É cedo pra dizer que a velha Community está de volta?
Community sempre existiu com o propósito de subverter inúmeros clichês de séries do gênero e criar uma experiência única e tentadora. Nesse aspecto, temos a oportunidade de acompanhar diversas paródias, bottle episodes, e, principalmente, histórias conceituais que divergem um pouco da atmosfera padrão de Greendale para gerar humor de forma diferente, coisa que raríssimas comédias se propõem a fazer. Por isso mesmo, quando Basic Intergluteal Numismatics abusa da palavra “bunda” durante toda a sua extensão, provoca o sentimento contrário do esperado em uma comédia “comum”.
O episódio basicamente cria uma paródia de qualquer drama policial, seja ele produzido para cinema ou TV, trazendo dois detetives, no caso, Jeff e Annie, excessivamente envolvidos com um criminoso que não conseguem capturar, o Bandido dos Cofrinhos. Após diversos ataques, os dois acabam também se aproximando emocionalmente, provocando algumas piadas do próprio bandido, além de Dean, que não aceita a ideia de que o verdadeiro criminoso é um professor, criando uma investigação paralela que leva aos retornos de Duncan e Starburns, que hoje vive em um estábulo criando gatos para uma inusitada invenção.
Chega a ser impressionante a diferença entre a Community de 2013 para esta, de 2014. É a prova cabal de que uma criação que se propõe a explorar a divertida mente de seu criador jamais sobrevive sem esta mente. Quando a série tentou criar uma paródia de Jogos Vorazes, sem Dan Harmon, o resultado fora desastroso, gerando no espectador uma sensação de que fora enganado. Aqui, no entanto, vemos uma maneira precisa de explorar o universo de uma investigação policial sem perder uma oportunidade sequer de tirar sarro disso ou de explorar um pouco as características de seus personagens, de maneiras mais evidentes ou não.
Da mesma forma, Harmon resolve um problema que seus antecessores se recusaram a resolver: a saída de Chevy Chase. Além da surpreendente aparição dele em Repilot, em Basic Intergluteal Numismatics Pierce finalmente encontra seu fim, ao invés da maneira atrapalhada promovida por David Guarascio e Moses Port (que ainda fazem parte do time de roteiristas, é bom frisar), que simplesmente ignorava o personagem o máximo possível, criando um amontoado de bobagens sempre que este aparecia em tela. Aqui, com um gesto de Shirley e um discurso do Dean Pelton é criada uma despedida infinitamente mais apropriada, fato que também deve acontecer com Troy, em breve.
Mas, voltando à paródia promovida pelo episódio, tudo se revela interessante. Até mesmo a constante repetição da palavra “bunda”, aliada ao non-sense típico de Community ao criar um crime sabidamente idiota, não soa batida como soaria em outras ocasiões. Pelo contrário, a maneira como o episódio mostra as “vítimas” sendo atacadas, criando um terror em Greendale apoiado por uma incessante chuva, torna toda essa atmosfera bizarra especialmente divertida.
O principal, no entanto, é mesmo as sátiras propostas pelo episódio. Desde a abertura, passando por Abed e seu cobertor e café, até chegarmos a uma infinidade de plot twists típicas de séries policiais – especialmente The Killing – que são executadas com timing perfeito, criando um ritmo de piadas bastante dinâmico e sem atropelos, de forma que nada parece soar artificial, por mais bizarra que seja a situação. Aliás, até mesmo o fato de a trama se encerrar sem um verdadeiro culpado, após a interrupção para o luto por Pierce, é mais um modo divertidíssimo de satirizar, especialmente ao criar uma montagem em que todos os personagens parecem suspeitos, cada um à sua maneira.
E, claro, o episódio não poderia deixar de investir em seus personagens. Mesmo que personagens como Buzz e Britta apareçam muito pouco, outros como Troy e Abed tem chances de serem como sempre foram. Especialmente este, cuja existência é sempre crucial para dar vida às mirabolâncias de Community. No entanto, é em Jeff e Annie que a série mais se foca. Que um romance entre eles é inevitável, todos já sabem. Mas é interessante ver que as pessoas dentro do universo deles também tem consciência disso, e o fato deles se juntarem para a investigação é importante para dar avanço a essa situação, que logo deve se revolver (especialmente se Community de fato se encerrar nesta temporada).
Por conta disso, é difícil não ver Community com outros olhos, já que nitidamente a série recuperou sua alma perdida na terceira temporada. Não chega a ser a mesma comédia que se transformou em uma das melhores da atualidade, mas está em nítida evolução.















