de velha ajudou ainda mais a arrebatar meu coração.
Mini Challenge: A fishy girl pulou da plataforma como um peixe com medo de cair na água fervente. Não houve entrega e as poses que Gia escolheu para saltar exalavam preguiça. O resultado, claro, foi desastroso.
Main Challenge + Runway: Gia Gunn não sofreu tanto com a escolha de Laganja ao ser praticamente presenteada com “Keeping Up With the Kardashians”, algo totalmente dentro de sua zona de conforto. Mas, nesse tipo de desafio, pegar algo assim, aparentemente fácil, abre espaço para maiores expectativas e exigências, e foi aí que Gia decepcionou. O cabelo estava realmente ótimo, mas todo o resto estava apenas ok. Mas o maior destaque mesmo de Gunn foi o seu saboroso.

ao final de todos os comentários. Sério, foi uma mistura de cômico com vontade de esbofetá-la para ver se saía alguma outra palavra.
Primeira impressão geral: O que eu mais gostei de Gia é que ela foi, de longe, a que mais se destacou nos VT’s por jogar shade nas concorrentes O TEMPO INTEIRO e ter a personalidade totalmente diferente daquela coisa insípida que foi no Meet the Queens. Se continuar assim, vai ser presença indispensável para tornar a temporada mais divertida com seus comentários sobre absolutamente tudo que as outras drags são e/ou fazem.
VI VACIOUS

Entrada: Vi Vacious mirou na entrada mais inesquecível de todas as temporadas e acertou em uma completa hot mess. Obviamente o look dela se destacava gritantemente entre os demais, mas não no sentido positivo. A quebra do clímax de tirar a parte da roupa que cobria seu rosto foi o primeiro pratão de vergonha alheia da temporada. E é claro que enquanto Vi afirmava que aquela segunda cabeça, Ornacia (quem tem até twitter próprio, haha), era “arte viva”, eu só conseguia pensar em uma coisa:

Mini Challenge: Um airtime que só serviu para as ótimas tiradas de Ru e de Mike sobre as duas cabeças da gata, porque o desempenho… just didn’t work.
Main Challenge + Runway: Haviam duas coisas “Game Of Thrones” no look de Vi Vacious: o corvo, que passou longe de ser tão bem aproveitado como o pato de April e não fez o menor sentido posicionado no pulso; e as penas ao redor do pescoço, que até deram uma boa incrementada mas foram pouco para tirar a atenção do péssimo acabamento do vestido e da peruca que estava simplesmente horrenda. O jeito que ela desfila e dá paradas violentamente bruscas para posar também me assusta um pouco.
Primeira impressão geral: Embora seja bastante experiente, tudo em Vi Vacious gritou “try hard”. Muita tentativa de chamar a atenção, mas sem uma boa execução e um senso fashion questionável.
KELLY MANTLE

Entrada: Sem dúvidas a entrada mais sem graça de todas. Não teve nada de engraçado, nada que chamasse a atenção, e, como o que eu senti no Meet the Queens, até o tom de voz de Kelly é sonolento.
Mini Challenge: Não duvido nada de que existam pessoas que pularam para o suicídio com mais animação do que Kelly pulou para esse photoshoot.
Main Challenge + Runway: Só é possível apontar um acerto no visual escolhido por Kelly: a cor da peruca era bonita e combinava com o rosto da queen. De resto, trainwreck total. As pétalas de rosa que pareciam bacon, a saia catastrófica, e, o pior de tudo: absolutamente nada ali era “Downtown Abbey”.
Primeira impressão geral: O nível de drags que eu espero de RPDR é muito acima do que eu já infelizmente encontrei em boates fuleiras de São Paulo, e foi apenas isso que Kelly ofereceu nessa premiere.
BEN DE LA CRÈME

Entrada: Creepy! Sério, há vários motivos pelos quais eu sempre odiei circos, e um deles é aquela introdução apavorantemente forçada dos shows de palhaços; e foi exatamente assim que Ben De La Creme adentrou o galpão. Minha reação foi mais ou menos a mesma de Adore:

É claro que é um caso diferente de Laganja, pois Ben é uma personagem irritantemente feliz por natureza, mas, mesmo assim, tive que concordar com Michelle e acho que essa personalidade vai cansar muito rápido.
Mini Challenge: Ben fez um primeiro shoot razoavelmente bom, absorveu bem as dicas dadas por Mike e melhorou ainda mais no segundo, entregando duas boas fotos como resultado final.
Main Challenge + Runway: Sem dúvidas o maior acerto desse primeiro desafio. Look no ponto, extremamente bem trabalhado, detalhado e ajustado no corpo de Ben, e que ainda gritava o estilo das “Golden Girls” da maneira mais high fashion possível. A semelhança com Michelle Visage só serviu para tornar seu desfile ainda mais interessante e sua vitória era bastante óbvia.
Primeira impressão geral: Embora eu tenha até dado uns sorrisinhos com Ben De La Creme, ainda temo bastante por ser o tipo de personagem que vai me dar nos nervos em um curtíssimo espaço de tempo.
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O resultado do primeiro desafio foi extremamente justo: Ben De La Crème foi a vencedora, e o bottom 2 foi formado por Kelly Mantle e Vi Vacious, que mostraram mais uma vez que experiência na arte de ser drag queen nem sempre é garantia de sucesso na corrida.
A música escolhida para o lipsync foi “Express Yourself”, da Madonna. Ambas dublaram de maneira satisfatória. Mas enquanto Kelly manteve-se um pouco mais sutil, focando na feminilidade da performance, Vi Vacious se movimentou mais, e ofuscou um pouco a colega com suas expressões faciais mais marcantes que as da oponente. Assim, quem recebeu o primeiro “sashay away” da temporada foi Kelly Mantle. Uma eliminação justa e, por tudo que Kelly colocou na mesa até então, desde as prévias até o lipsync, não considero essa uma perda a se lamentar. Mesmo com toda uma bagagem de mais de 15 anos de drag, Mantle não entregou nem metade do que as oponentes ofereceram.
Na semana que vem, outras sete drags disputarão as seis vagas restantes no top 12, para então se juntarem a Adore, Laganja, Gia, Ben, April e Vi.
Até a semana que vem!















