Quando a ciência não serve ao sobrenatural.

Algumas das nossas melhores referências do sobrenatural se apoiam, paradoxalmente, na ciência. O Arquivo X foi uma das primeiras produções da televisão que entendeu que uma ótima forma de captar o respeito do espectador diante de temas como fantasmas e alienígenas, era fazer com que eles parecessem críveis do ponto de vista concreto, cientifico. De certa forma, isso provocou uma nova era na teledramaturgia, onde o embasamento passou a ser uma obrigação de todo e qualquer bom roteirista.

No entanto, falar sobre vampirismo é uma tarefa complexa e justamente porque a mitologia é altamente maleável. Mesmo que Bram Stoker tenha sido o pioneiro, o vampirismo atravessa os séculos sob diversas interpretações e abordagens, fazendo com que as regras a respeito possam ser flexibilizadas. E muitos autores não se privam de fazê-lo, respeitando apenas os princípios básicos do “beber sangue”, “morrer como humano” e “não andar à luz do sol”. Esses três fatores, inclusive, se correlacionam em alguns casos. A maior diferença entre as versões do vampirismo diz respeito, entretanto, à consciência das criaturas.

Como High Schools não funcionam de noite, logo os autores de histórias românticas de vampiros começaram a encontrar saídas para o problema do sol. Falando em termos de adaptação para a TV, filmar só a noite acaba sendo também um obstáculo. No caso de Dracula ainda tem a questão da vingança empresarial, que no caso do universo onde Grayson está inserido, de maneira nenhuma poderia ser conduzido apenas à luz da lua. Estou, com isso, querendo demonstrar que condenar a série Dracula da perspectiva da mitologia é realmente complicado. Porém, não perdemos o direito de escolhermos se nos envolvemos com essa nova versão, ou não.

Assim, posso dizer que meus sentimentos sobre esse episódio são ambíguos, porque ao mesmo tempo em que acho realmente interessante e tenso ver Grayson precisando lidar com a limitação do dia, tenho reservas sobre os métodos que levam Van Helsing a conseguir tal feito. Nós partimos do princípio de que os vampiros são mortos animados. O vampirismo na verdade substitui o estado da vida e isso se explica pelo fato de não haver envelhecimento na forma que sofreu a transformação. Os vampiros, pela lógica da “morte” e da paralisação das evoluções físicas, não deveriam produzir excrementos ou ter um organismo que lidasse com alimentos comuns. Mas, sabemos que na dramaturgia que nos cerca, não é assim. Os vampiros de The Vampire Diaries não comem, mas ficam bêbados e transam. Os de True Blood não comem nem bebem, mas também transam. Isso, da perspectiva fisiológica pela qual eles foram feitos, é absurdo. O corpo está morto e é animado sobrenaturalmente, logo ele não envelhece e logo não pode funcionar para nenhum outro propósito que não seja o sangue. Mas quem decidiu que essas regras são imutáveis? Ninguém. Não é lógico, mas a gente perdoa.

Muitos de vocês devem ter perdoado os métodos de Van Helsing para animar os corações de suas cobaias. O processo todo para levar Grayson ao tal evento diurno teve um grande apelo visual, com ótimos efeitos de distribuição do soro pelo corpo, mas ao mesmo tempo, ainda parece absurdo pra mim que um coração pútrido, de centenas de anos, possa voltar a bater através de choques dos quais um vampiro deveria ser imune. Ainda assim, vale a tentativa, já que não podemos negar a agonia de ver o vampiro com seus momentos no sol podendo acabar a qualquer minuto.

Fora isso, o episódio apenas se preparou para eventos que só continuarão no retorno do hiato. A base de Of Monsters and Men foi o retorno à luz do sol e a descoberta de alguns personagens de que nem tudo é o que parece. E nesse quesito, Jonathan foi melhor conduzido, não só por ter conseguido estreitar sua ligação com Mina, mas por ter percebido que está sendo manipulado por Grayson. A cena da atriz sendo mordida no teatro foi um bom finale, mas não sei porque raios Dracula ia esperar pra abordar justamente ela no meio de todo seu sofrimento.

Mina também teve lá seu momento, descobrindo mais algumas coisas sobre o sangue vampírico. Me julguem, mas achei um pouquinho exagerado Van Helsing já pensar em dar marteladas na moça. Quando ela contou sua historinha triste e ele mandou aquela explicação tosca pro efeito do sangue, torci o nariz, mas ela não ter acreditado nele recuperou a coerência da coisa. O momento entre ela e Lucy foi muito correto, teve um texto sensível e condizente com as emoções das duas. Ainda bem, porque a manipulação de Jane não teve nem pé nem cabeça. Lucy se declarar não vai afastar Mina de Grayson, muito pelo contrário. 

Dracula ainda tem exageros desnecessários. Jonathan Rhys Meyers não acerta o tom de jeito nenhum, indo da teatralidade da raiva à teatralidade da sedução. O personagem parece querer loucamente se aproximar do espectador com suas humanidades, mas parece o tempo todo como um vilão chapado que nunca fala com ninguém sem uma entrelinha pretensiosa. Porém, volto a dizer: não posso mesmo criticar a série baseando-me na sua mitologia, porque ela é absolutamente livre. O que acontece é que só não gosto muito do resultado. A ciência pode ter servido ao sobrenatural em alguns casos da dramaturgia, mas Dracula continua ruidosa, sem saber articular vingança sem burocracia, e fazendo seu protagonista ser tudo, menos o mito pelo qual ficou conhecido.

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