O porquê de essa série, prestes a chegar ao ducentésimo episódio, merecer esta homenagem especial.
Aquele que luta com monstros deve tomar cuidado para que ele mesmo não se torne um. E se olhar muito tempo para um abismo, o abismo te encara de volta
– Friedrich Nietzsche
Estreava, no dia 22 de setembro de 2005, aparentemente mais um procedural típico da CBS. O canal apostava novamente na sua aclamada forma do “caso da semana” devido ao êxito de diversas produções nos anos anteriores, como NCIS, CSI e seus spin-offs. Para o público adulto já característico da maior emissora norte-americana, o sucesso era praticamente uma garantia. Tratava-se de Criminal Minds, cuja sinopse era bastante simples: um grupo de profilers do FBI sediados na Unidade de Análise Comportamental que resolve crimes por todo o país. Mas, reflitamos como os americanos de 2005. O que uma série desse formato poderia apresentar para um mercado já saturado? Seriam apenas agentes do FBI caçando serial killers? Nada original, certo?
Tudo bem que a sinopse pode não ser a mais empolgante possível num primeiro momento, mas à medida que Criminal Minds se consagrava no mundo das séries, sua mitologia se tornava mais evidente. Primeiramente, não se deve encarar tudo com essa simplicidade. O foco sempre esteve no Unsub – suspeito desconhecido – ou seja, para os profilers tanto fazia quem era o verdadeiro criminoso. O mistério clássico do “quem é o assassino da semana” deixou de existir para dar lugar a uma investigação complexa, baseada nas ações dos serial killers capazes de fomentar teorias para a elaboração de um perfil e encontrar o assassino. Assim, construindo casos inteligentes, Criminal Minds mostrou que não era apenas mais uma.
Mas nem tudo são flores de imediato. Criminal Minds pode ser um procedural apaixonante em diversos sentidos, mas alguém deve estar ciente de certos detalhes quando decide fazer uma maratona dessa série. Muitos casos revelam o que pode existir de pior na humanidade, com serial killers macabros e masoquistas, e talvez isso impeça muitos de continuar a assistir. Claro que há o limite entre ficção e realidade, mas uma vez li um livro – Criminal Minds: Sociopaths, Serial Killers, and Other Deviants – que fazia analogias entre os crimes reais e os da televisão, mostrando que muitos deles foram realmente baseados em fatos. Frank – algoz de Gideon na segunda temporada – por exemplo, tem muitos traços de Henry Lee Lucas, cujo número de vítimas pode ultrapassar 200. Lembro-me também depois da primeira vez que vi Mosley Lane (5×16), um episódio que definitivamente marcou minha vida e me fez refletir por horas após 40 minutos angustiantes e dolorosos. E isso não só acontece com nós, espectadores, mas também como os próprios atores. Mandy Patinkin, ao deixar a série, afirmou que interpretar seu personagem foi extremamente difícil, tornando-o desconfortável com seus atos e com os roteiros. Embora as circunstâncias da saída não tivessem sido as mais adequadas, com ainda declarações posteriores – alegando que Criminal Minds foi o maior erro da sua vida – esse foi o motivo expresso por ele.
Confesso que fiquei meio paranoico nas ruas depois que comecei a acompanhar Criminal Minds. Passei a encarar situações com outros olhares. Quem nunca, depois de assistir a um episódio, não checou novamente todas as portas e janelas da casa só por garantia? Em mim, Criminal Minds despertou, antes de tudo, uma precaução. E, provocando mudanças de atitudes e pensamentos, já inclusive selecionei uma lista de episódios emocionantes, aqueles tão densos que são difíceis de serem assistidos. Juliana Apfelgrün, minha colega aqui do Série Maníacos, também selecionou uma lista de melhores episódios até a sétima temporada. Dois exemplos práticos que reforçam como Criminal Minds pode ser tão bom, além de revelar tudo o que a série pode originar nos telespectadores.
Quais são os outros segredos do sucesso de Criminal Minds? Um ponto a ser destacado é o excelente elenco, composto atualmente por Thomas Gibson, Shemar Moore, Matthew Gray Gubler, AJ Cook, Kristen Vangsness, Joe Mantegna e Jeanne Tripplehorn. Também se deve observar a sempre bem feita analogia entre a vida pessoal dos agentes e os casos da semana, que recentemente têm sido associados ao passado deles. E quem gosta de mistério não poderia ficar menos satisfeito: além do formato procedural propriamente dito, eventualmente surgem os Unsubs recorrentes, que afligem os profilers de diversas maneiras.
Mas por que todo esse texto sobre Criminal Minds justamente agora? Simplesmente porque, no próximo 5 de fevereiro, a série atinge a marca do seu ducentésimo episódio! Quando estivemos diante de um momento semelhante, lá na quinta temporada, fomos brindados com momentos épicos após o terreno ser preparado por muito tempo, sendo convertido num centésimo episódio nada menos que fantástico. O arco construído com a fuga de Foyet no final da quarta temporada e seus retornos periódicos culminou na sua reaparição, consagrando não somente o serial killer e a série, mas também Thomas Gibson por sua atuação impecável.
