À medida que os traumas são expostos, diversas questões são suscitadas.

Ao longo de seus quase 200 episódios, Criminal Minds sempre abordou com maestria um tema sempre presente nos casos semanais ou na vida dos agentes: o trauma. Num contexto de um trabalho perigoso e imprevisível, é extremamente coerente que esse assunto se repita, como o ocorrido em The Return. Apesar de construir cenas belas e chocantes, o oitavo episódio inegavelmente apresenta algumas características que não condizem perfeitamente com alguns grandes momentos do passado.

Toda a história, baseada em princípios de lealdade e síndrome de Estocolmo, foi muito bem construída por revelar um Unsub bastante inconstante e certamente manipulador, induzindo que jovens adolescentes matassem com o objetivo de uma causa maior. Muito semelhante a práticas terroristas que o governo norte-americano sempre enfrenta, seja no território nacional ou no internacional, foi interessante ver a forma que os fatos se sucederam, permitindo que as diversas teorias dos profilers fossem ao encontro.

Muito se falou em missões suicidas, fato que retoma o terrorismo doméstico especulado pelos agentes em diversos momentos. Quando esses jovens estavam diante de uma situação de perigo, o destino já estava sacramentado. A certeza disso meio que reforçava o sentido de não haver contato com as famílias e, até mesmo quando alguém era salvo, o amor pelos familiares não era recíproco. Numa cena, por exemplo, a mãe finalmente havia reencontrado o filho, mas os sentimentos expostos anteriormente inexistiam. Essas são as consequências do trauma, da quase morte, do sofrimento, da mudança. Os acontecimentos vividos por nós nos moldam e também nos transformam em algo nunca antes esperado. Isso é a vida.

Segundo Edmund Burke, quanto maior o poder, maior o abuso, sendo esse um dos princípios básicos do Unsub. Capaz de fomentar uma dominação por meio de uma perspectiva excessivamente militarizada, ele manipulou aqueles jovens por um longo período, visto que foram sequestrados bem cedo, para assim chegar a seus objetivos e cometer a sonhada vingança contra os membros da polícia de Chicago. Esses adolescentes, por sua vez, desenvolveram uma Síndrome de Estocolmo forçada, já que passaram a defender a causa do Unsub devido à sobreposição de imagens e ideologias em suas mentes.

Partindo desses pressupostos, observa-se que o Unsub certamente seria inteligente, certo? Afinal, o poder sobre os jovens fora enfatizado e a capacidade de persuasão era constante. Entretanto, as ações finais dele entram em total contradição com essa ideia. Primeiramente, todos os “soldados” usavam exatamente o mesmo número do distintivo dele enquanto ainda trabalhava na Chicago PD. Para completar, sua fuga foi ineficiente e previsível, passando a impressão de que tudo teria sido fácil demais, ponto este em comum com o episódio passado. Parecia que o Unsub queria ser reconhecido por seus feitos, mas ele certamente não pensou como isso poderia desencadear uma série de eventos contra ele mesmo. Outro elemento a ser considerado, o monólogo na delegacia – ressaltando diversas perspectivas militares – e o fato de tudo aquilo ser somente o começo levavam a crer que a história teria certa continuação, visto que possivelmente o Unsub escaparia e continuaria a propagar sua vingança. Entretanto, isso foi refutado pela sua surpreendentemente captura sem dificuldade.

Nesse contexto, questiona-se o quão perigosa pode ser a fusão entre insanidade e vingança. O Unsub, devido ao que acontecera quando ainda era membro da polícia, queria vingar-se de uma vez por todas, mesmo que isso significasse a manipulação de crianças e atentados terroristas culminando na morte de civis. Tal fato pressupõe que não existe consequência efetivamente perfeita para isso, visto que como disse Confúcio, antes de entrar em uma jornada de vingança, é preciso cavar duas covas.

Finalmente descobrimos que Morgan tem uma namorada! Depois de anos incentivando Reid – principalmente nas primeiras temporadas – a seguir seu próprio caminho, parece que ele encontrou uma pessoa para comentar sobre os seus dias nada comuns. Assim como admirei a entrada de Beth na série há dois anos, também vejo com bons olhos a participação de Savannah. Primeiramente, os agentes merecem, antes de tudo, uma felicidade na vida pessoal. Além disso, também não consigo enxergar um relacionamento entre os agentes numa série tão densa como Criminal Minds, opondo a opinião de muitos fãs.

Não espero que ela seja mais uma serial killer fria e calculista a adentrar no universo da BAU. Muito pelo contrário. Já tivemos Jason Clark Battle para isso. Pôde-se observar que Savannah combina muito com a personalidade de Morgan, sendo o seu emprego trabalhoso apenas um fator coincidente. Ela aparenta ser determinada e inteligente, bem como o agente já demonstrou ser em diversas oportunidades.

Por isso tudo, The Return foi um episódio medianamente bom. Não foi vista uma investigação impecável, mas os roteiristas foram eficientes ao cumprir o que se propuseram. Isso é o que acontece quando Criminal Minds deixa os fãs tão mal-acostumados que não pode apresentar dois episódios que fugissem ligeiramente da grande sequência, visto que já se nota uma diferença. Afinal, “o retorno” a esses instantes é essencial.

Profiling…

– Fiquei tão triste com a morte da atendente do bar… Ela era tão simpática e alegre para morrer daquele jeito. 🙁

– Como eu adoro a dinâmica entre Morgan e Garcia! Secretamente apaixonados e segredos supersecretos. Sempre especial essa dupla.

– Um grande encontro só poderia ter a ajuda de uma pessoa especial chamada Penélope Garcia…

– Bem tensa a cena do garotinho já manipulado citando o número ao ser um dos soldados do Unsub nos instantes finais.

“Não há terror no estrondo, somente na antecipação dele.” Essa frase de Hitchcock nos faz lembrar como pode ser perigoso adiantar alguma coisa, ainda mais em um contexto de manipulações e mortes. Excelente citação!

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