Decolando. E rápido.
True Detective começou como uma série de imenso potencial, descrevendo a relação entre dois personagens nitidamente diferentes, mas com diversos talentos em comum. E, como qualquer produção, demorou alguns episódios para explorar esse potencial de maneira correta. Considerando que estamos diante de uma temporada de apenas oito episódios, seria de se esperar que a evolução das tramas fosse muito mais rápida e, consequentemente, veríamos True Detective em seu auge criativo já em poucas semanas. Assim, somos apresentados a Who Goes There, que eleva a nova série da HBO a um outro nível, mostrando que podemos sim estar diante de um novo clássico do canal americano.
Escrito como de costume pelo showrunner Nic Pizzolatto, o episódio mostra a sequência dos acontecimentos de The Locked Room, com Rust e Marty perseguindo seu principal suspeito, Reggie Ledoux. Após uma esquentada entrevista com Charlie Lange, eles perseguem Tyrone Weems, que conhece o paradeiro de Ledoux, agora um cozinheiro de metanfetamina para uma poderosa gangue de motociclistas, The Iron Crusaders, que já é conhecida por Rust graças a trabalhos anteriores. Enquanto isso, Marty segue com seus problemas pessoais, provocando Lisa até o ponto em que ela se propõe a destruir a família de seu ex-amante.
A característica que mais me atrai em True Detective é, certamente, a organicidade de seus diálogos. Todos os momentos em que vemos Marty e Rust conversando sobre qualquer assunto são excepcionais. Primeiramente por não serem expositivos como a televisão geralmente tende a fazer. Mas principalmente porque a química entre os amigos Matthew McConaughey e Woody Harrelson permite que qualquer conflito que esteja sendo resolvido soe extremamente natural e crível, criando uma inevitável empatia com ambos da parte do espectador. E Who Goes There procura explorar justamente o avanço dessa relação, que finalmente deixa de ser profissional. Ainda que ambos tendam a se xingar algumas vezes, é evidente que fortes laços de amizade começam a florescer, o que podemos conferir no óbvio simbolismo que é o fato de Marty agora viver com Rust.
Muito disso tem forte relação com Maggie. A começar pela maneira que Rust tem grande influência sobre ela, que começa a questionar seu relacionamento com Marty após a chegada do novo detetive em sua casa. Mas isso não é suficiente. Ela também age como uma perfeita barreira entre os dois, um limite que Rust parece louco de vontade para cruzar, mesmo sabendo que não deve, e que começa a criar um silencioso conflito que podemos ver quando o detetive Cohle se recusa a discutir o fim do casamento entre eles, como se evitasse se meter onde sabe que só encontrará terríveis problemas.
Aliás, o tragédia familiar que acontece com Marty é a comprovação dos papeis invertidos dos personagens em relação ao que vemos no piloto. Enquanto no princípio víamos Rust como uma pessoa acabada e destruída por sua própria personalidade, Marty surgia como o detetive padrão, com mulher e filhos, que segue as regras constantemente. No entanto, após apenas alguns episódios, Rust se torna uma pessoa muito mais estável e consciente dos seus atos do que o parceiro, cujo casamento é destruído simplesmente por conta de um desnecessário ataque de ciúmes pela amante, seguido de uma perigosa provocação. Aqui é importante notar a brilhante decisão de Cary Fukunaga (que mais uma vez dirige o episódio) de não empregar uma aborrecida – e comum – narração em off enquanto Marty lê a carta de Maggie, utilizando apenas a excepcional expressividade de Harrelson para transparecer as emoções necessárias, em um grande trabalho do ator, que evita o didatismo para passar uma mensagem através do silêncio.
É exatamente por conta disso que Rust e Marty entram na situação que se dá da metade do episódio até o fim. Antes de conhecer o parceiro, seria impensável que Marty aceitasse fazer uma arriscada investigação por trás dos panos. Mas a presença e as ideias de Rust o corromperam com tanta facilidade que ver o novo colega de quarto falsificando marcas de seringa se torna algo perfeitamente natural e aceitável. Note como, em momento algum, ele chega a sequer questionar o plano de Rust, e aceita com extrema facilidade o argumento dele sobre a maneira com a qual a gangue costuma torturar as pessoas. Além disso, é curiosa a abordagem da série ao decidir tratar os detetives Gilbough e Papania como espectadores diferentes de nós através da mentira de Rust sobre uma suposta visita ao seu pai, separando a versão contada para eles da assistida pelo público.
O que mostra como True Detective explora suas tramas. Ao contrário de uma série policial comum, em que o mistério em torno do crime é mais importante que os personagens, a série busca colocar a investigação em segundo plano, removendo o mistério assim que ele se mostra desnecessário, e inserindo elementos distintos de uma caça policial de forma correta e fluida, sempre se preocupando muito mais com motivações e relacionamentos do que com uma banalidade qualquer como a identidade de um assassino. São ingredientes perfeitos para transformar uma série em algo sempre dinâmico e atrativo.
O que nos leva à execução do plano de Rust. Começando pelo diálogo inicial entre ele e Ginger, em que ele o convence de que ainda é de confiança, ainda que acabe seguindo por um caminho indesejado em que precisa cometer um crime para tentar ter algum contato com Ledoux. Nesse momento, McConaughey segue os passos de Harrelson e engrega uma interpretação impecável, convencendo o espectador sobre seu estado físico e mental em cada linha de seu rosto. Um personagem como esse nas mãos de um ator menos capaz certamente sacrificaria muito da sutileza da série, que sem dúvidas perderia grande parte de sua qualidade.
Finalmente, chegamos aos minutos finais, em que Rust invade a casa. Nesse momento, Fukunaga entrega um trabalho sublime, usando sua câmera de maneira inquieta e caótica, criando através desse recurso uma atmosfera de crescente tensão. Somando a isso a impecável e imersiva edição de som e as orgânicas interjeições durante as constantes perseguições e fugas, e vemos uma das melhores sequências da televisão nos últimos anos, que culmina na captura de Ginger e em mais um traço do verdadeiro e implacável Rust, cada vez mais motivado a solucionar o caso.
Essa tal de True Detective parece cada vez mais afiada.