Atualmente, vivemos uma situação bem parecida. Antes mesmo da fall season, a showrunner Erica Messer deixou bem claro que essa temporada trataria de histórias do passado. O que teria acontecido com Jennifer Jareau no tempo que ela trabalhou para o Pentágono durante a sexta temporada? Por que ela voltou mais determinada, adquirindo inclusive a posição de profiler? Afinal, o que mudou? Com o intuito de responder a tudo isso – ou mesmo deixar mais perguntas – foi introduzido Mateo Cruz, novo diretor da BAU, que possui uma relação secreta de trabalho com a agente.
Ressaltando que daqui para frente existem grandes spoilers, foram diversos os momentos que Mateo e JJ conversaram às escondidas a respeito de um caso aberto há três anos. Embora não tivessem sido liberados detalhes significativos sobre essa missão, Jennifer já encarou a situação com certo receio, visto que, num trabalho cercado por profilers, possivelmente eles descobririam. Além disso, deve-se considerar a probabilidade de blefe por conta de Cruz, mas aparentemente sua transferência para o FBI foi acelerada por alguém ainda desconhecido. E no final do último episódio – The Road Home – a agente foi sequestrada após tentar contatar um número privado numa praça vazia.
Seguem, abaixo, duas promos para o 200. A primeira, feita pela CBS, tem um tom mais impactante, revelando uma batalha pela vida e anunciando um ótimo retorno para ajudar na procura por JJ. A segunda, por sua vez, é da emissora canadense CTV. Apesar de a qualidade ser inferior, ela é mais reveladora em relação aos detalhes da investigação.
http://www.youtube.com/watch?v=KIiFjvKK0Qs
Sim, Emily Prentiss está de volta! Somente para um episódio, infelizmente. Tal fato lembra muito que ocorreu na saída da mesma atriz na sexta temporada, quando a então afastada AJ Cook retornou para uma participação especial na busca de Emily Prentiss. Agora, os papéis se inverteram.
Espero um episódio repleto de flashbacks, em um estilo muito semelhante ao de Lauren (6×18). Sem dúvidas, a melhor alternativa é a feita em 100 (5×09) e It Takes a Village (7×01), que fizeram um paralelo extramente interessante entre uma investigação no presente – considerada até mesmo um julgamento – e as ações do passado, gerando uma intensa troca de cenários no fluxo temporal. Entretanto, esse último formato é relativamente inviável para a próxima quarta-feira, visto que não existe aparentemente ninguém preocupado com as ações questionáveis do time.
Meu maior temor, contudo, é outro. Um episódio pode ser muito pouco para tudo o que vem sido prometido ao longo dessa temporada, fato este que poderia ocasionar algo bem corrido e atrapalhado. Os roteiristas já cometeram esse equívoco anteriormente, mas também souberam, em algumas oportunidades, corresponder a tudo isso de uma maneira brilhante, como nos exemplos citados no parágrafo antecedente. Basta somente esperar.
Nesse ponto, deixo meus aplausos para os que tiveram a ideia desse plot. Eles conseguiram entreter com algo de uma temporada conturbada e difícil pelos cortes no elenco devido à criação de uma das piores coisas de Criminal Minds nos seus quase nove anos, o spin-off. Não pretendo criticar o quão ruim foi a série de temporada única, mas foi por causa dos nomes de peso dela que a CBS retirou AJ Cook e reduziu a participação de Paget Brewster em 20%, apostando num sucesso que nunca veio. Os roteiristas realmente foram capazes de pegar elementos complicados para render excelentes histórias.
E, após tudo isso, muitos questionamentos… Por que agora todo esse segredo veio à tona? Como Strauss poderia estar envolvida? Quem realmente é Cruz? Por que justamente Jennifer Jareau? Por que os agentes foram colocados juntos trabalhando na BAU? O que seria essa missão secreta? Teria relação com o terrorismo ou com a ocasião da primeira saída da Prentiss? Na sétima temporada, quando JJ voltou, ela disse que recebeu uma proposta para ocupar o lugar de Emily. Teria isso sido proposital?
As expectativas não poderiam ser maiores! Espero que tenham gostado dessa review especial com o objetivo de preparar o terreno para o tão aguardado ducentésimo episódio. Deixem seus comentários com suas perspectivas também!
Diante de tudo isso, deixo aqui minha singela homenagem a essa série especial. Uma série que nos deixa angustiados com o desenrolar macabro do caso em questão, mas uma série que nos faz dormir com um imenso sorriso no rosto após os momentos família da BAU. Uma série que questionou minha fé na humanidade ao passo que me mostrava valores como a bondade e a lealdade. Uma série que já revelou, como Gandhi dizia, que durante todos a história, houve tiranos e assassinos que por um tempo pareciam invencíveis, mas no final eles sempre caem, sempre. Uma série chamada Criminal Minds.
















