Quem nunca?

Em primeiro lugar, pessoal, preciso pedir desculpas pela demora ABSURDA desta review. Eu poderia dizer que me inspirei em nossa protagonista e passei por um bug que não me deixa me lembrar de absolutamente nada que fiz nas últimas duas semanas e me fez acordar na cama de pessoas desconhecidas e/ou improváveis (porque, né, quem nunca?). Mas, por mais conturbada que tenha ficado a minha vida nos últimos tempos, minha situação não é nada quando comparada às agruras de nossa protagonista. Por favor, perdoem o meu lapso, acreditem que usarei o longo hiato para regularizar as coisas e o meu timing, e sigamos em frente.

Em frente para o absolutamente excelente episódio que foi Hatred, provavelmente o melhor da temporada até aqui. Isso pode ser dito principalmente, claro, pelos momentos crocantíssimos que Revenge sempre nos dá, mas que estavam ainda mais inspirados do que o normal neste episódio, que foi dominado, basicamente por duas vertentes centralizadas, respectiva e divonicamente, em Emily e em Vicky. Foi maravilhoso ver o tamanho da inversão de papéis que Hatred nos proporcionou. Aqui, minha teoria de que Emily e Vicky são um exato espelho uma da outra gritou como nunca durante todos os 42 minutos do episódio em que nossa heroína nos encheu de alegria e de orgulho!

Alegria e orgulho por mostrar, mais uma vez, ser uma pessoa completamente desprovida de bons sentimentos e de empatia, capaz de esmagar a pobre Sarah como quem prazerosamente esmaga um pobre e vulnerável inseto. Na verdade, eu diria que Emily foi bem pior que isso, e consigo compará-la àqueles moleques malvados que maltratam cães ou gatos abandonados na rua. E, assim como morro de pena desses pobres animaizinhos indefesos, fiquei muito triste ao ver Sarah destruída. Tudo bem que ela é meio sem gracinha, apesar de ter mostrado uma leve faceta bitch ao tentar enfrentar Emily de igual para igual nesse episódio (eita menina iludida!). Mas não consigo não pensar que, no fundo, Sarah era uma pobre moça sonhadora e sofredora, daquelas que, em outro tipo de drama, poderiam ser heroínas insossas da dramaturgia (uma Paloma de Amor à Vida ou uma Karen de Smash, por exemplo).

Felizmente, estamos falando de Revenge, uma série que nos atrai justamente pela possibilidade de ver mocinhas insossas e sofredoras serem dizimadas por mulheres fortes e malévolas. Sarah lutou bravamente para alguém tão despreparada como ela, mas o único momento significativo em que as tramas de Vicky e de Emily se cruzam é um dos mais reveladores do episódio. Nossa rainha conhece melhor que a própria Emily o tipo de pessoa que sua querida norinha é. Elas são idênticas, elas acreditam fortemente que os fins justificam os meios. Por isso, agem com as mesmas armas, movidas pela mesma bandeira distorcida de uma justiça que se flexibiliza ao bel prazer de suas justiceiras. Vicky previu que Sarah seria esmagada, e a palavra da rainha, como sabemos, é uma ordem – mesmo que só tenha servido para que a personagem vomitasse a informação de que existe uma primeira esposa de Conrad em busca de sua própria Revenge. Uma escolha de final difícil de compreender, levando em conta que o episódio teve tantas viradas mais interessantes e surpreendentes (o momento “Quem nunca?” de Emily na cama de Conrad depois de bugar, por exemplo) para sua finalização.

Quem acabou brilhando nessa história toda foi o próprio Daniel, que já é o dono do quote mais impactante da temporada:

Esterilizar você foi o meu presente para o universo

PADMOU! Quem diria que o nosso banana boy fosse capaz de proferir palavras tão ferinas, tão destrutivas, tão certeiramente em um dos pontos mais fracos de sua esposa e rival, não? Ninguém pode dizer que Emily não fez por merecer esse tapa na cara, muito mais violento para ela do que qualquer agressão física. E ninguém pode sentir algo diferente de felicidade plena com o altíssimo nível dessa guerra doméstica que Revenge está entregando! Coisa fina!

