A série que pode fazer pela Amazon o que House of Cards fez pela Netflix.
Relacionamentos familiares não são fáceis. Até nas famílias mais harmônicas os conflitos existem, mesmo que latentes. Por um lado, temos o choque entre duas gerações: pais com a mentalidade de tempos passados não vividos por seus filhos, que representam a constante lembrança de que as coisas mudam, relegando àqueles escolher entre duas adaptarem-se ou agarrassem ao passado. Por outro lado, há a coexistência entre indivíduos de personalidades diferentes, tanto complementares quando conflitantes. Não é à toa que esse é um tema tão rico para a dramaturgia. Ao longo dos anos, vimos diversas séries (como Party of Five, Everwood, Brothers & Sisters e Six Feet Under) abordarem o tema através de diferentes conotações e agora é a vez de Transparent.
Se a Amazon Studios quer se consolidar no mercado de distribuição de conteúdo online (o que é o caso), Transparent será a plataforma para que esse objetivo seja alcançado. A série gira em torno de uma família de três irmãos (Ali, Josh e Sarah) e o pai (Mort), cada um com seus próprios demônios e dilemas. A ação do episódio, porém, é iniciada devido a uma ligação de Mort para os filhos por desejar contar a eles algo importante. Depois de muita especulação e papo típicos de irmãos durante um jantar, o patriarca diz que vai vender a casa. Os filhos acreditam, o que gera conflitos entre eles, mas nós sabemos que não era aquilo que ele pretendia contar.
O roteiro é hábil e inteligente na determinação das personalidades bem definidamente diferentes dos membros da família. Sara é mãe e casada, com uma afeição a coisas certas e organizadas e a atriz Amy Landecker assume a personagem com um trabalho elegante, em que abraça as facetas ásperas do papel sem deixar de lado a suavidade, os anseios e as dúvidas sentimentais que a preenchem. Josh é produtor de música hipster e mantém relações sexuais com cantoras, mas mantém uma faceta obscura que é ativada depois do jantar com a família. E é necessário ressaltar que o fato de não conseguirmos formar uma ideia básica sobre o personagem nesse primeiro contato é mérito de Jay Duplass, que, entendo a natureza de Josh, se restringe a insinuar intenções, sentimentos e ações. Ali é uma figura incompleta, que não conseguiu deslanchar em sua vida e deprimida. E Mort é um presente carinhoso para Jeffrey Tambor, um papel novo e desafiador que ele devora com uma voracidade admirável.
Escrito por Jill Soloway (Six Feet Under), o roteiro brinca com os limites entre a comédia e o drama e não fracassa quando pende para nenhum dos lados. O humor presente principalmente na interação entre irmãos é natural e real, ajudando a aliviar a atmosfera mais pesada que o projeto adentra vez e outra. O drama é elegantemente construído, apresenta diálogos marcantes (algo que Six Feet Under era mestre em fazer) e aqui eu destaco um que descreve perfeitamente o episódio e seus personagens: “Rapaz, é tão duro quando veem algo que você não quer que vejam”. E assim vivem os protagonistas dessa série: tentado esconder coisas uns dos outros ou não tendo coragem de trazer à tona a verdade sobre si mesmos. E aqui eu tenho que aproveitar um espacinho para destacar a trilha sonora do episódio, que, soberbamente escolhida, canta e entrega as ideias apresentadas e o futuro desconhecido.
Transparent é o melhor piloto lançado pela Amazon Studios, o único elogiado e abraçado pela crítica, mas também o que é mais vulnerável à rejeição do público por seus temas fortes e que confrontam as mentes mais fechadas e conservadoras. Se for dado o sinal verde para a produção da temporada completa, esse pode ser o projeto que pode representar para a Amazon o que foi House of Cards para a Netflix: um conteúdo original, rebuscado e com uma voz tenaz.















