A doença da indiferença, mata mais.
É curioso como a instituição da família pode ser ambivalente. Diante de uma grande provação, de uma grande mudança de rumos que prevê certas atribulações, a família pode ser a primeira a se destroçar ou a primeira a se constituir. Geralmente a família que se rompe é a dos laços sanguíneos e a que se estabelece, é a que se forma pela imposição do destino. Pais, mães e irmãos de sangue, tendem às vias do desentendimento com muito mais frequência e eloquência do que nas ocasiões em que a convivência “escolhida” é o mais próximo de um coletivo que se tem. As cobranças e imposições de um vínculo sanguíneo muitas vezes não resistem e colapsam.
Em The Walking Dead, entretanto, tudo está borrado pelas circunstâncias. Num mundo onde o próprio ser humano virou a peste, as instituições familiares e sociais perderam completamente a força. E por um motivo muito óbvio: ao se tornarem walkers, nada refreia o desesperado impulso das criaturas pela sobrevivência. A maior força dessa mitologia sempre esteve aí: cada um do seu jeito, homem e monstro, querem apenas sobreviver. E a cada temporada, aquilo que os diferencia – a compaixão e a consciência – vai se tornando cada vez mais tênue. Indifference foi um episódio que se dispôs a esvaziar os personagens de mais humanidades.
Talvez por isso Lizzy tenha sido escolhida para a abertura dos eventos. No diálogo entre ela e Carol estão presentes duas vertentes do mesmo intuito: preservar essa humanidade mencionada. O problema é que quando olha para os walkers, Lizzy só vê o que eles foram, enquanto Carol quando olha para eles, só vê o que eles destroem. O fato de a menina entender os “monstros” como apenas um outro estágio da existência, se dá exatamente por ela se agarrar ao pouco de lúdico que sua infância ainda resguarda. Claro que por suas propriedades apenas destrutivas, a condição de walker não pode significar um outro patamar de evolução biológica, mas Lizzy, sem saber, entende as coisas assim.
Mas a menina não é o foco dessa semana, o foco dessa semana é Carol. Não é por acaso, afinal. Os sobreviventes dessa tragédia seguem em frente bradando pela própria vida e daqueles que amam, no entanto, quanto mais vezes são obrigados a atirar em seus entes queridos para livrá-los dessa “nova existência”, essas motivações genéticas vão perdendo o sentido. Todos que estão sozinhos acordaram para uma nova forma de ver o mundo, e Carol vem despertando para isso, achando ser cada vez mais fácil desperdiçar pessoas, já que ela não tem uma obrigação moral com nenhuma delas. O problema é que o líder do grupo ainda tem família para precisar proteger e isso é preponderante para tornar os discursos dos dois totalmente incompatíveis.
Carol é a ausência total de instituições sociais, mas não porque perdeu toda a família. Ela de fato nunca teve um bom exemplo dela. O roteiro parece ter entendido isso, porque a isola com Rick numa busca por suprimentos que além de tudo, inclui entrar num monte de casas vazias, onde outrora havia laços aparentemente intransponíveis, para ver de uma vez por todas, que apoiar seus instintos em moral não vai realmente garantir nenhuma sobrevivência. É um beco sem saída, porque Carol está certa em fazer tudo pra viver, mas Rick está certo em se esforçar para se afastar da sanha incontrolável de ataque. Ele não é um walker, mas pode se tornar um, “caminhando” disposto a tudo para se alimentar e viver.
Desconfio que se dependesse só dela, Carol não levaria o casal em quem esbarraram dentro de uma das casas. Percebam como as interpretações do que acontece em The Walking Dead se contradizem o tempo todo. Dentro das casas não há famílias, apenas “caçadores”. Esses “caçadores” vieram ou procuram por algum grupo, que eventualmente – como bem coloca Bob – será desmantelado como qualquer outra família regular. É como viver em agonia constante, incapaz de proteger o que te torna um cidadão, mas necessitando do coletivo para alongar a sobrevivência. Juntar os que não tem família e formar uma, mas depois se desfazer deles quando necessário, porque ser indiferente aos que só precisam proteger a si mesmos, é muito mais fácil.
Em termos de conceito, Indifference foi um episódio relativamente interessante. Sempre será interessante, aliás, que eles lidem com a ausência de um personagem sem que ele precise ser dilacerado no processo. As conclusões a que chegam Carol e Rick deixam poucas alternativas realmente. Há uma, claro: não pensar tão pra frente como ele fez, e viver aos poucos. Mas os propósitos da dramaturgia de The Walking Dead são – ou deveriam ser – extremados. Ela vai embora (mesmo sabendo que isso pode não ser definitivo) sabendo que no fundo, Rick está mentindo para si mesmo. Não há mais ninguém a proteger.
Apesar de todo esse apelo textual, The Walking Dead continua tropeçando em alguma coisa que não sei bem dizer o que é. A série não vai bem das pernas e a sensação que tenho é que ela continua tendo 16 milhões de espectadores que estão todas as semanas seduzidos por uma ideia, tão fugidia como a fumaça, mas que ainda nos hipnotiza na TV. Falando por mim, continuo por isso. Pela noção de um mundo tomado pela força propulsora do primitivismo. Um mundo que obriga os homens a abdicarem da própria compaixão e ternura. É isso que me mantém aqui, mesmo que o desenvolvimento dessas questões não esteja sendo tão bem sucedido.
Semana após semana, o reviewer oficial da série (meu amigo Thiago Lourenço) tem sido totalmente justo com suas colocações acerca da falta de uma costura para a temporada, da falta de um antagonismo decente, da falta de um planejamento de personagens… Ao ponto de nos perdemos ante a irrelevância de tantos deles. Temos sangue, vísceras, gritos, perdas, lágrimas, todas as semanas, mas continuamos achando tudo desengonçado, tudo meio indeciso, como se os longos silêncios e reflexões não soubessem se são fruto da complexidade ou da falta bruta do que dizer. The Walking Dead chegou no centro de uma importância tão grande, que se comportou como Rick, apegando-se a proteções amedrontadas, incapaz de ousar pelo futuro e orgulhosa de uma inspiração que poderia libertá-la do ostracismo: os HQ’s.
The Wrong Bite: Sei que o episódio se dividiu na direção do grupo de Michonne, mas não acho que houve muita importância a não ser confirmar as analogias dessa semana.
The Right Escape: Gostaria que o roteiro investisse mais na discussão ou na reflexão de que os walkers já foram pessoas comuns. Vimos um pouco disso quando Bob vê os retratos do homem da loja. Não é motivo para desperdiçar uma faca, mas pensar por 2 segundos sobre como eram as vidas daqueles seres abomináveis já é bem devastador.















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