Do outro lado da história, nossa rainha, mais Maria do Bairro do que nunca, revelou seu terrível passado ao filho, um passado que envolveu negligência materna, assassinato, prisão injusta, expulsão de casa, falta de teto e estupros (sim, no plural, e Emily jurando que sabe o que é sofrer!) e que minou para sempre a busca de Patrick por sua própria identidade. Por mais que seja possível alegar tempo perdido com essa história, que já havia sido contada discretamente quando a série revelou a existência do primogênito de Vicky, o que vemos aqui é mais um gigantesco passo em direção à humanização da rainha (comparável apenas àquele dado no episódio em que vimos o flashback “Victoria H., 15 anos”).

Não compreendo muito bem o propósito dessas decisões quando penso que dificilmente Victoria escapará da Revenge de Emily no final da série, mas talvez o objetivo seja justamente dificultar nossa sede de vingança. Compreender Vicky, vivenciar sua história dura e sofrida, saber que nenhuma decisão do passado da personagem foi motivada por maldade pura (a maioria nem sequer foi consequência de atos cometidos por ela própria!) torna possível criar conflitos internos no público, viabiliza o sentimento de compaixão e até mesmo uma improvável redenção dramatúrgica. Eu já era #TeamVicky desde muito antes desse desenvolvimento acontecer, mas sinto que, depois dele, o resultado final da série se torna muito mais imprevisível. Talvez seja esse o efeito desejado. Perdi muito tempo acreditando que Patrick havia entrado na série por Nolan (que, aliás, com a guerra declarada com o ex, voltou a ser um personagem apagado e mal trabalhado) em vez de enxergar o óbvio: Patrick é um atalho para nos conectar a Vicky. Nolan, que poderia (e possivelmente irá) causar um belo estrago se revelasse de fato as tramoias de Vicky contra David Clarke, preferiu fazer um grande favor à vilã e estreitar ainda mais sua relação com seu filho. Por mais que tenha havido sofrimento envolvido, no fim das contas, Vicky e Patrick estão mais ligados do que nunca!

Hatred veio cheio de padmadas pra dar, e conseguiu reinserir Revenge no clima de pura cretinice, cafajestagem e falta de escrúpulos. Tudo isso em um ritmo acelerado suficiente pra não nos deixar um segundo sem a melhor dose de entretenimento que a série consegue oferecer. E deixa em mim uma expectativa pra lá de ousada: imaginem se Emily não ficou realmente estéril e, depois desta noite, está prontinha para carregar um filho de Conrad? Apenas o mais puro e verdadeiro amor por essa ideia, amigos! É o tipo de loucura que só passa por mim depois de um episódio desse nível. É Revenge em sua velha e linda forma!

Bug #1: Como não considerar essa aparente dupla personalidade o efeito colateral ideal para Amanda Clarke se passando por Emily Thorne? Gênios!

Bug #2: Margô mostrou suas garrinhas ambiciosas e se livrou de Daniel sem pestanejar. Em termos de importância para a trama, ela continua uma Ashley 2.0 (só muda o sotaque), mas virei oficialmente fã!

Bug #3: Já sabemos que Charlotte e Emily são irmãs há dois anos, e até agora essa informação teve ZERO utilidade, assim como a personagem. Contagem regressiva para a campanha “Titio Nayar, mate a Charlotte no finale!”

Bug #4: Por um momento, achei que Sunil Nayar estava se inspirando totalmente em Titio Mike Kelley e iria se livrar de japa assassina no maior estilo “personagem que só apareceu pelo shock value e será eliminada da maneira mais porca possível como se nada tivesse acontecido” (oi, Cabelo Branco, mamãe Clarke, irmãozinho adotivo e Lydia-The-Walking-Dead-Davis!). Felizmente, Aiden teve a BRILHANTE ideia de guardar a arma do seu crime (arma única e inconfundível, vale dizer) embaixo da própria cama, em uma casa que nem dele era. Ou seja, aguardemos com muito amor e esperança a vingança de Takedinha! Revenge volta no dia 9 de março. Até lá!

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.